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Por uma Medicina mais humana

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O anúncio da criação e instalação da Faculdade de Medicina de Bauru, depois de 60 anos de espera, deu novo alento à cidade. Agora não é mais uma de tantas promessas. O vestibular para ingresso da primeira turma de 50 alunos acontece já no mês que vem. O prédio está pronto. É o mesmo do Centrinho, que está ocioso. Gastão de Souza Freitas, que dirigia a entidade, sonhava alto. Assim realizou grandes feitos. A estratégia mudou e, mais uma vez o Hospital de Lesões Cranio-Faciais vai prestar um grande serviço facilitando a realização de um sonho coletivo.

A Faculdade de Odontologia da USP veio para Bauru em 1967 como uma espécie de "prêmio de consolação". A cidade reivindicava Medicina. Perdeu a luta política para Emílio Pedutti, prefeito de Botucatu, dono de uma rede de cinemas e presidente da Associação dos Municípios. Pedutão tinha cacife político, financiava campanhas eleitorais e ficou com o prêmio maior. Graças a professores e dirigentes competentes, mais tarde ficaria configurado que a FOB valeu tanto, ou mais, que o grande prêmio da cidade vizinha. Chegou a ser considerada a melhor do Brasil e a nona do mundo na área odontológica.

O melhor de tudo é que a escola médica chega chancelada pela grife da Universidade de São Paulo. Deixa de ser mais uma. O Brasil é o segundo país do mundo com maior número de faculdades de Medicina. Só perde para a Índia. Em relação à população, ganha de todos. São 175 escolas para 208 milhões de habitantes. Os EUA têm 130 para 300 milhões. Segundo o Conselho Regional de Medicina paulista, 56% dos alunos não passaram pelos critérios de avaliação depois de formados. A "nossa" escola será diferente. Vaticina-se que será "a melhor da América Latina". Tomara. Instituições particulares incharam o mercado. Há escolas sem laboratórios, sem livros na biblioteca, sem vagas em postos de saúde para os alunos. Cobram de R$ 6,5 a R$ 12 mil de mensalidade.

Aqui, será de graça. Temos muitos profissionais, mestres e doutores, para compor o quadro docente. Também não precisa qualificação acadêmica. Basta que seja um bom médico, atualizado, e que goste de ensinar.

Fala-se num currículo escolar diferente, mais humanista. O futuro médico teria contato, desde cedo, com o atendimento à saúde na rede pública. Seria capaz de se sensibilizar com as mazelas a que ficam submetidos os pacientes do SUS. Comovido com o choro da mãe que não consegue internação para o filho; indignado com os pacientes em macas nos corredores do PSC, esperando vagas nos hospitais; revoltado com a falta de medicamentos. Soa romântico esperar que o jovem médico, de posse do seu CRM, vá se colocar a serviço da coletividade sem pensar nos seus interesses econômicos. E ninguém vai poder condená-lo pelas suas ambições financeiras. No Brasil, falta a obrigatoriedade a quem sai da escola pública retribuir o ensino pago pelos impostos. Trabalhar alguns anos em benefício da população que custeou a sua formação profissional.

Mas é possível que o futuro médico seja iniciado, pelo menos, a conhecer o efeito terapêutico da relação médico-paciente. Nos atendimentos de urgência, a angústia do paciente e dos familiares é vista como um fator que transtorna o ambiente de trabalho profissional e não como um aspecto do atendimento a ser abordado. No Pronto Atendimento ainda estamos o modelo centrado na doença. O que se quer é despachar o mais rápido possível a clientela em função do acúmulo da demanda. O foco é a doença e não o indivíduo.

A baixa resolutividade faz com que o paciente retorne mais vezes ao serviço, aumentando ainda mais a demanda. Precisamos de profissionais que saibam ir além dos conhecimentos biomédicos. Há que ter outras habilidades. "Consulta" também envolve alcoolismo, violência, problemas familiares, no casamento, na falta de emprego. Há que se considerar a necessidade do paciente além das queixas orgânicas que ele conta.

Fui professor em matérias técnicas na universidade, mas sempre entendi como fundamental a introdução, no currículo, dos saberes próprios às áreas de humanidades. Conteúdos como psicologia, sociologia, antropologia e comunicação. O aluno tem que entender a própria natureza da profissão, ainda mais em se tratando de um futuro médico. Postura ética, mas com profunda dimensão de solidariedade, para lidar com o sofrimento humano.

Olho no olho. Ouvir o paciente com respeito, antes de preencher formulários com pedidos de exames laboratoriais, sem olhar na cara do paciente. Que a Faculdade de Medicina de Bauru, se não for a melhor, que seja, pelo menos, a mais humanista.

O autor é jornalista e articulista do JC

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