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Entrevista da semana: Carlos Alberto Alves Neves

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 6 min

Motivos para se orgulhar o professor Carlos Alberto Alves Neves tem muitos: ter construído uma carreira reconhecida. Ter se casado com a namorada de adolescência, a Vera, com quem está há mais de 50 anos (43 de casamento e oito de namoro), ter tido dois filhos muito bem-sucedidos profissionalmente e, agora, dois netos lindos. Isso sem falar, ou falando em primeiro lugar, da mãe, a professora, jornalista, escritora e teatróloga Celina de Lourdes Alves Neves, que dá nome ao Teatro Municipal de Bauru.

Jornal da Cidade - O senhor teve uma veia teatral a partir de casa, gosta de escrever e, no entanto, acabou sendo professor e escolheu a área de exatas, como se deu isso?

Carlos Neves - Fiz muito teatro amador, me envolvi em mais de 60 apresentações com o Grupo Teatral Gil Vicente, foram inúmeros festivais, fizemos apresentações por todo o Interior de São Paulo e ganhamos muitos prêmios e não é porque dona Celina era minha mãe que ela aliviou, não...

JC - Como assim?

Carlos Neves - Fomos montar uma peça de Castro Alves, "Revolução de Minas". A exigência dela era que lêssemos o livro "Tal Dia é o Batizado", com todas as passagens da revolução mineira. "Depois de lerem, me procurem", disse ela. "Leiam, leiam sempre, só aprende quem lê muito", dizia ela.

JC - Era exigente?

Carlos Neves - Muito mesmo. Séria (afinal, criou três filhos sozinha, meu pai Eurico, alfaiate, morreu muito novo, aos 33 anos) e todas as peças passavam pelo crivo dela. Cenas mais fortes ela, mandava cortar. A filosofia era a do teatro voltado para educação e não para a promoção pessoal, como vemos hoje.

JC - Assim o senhor entrou para a área educacional?

Carlos Neves - Sim, porque ela era dona da Escola Progresso (datilografia, estenografia e secretariado, cursos pioneiros à época). Lá comecei como monitor, professor, depois diretor. Aí já comecei a desenvolver o gosto pelo magistério. O envolvimento com a matemática se deu de forma natural. O mais importante para mim foi estar na área de educação, levar em frente o que aprendi com minha mãe, pois o lema dela era o de Pitágoras "eduquem-se os meninos e não será preciso castigar os homens".

JC - Tanto que é reconhecido como professor até hoje?

Carlos Neves - Uma alegria é cruzar e ser reconhecido por ex-alunos, ter dado aula para o pai e depois para o filho, para minha felicidade isso acontece todo dia. Afinal, foram 34 anos só em uma das escolas que dei aula, sem falar em universidade. Meu orgulho também é ver ex-alunos realizados, professores, médicos, empresários. Fui professor até de astronauta, o Marcos Pontes (risos).

JC - E qual o segredo de ter dado tão certo?

Carlos Neves - Estudar. Até pouco tempo, devorava todos os livros de estatística. Aprendia tudo o que havia de novo no uso dela.

P.S. A esposa Vera, que o acompanhou na entrevista, o interrompe e diz que o segredo era outro.

Vera Neves - Na verdade, ele está sendo modesto. Acho que a diferença é a forma como a matéria é dada. Matemática, números são o terror, tiram o sono de muitos alunos, mas ele sempre aplicava a pedagogia do sucesso...

Carlos Neves - Sim, é uma verdade, aprendi que nunca se deve deixar de elogiar o esforço de um aluno, por menor que fosse. Aumentando a autoestima dele, a dificuldade passa a ser menor, o aluno se dedica ainda mais, todo professor deve ser um amigo.

JC - Falando nisso, o senhor tem a seu lado sua melhor amiga.

Carlos Neves - Ah! Eu conheci essa loirinha (Vera Lúcia Tozze) em 18 de setembro de 1966, em um desfile de Sete de Setembro e estamos juntos até hoje.

JC - E formaram uma família linda.

Carlos Neves - Sim, ela é minha metade. Uma mulher forte, determinada, amorosa e com um amor incomensurável pelos nossos filhos, Fabiano e Fernando, noras Josiane e Célia. Os netos, o Eduardo e o Leonardo completam nosso núcleo familiar. Sermos avós é uma bênção de Deus.

JC - A política também está no seu sangue...

Carlos Neves - Pois é, imagina que meu avô, pai da minha mãe, Antonio Alves Filho, jornalista independente, ferroviário da NOB (ferrovia Noroeste do Brasil) esteve preso em São Paulo por ser contrário às ideias do governo, Estado Novo, foi taxado de comunista. Eu e meus irmãos (tem o Paulo Roberto, jornalista e a Celina) fomos criados de forma engajada, sempre preocupados com a condução dos rumos políticos e com a educação, como já disse.

JC - Por isso o senhor tentou a vereança nas últimas eleições?

Carlos Neves - Pois é, sempre gostei de ajudar. Sou do Lions, cujo lema é servir, esse também é o meu objetivo político. Não ganhei, mas me senti muito realizado, foram mais de mil votos. E olha que fiz uma campanha modesta. E meu lema é: posso ser útil? Então, onde eu puder ser útil, estarei presente. Com ou sem mandato. Tenho afinidade com a Cultura e, se me chamarem, onde puder, ajudarei.

JC - Para finalizar, como vê este momento político na cidade?

Carlos Neves - Claro que estamos em transição. É preciso levar isso em consideração, relevar. O Gazzetta está vendo que nem tudo é como ele pensava, inclusive penso que a meta de mudar muita coisa em 100 dias foi ousada demais, poderia ter sido mais prudente, ter estipulado um prazo mais elástico. Vejo o futuro da cidade com bons olhos. Essa faculdade de Medicina, então, que conquista!...mas, sejamos justos, é uma vitória de sessenta anos, uma luta antiga e não de seis meses.

O porquê de ser professor

"Defino ser professor com um texto de Rubem Alves - O Jardineiro: 'O que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde, ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro'. O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem."

Perfil

Nome: Carlos Alberto Alves Neves

Nascimento: 07 de junho de 1949

Signo: Gêmeos ("ouvi dizer que quem é de Gêmeos nunca ficará rico ganhando na loteria, mesmo assim faço uma fezinha")

Time: São Paulo (meu neto mais velho já é são-paulino e, com certeza, o pequeno vai enveredar por esse caminho)

Filme: sou cinéfilo, gosto de aventura, romance, mas recomendo "O Círculo", que assisti recentemente, muito interessante

Livro: Vários, mas cito o que estou relendo no momento: "O Último Trem para Istambul" de Ayse Kulin

Fã: Paula Fernandes. E minha mulher sabe disso (risos)

Momento atual: aposentado, mas sem pendurar as chuteiras. Participo do Lions, sou voluntário, escrevo crônicas do cotidiano e, ainda, dou aulas particulares

Uma alegria: são tantas. Feliz eu sou, realizado eu sou.

Um agradecimento: a Deus, pela família, por eu poder transmitir o conhecimento da matemática, essa matéria tão necessária. E aqui vai uma historinha: meu neto Eduardo quer ser engenheiro e me perguntou se eu dou aula particular para ele. Quando respondi que sim, ele emendou: "Você vai cobrar, vô?" (risos, cai o pano).

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