Ele não era colecionador de carros antigos e nem mesmo de carros novos! Em momentos que se perderam no tempo, teve a felicidade (?) de possuir alguns espécimes do tipo: Dauphine, Gordine, Simca Chambord, DKW Vemag, Aero-Willys, Maverick e o mais potente de todos, o super Dodge Dart, motor V8, com câmbio junto ao volante, charmoso e gastão, sendo certo que a sua maior felicidade aconteceu quando achou compradores para eles.
Se hoje fossem apresentados em qualquer exposição de carros antigos fariam sucesso pela beleza de suas linhas moldadas nas mais renomadas fábricas americanas, francesas e italianas. Memorialista, lembrava-se desses veículos com uma ponta de saudade... Estava assim, cismador, quando vê passar e parar em frente ao portão de sua casa um extraordinário veículo. Extraordinário e fora do comum. Tratava-se de um Cabriolé de berrante cor vermelha com suas rodas enormes.
Segundo os entendidos desse tipo de veículo, os raios das rodas, muito finos, mediam mais de três varas do cubo à camba, ou seja, cada uma das peças curvas das rodas onde se prendiam os raios. Ele, desentendido, acreditava nos especialistas e não discutia nem o cubo e nem a camba, apenas admirava a beleza inusitada de um veículo também inusitado.
Atrelado aos varais vermelhos um cavalo de pernas altas, de raça claramente estrangeira, pêlo curto, exibindo veias salientes ao longo dos flancos. Em vestimenta elegante, o homem que pilotava o veículo estava incumbido de uma missão: encontrar, coordenar e alugar um local adequado para a instalação de um circo de animais de grande, médio e pequeno porte e, para isso, tinha parado para assuntar um espaço que atendesse o seu interesse e dos seus maiores.
Explicou tratar-se de um grande circo com animais selvagens e outros tantos já domados como, por exemplo, os elefantes, camelos, tigres de Bengala e tigres sem bengala, leões, onças e cavalos de sela e cavalos de batalha. O viajante disse também que, encontrado o lugar, providenciaria a arrumação da estrada para facilitar a passagem dos pesados carretões e comboios com os animais.
Tudo acertado, começou a grande montagem do circo. Mastros de ferro e de madeira, lonas e a indefectível bandeira no alto indicavam estar tudo pronto para o espetáculo. Na tarde seguinte, o sol já tocava a linha do horizonte, deixando sua luz difusa inundar o que restava do azul do céu. Na primeira noite, lanternas fumarentas de querosene inundavam de luz o chão de terra batida. Atrás das jaulas, figuras e sombras inquietas dos animais em cativeiro.
Por toda parte, um roncar soturno, o pisar incessante de patas macias sobre a serragem e o cheiro nauseabundo e desolador daqueles grandes animais. Iniciando o espetáculo, a apresentação soberba dos animais amestrados. Elefantes se faziam de surdos-mudos às ordens do domador. Camelos não tomavam conhecimento da plateia, aliás, um dos espectadores que estava na arquibancada achou que os camelos se pareciam com alfaiates. Seguramente lembrou-se de um.
Terminado o espetáculo, todos foram saindo em grupos; o rolar dos carros na estrada levantava muita poeira. A noite já avançada era muito clara, a luz branca da lua orientava os andejos para suas casas embriagados pela beleza do circo.
Após três dias, com o arriamento dos mastros e embarque dos animais, o circo deixou a cidade. Ainda no portão de sua casa ele sentia a saudade deixada pelos circenses e sua tristeza maior era saber que nunca mais iria ver um Cabriolé de verdade.