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Vergonha de ser brasileiro!?

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

'A crise política e econômica instalada no país contaminou a autoestima dos brasileiros. A vergonha de sua nacionalidade acometeu 47% da população, segundo pesquisa realizada pelo Datafolha entre 21 e 23 de junho.' Ao mesmo tempo cresce o número daqueles que querem deixar o Brasil ou desejam preparar seus filhos para que façam isso. Embora seja um fato real, pois, segundo a Receita Federal, entre 2014 e 2016, período mais agudo na retração econômica, 55 mil brasileiros saíram definitivamente do país, aumento de 82% em relação ao triênio anterior, essas duas atitudes parecem injustas quanto à solidariedade desejada do povo que forma uma nação. Renegar a nacionalidade e salvar-se quem puder são posturas de fundo egoísta, exatamente agora em que o mundo globalizado se empenha na absorção da ideia de sustentabilidade, de preparar um mundo melhor para as futuras gerações.

A primeira, que é a vergonha de ser brasileiro, não deveria ser o fato de ter nascido nesta terra abençoada que rebaixa a autoestima, mas a dependência de decisões de uma minoria, porém influente, de corruptos, falsários e criminosos alçados ao poder através da mentira. A vergonha, portanto, deveria ser de ter votado neles ou de não ter lutado para que eles nem pudessem ter sido candidatos. Vergonha, também, deveriam ter aqueles que, mesmo vendo os criminosos pegos pela Justiça e comprovada a sua participação no estado calamitoso a que reduziram o País, ainda têm coragem de sair em sua defesa e de prometer votar neles. A segunda, a de deixar o Brasil, até se justifica pela falta de oportunidades que provoca a fuga de talentos, o que agrava a situação. Melhor seria seguir o exemplo do nosso famoso cientista Cesar Lattes, descobridor da partícula atômica 'méson pi' (hoje píon) que disse: "Prefiro ajudar a ciência no Brasil do que ganhar um Nobel". E fez isso.

Pedro Luiz Passos, empresário e conselheiro da Natura, em artigo na Folha (30/6) comenta: "Em mais um efeito preocupante da supremacia da mediocridade sobre as necessidades que se avultam em todas as áreas, o Brasil assiste inerte à fuga de talentos para o exterior. O desalento leva cientistas, executivos e empreendedores a buscar ambientes mais favoráveis para desenvolver suas potencialidades ou transformar boas ideias em negócios promissores. Eis aí um mundo de problemas cujas soluções podem conjugar uma injeção de ânimo na economia com respostas inovadoras e melhorias na qualidade de vida, uma tarefa que cabe às nossas lideranças políticas e empresariais, assim que entenderem os riscos que essa diáspora da inteligência representa para o país."

Depois de um período bom de desenvolvimento, em que se inseriu entre as maiores economias mundiais, liderando os emergentes, sendo o primeiro no acrônimo Brics, o Brasil passa à 81ª posição no ranking internacional de competitividade. Essa situação causa um sentimento como este, expresso pelo filósofo italiano Nuccio Ordine em "A Utilidade do Inútil": "Dói ver os seres humanos, que ignoram a desertificação crescente que sufoca o espírito, consagrarem-se exclusivamente a acumular dinheiro e poder. Dói ver triunfarem , nas redes de televisão e na mídia, as nossas representações do sucesso, encarnadas no empresário que consegue criar um império blefando ou no político impune que humilha um parlamento fazendo votar leis de interesse pessoal. Dói ver homens e mulheres ocupados numa corrida louca em direção à terra prometida do lucro fácil, enquanto tudo que está ao seu redor - a natureza, os objetos, os outros seres humanos - não lhes suscita interesse algum. O olhar focado no objetivo a ser alcançado não permite mais desfrutar a alegria dos pequenos gestos cotidianos e descobrir a beleza que pulsa na nossa vida."

Dói, podemos dizer nós, agora, vendo a penúria dos hospitais, que perderam as condições de dar atendimento aos pobres, largados à matroca, e os bilhões desviados para propaganda política enganosa e para enriquecimento próprio. Dói ver os esqueletos de prédios públicos e de estradas essenciais às necessidades básicas da população, deixados ao abandono, depois de consumirem verbas fabulosas e alimentarem a corrupção. Dói, em face de tudo que estamos vendo e vivendo, ter entregue o Brasil às piores categorias de homens públicos, enquanto ainda temos uma grande reserva moral, mas que os aceita com tolerância ou procura afastar-se do país.

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