O título parece aleatório, mas não o é. Caminhem junto comigo nessa melancólica aventura que se segue.
Hoje (ontem) de manhã eu li sobre um triste caso: Piratininga está devolvendo um trator por falta de pagamento. A verba para comprá-lo vinha da iniciativa de um parlamentar; vinha mesmo, no pretérito, porque não veio. Nas redes sociais surgiu uma foto do trator sendo levado de volta pela empresa que o vendeu, confiscado.
A notícia de que Bauru finalmente ganhará um curso de medicina surge como um alento, por diversos motivos. A falta de médicos é, definitivamente, um problema em nosso país. Somos obrigados até a importá-los, como se sabe.
A cidade se beneficiaria imensamente do ecossistema socioeconômico que um curso de medicina traz, e, de quebra, resolvemos o problema de um Centrinho cambaleante e refém da falta de verbas, que voltaria a ser referência. Um esforço de muita gente bauruense, que ganha forma em uma época onde as dificuldades do setor público se mostram inúmeras.
No entanto, uma fala presente na notícia chama a atenção. O reitor da USP alerta: "Se o governo não cumprir com a sua palavra (encampar o Centrinho, transformando-o num hospital público), a discussão está encerrada". Mostra uma certa desconfiança no cumprimento do acordo, mesmo sem nenhum indicativo do contrário.
Cedo para falar qualquer coisa sobre sobre este projeto em específico, o reitor da USP provavelmente não faz isso de modo micro, e sim de modo macro: a descrença geral da população para com nossos governantes é muito grande.
Quem viu o trator ser levado embora, quem precisava do trator, quem precisa dos médicos formados pela USP, quem precisa do Centrinho, o próprio reitor da USP, eu, você, quem bateu panela e quem não bateu, quem comeu mortadela e quem não comeu.
Todos enfrentamos uma desconfiança recorde na classe política que não dá sinais de que irá melhorar tão cedo, dada a quantidade de escândalos que se aglomeram nos noticiários.
Esta semana, o governo federal voltou atrás em um aumento do benefício do Bolsa Família. Disse "não ter dinheiro" para tal. Pode ser, e é até provável que seja, que alguém que precisava que aquele trator funcionasse, precise do aumento do benefício social que recebe. Para esta pessoa, seria muito bom que, pelo menos, mesmo sem trator e sem dinheiro, que ela tivesse acesso a um médico, caso precise.
Digo tudo isso porque, independentemente de posição política, seria uma boa hora para ficarmos vigilantes quanto a esta criação do curso de medicina. Já perdemos o trator, já perdemos o aumento, mas ainda não perdemos a esperança.