| Malavolta Jr. |
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| José Canella procura sempre enxergar o lado bom das coisas; quando estudante, teve uma Brasília que vivia lotada de amigos |
Foi o gosto pela matemática que levou José Hermínio Canella, mais conhecido como Zé Canella, a tornar-se engenheiro elétrico pela Fundação Educacional de Bauru, atual Unesp. Mas uma paixão muito mais antiga o transformou em artista e apoiador de iniciativas no campo da arte e do esporte na cidade. Aos 60 anos e sócio-proprietário da Thermic, uma empresa no setor de solda e usinagem com sede em Pederneiras, ele emprega mais de 200 funcionários e exporta para outros países na América do Sul.
Canella também foi fundador da Lettera Comunicação e teve participação na criação de outros dois estabelecimentos em Bauru, o Armazém bar e o antigo Luna. No campo do esporte, a Thermic apoiou o Bauru Basket e o Futsal da FIB.
Com rotina intensa, ele se divide entre a família, amigos de longa data e a arte abstrata, que exerce sobre ele grande fascínio. “Quando o empresário trabalha com ganância, deixa de viver. Eu não, sempre fiz de tudo. Tenho prazer em viver”, afirma.
Confira os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Como a sua trajetó- ria profissional começou?
Zé Canella - Minha família era proprietária da antiga Mercearia Canella, que também funcionava como boteco e existia entre o cruzamento das ruas Padre João e Araújo Leite, no Altos da Cidade. Lá, eu trabalhava com vendas e fazia de tudo um pouco e fiquei até me formar na faculdade. Eu também dava aula em escolas. Antes disso, fiz um curso de técnico de eletrônica no Liceu. Depois de formado, fui contratado por uma usina de açúcar e álcool, em Potunduva, onde trabalhei por 15 anos.
JC - E como surgiu a ideia de montar o próprio negócio?
Zé Canella - Em 1993, com mais dois amigos, o Abílio e o Virgílio, abrimos uma empresa de mecânica pesada ligada à usina. Havia muita quebra de máquinas e nós desenvolvemos um sistema para recuperar aços, que era diferente de tudo o que o mercado oferecia. O trabalho, inicialmente, era ligado à usina, mas foi MARCELE TONELLI ficando conhecido e decidimos sair e montar a empresa. Alçamos voo e, hoje, temos 7,4 mil metros quadrados de área fabril.
JC - Você se considera um empresário diferente e diz uma visão mais humana do negócio, de que forma busca aplicar isso?
Zé Canella - Eu sou o tipo de empresário que não usa terno e gravata. Respeito a gente mostra é com atitudes. Eu não diferencio os funcionários. Para mim, não existe ninguém melhor, nem pior. Todos têm a mesma importância, da diretoria ao chão de fábrica. Conheço quase todos pelo nome. E buscamos investir neles, com cursos constantes de aperfeiçoamento e benefícios. Investimos em comunicação interna também. Nossos funcioná- rios ficam sabendo de tudo que acontece lá, buscamos ser o mais transparente possível.
JC - Essa atitude surte algum resultado?
Canella - O atendimento da empresa é diferenciado. Temos uma pontualidade no prazo de entrega e um planejamento que funciona impecavelmente. Cuidamos do nosso futuro. A maioria dos empresários hoje não prepara as novas gerações para o mercado. Meu filho Daniel já está começando a tocar os negócios no meu lugar. Eu e meus sócios fizemos um trato: um filho por família irá assumir.
JC - Como a empresa tem driblado a crise?
Canella - Problemas na política sempre tivemos no País, mas parece que a mentira e a hipocrisia dominaram. Por isso, resolvemos resolver por nós mesmos. Conversamos com cada um dos nossos clientes, independentemente de posição política, e pedimos união neste momento ruim. E tem dado certo.
JC - Quando o Zé Canella empresário virou libertário e artista de obras abstratas?
Canella - Na verdade, eu sempre gostei de cultura, arte, teatro dança e esporte e a maioria das minhas amizades são com pessoas dessas áreas. Apesar da engenharia, ainda jovem eu fazia gravuras em madeira para pendurar em repúblicas, pintava chinelos, costurava bolsas. Também fui presidente da antiga União Municipal dos Estudantes de Bauru, então fazia arte e política estudantil. Eu tinha uma Brasília inseparável que vivia lotada de gente. Íamos para assembleias e festas. Fui um dos fundadores do Armazém Bar. Mas comecei a pintar firme mesmo nos anos 90. Só que nunca vendi um quadro, apenas doo para quem gosta. Procuro pintar o que sinto, me expresso por meio de cores e formas.
JC - E a figura do Zé Canella pai e marido surgiu quando?
Canella - Eu trabalhava no boteco e entregava bebidas. E um dia fui fazer uma entrega na república da Jussara, ela cursava assistência social. Nós militamos juntos. Depois vieram os filhos. Eu prezo muito pela família, procuro não falar de trabalho quando estou em casa e sempre faço esforço para, pelo menos, jantarmos todos juntos.
JC - Como você faz para manter tantas amizades de longa data?
Canella - A Internet matou um pouco as pessoas. Criou uma chatice, uma impessoalidade. Dou valor para as relações pessoais físicas. Procuro sempre visitar os amigos quando estou em Bauru. E quase toda semana vou ao Armazém.
JC - Qual seu lema de vida?
Canella - Peço sempre menos do que agradeço. E procuro ver sempre o lado bom das coisas, como aquela frase que diz: o copo vazio está cheio de ar.
