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Igreja ordena hoje 1º Bispo de Bauru

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 10 min

A Igreja Católica de Bauru viverá, neste domingo (16), um dos dias mais importantes de sua história. A partir das 15h, terá início a cerimônia de ordenação episcopal do monsenhor Luiz Antonio Lopes Ricci, 51 anos. Esta será a primeira vez em que um sacerdote nascido na cidade é nomeado bispo.

O rito será realizado no Santuário Diocesano do Sagrado Coração de Jesus e contará com a presença de diversas autoridades religiosas de Bauru e Niterói (RJ), cidade onde Ricci exercerá seu ministério como bispo auxiliar daquela Arquidiocese. A expectativa é de que mais de duas mil pessoas participem do evento, que deve ter aproximadamente três horas de duração.

Na última sexta-feira (14) em sua casa, o monsenhor recebeu a equipe de reportagem do Jornal da Cidade. Em meio à correria que envolvia os últimos preparativos para a cerimônia e a ansiedade diante da proximidade da data, um sacerdote sorridente, que todos os fiéis já conhecem, demonstrou sua felicidade com as inúmeras manifestações de carinho que tem recebido desde que recebeu a notícia de sua nomeação.

"É um sentimento de alegria e tristeza, mas assim a vida é feita. Estou muito alegre por ter sido chamado pelo Papa, o que eu realmente não esperava, mas triste por deixar Bauru. E, agora que a ordenação se aproxima, fica um sentimento de gratidão e, também, de expectativa sobre o que está por vir", revela.

Ao longo dos últimos dias, centenas de voluntários estiveram mobilizados para que toda a solenidade transcorra com tranquilidade hoje. Além dos fiéis diocesanos de Bauru e região, os organizadores aguardam a presença de 15 bispos de várias partes do Brasil, 100 padres, seminaristas e fiéis vindos de outras dioceses, principalmente das caravanas da Arquidiocese de Niterói.

ESTRUTURA

Segundo dom Caetano Ferrari, bispo de Bauru e grande anfitrião da ordenação, cerca de 150 pessoas virão do Estado do Rio de Janeiro para cá. Entre eles, está o arcebispo dom José Francisco Rezende Dias, titular da Arquidiocese de Niterói, o bispo emérito Alano Maria Pena e o bispo de Duque de Caxias, dom Tarcísio Nascentes dos Santos. "Além deles e dos bispos da província, também irão participar bispos vindos de Goiás, Jacarezinho e Itapeva", elenca.

Para acolher os mais de dois mil fiéis, serão dispostas cadeiras na área externa da igreja e na rua Benedito Moreira Pinto, de onde a celebração poderá ser acompanhada em três painéis e seis televisores de LED. Além disso, serão oferecidos bebedouros, banheiros da igreja e dez banheiros químicos que serão colocados em pontos estratégicos. O evento contará, ainda, com suporte de ambulância e profissionais médicos e de enfermagem.

Como a expectativa é de grande fluxo de pessoas no local, a Emdurb irá interditar, a partir das 12h30, a quadra 7 da rua Benedito Moreira Pinto, quadra 3 da rua Doutor Romildo Brunhare e quadra 17 da rua Abrahão Rahal. Para garantir a segurança do público, 30 policiais militares, incluindo homens da Cavalaria e da Ronda Ostensiva Com Apoio de Motocicletas (Rocam), acompanharão o evento.

A Universidade do Sagrado Coração, que fica na rua Irmã Arminda, 10-50, no Jardim Brasil - a três quadras de distância do Santuário - disponibilizou seu estacionamento para que os visitantes possam guardar veículos.

ORDENAÇÃO COM LITURGIA ESPECIAL

O bispo dom Caetano Ferrari explica que a ordenação episcopal do monsenhor Luiz Antonio Lopes Ricci obedece à liturgia própria. Antes do início da celebração, a biografia do monsenhor será apresentada nos telões e, em seguida, começará a missa, celebrada por dom Caetano e concelebrada pelos bispos co-ordenantes dom José Francisco Rezende Dias e dom Luiz Antônio Guedes e demais bispos presentes.

"Serão feitas as leituras iniciais e ocorrerá a apresentação do eleito, com a leitura da bula do Papa Francisco, que o nomeou. Na sequência, o bispo eleito será interrogado e fará sua declaração de fidelidade diante da Igreja, de obediência ao Papa, de desejo de anunciar o Evangelho e de cuidar do povo de Deus", detalha.

Em seguida, será rezada a ladainha, com a invocação dos santos e de Nossa Senhora sobre o sacerdote. Depois, os bispos vão impor as mãos sobre o monsenhor, a quem será entregue o Evangeliário (livro com os Evangelhos). "Depois, será realizada a oração principal da ordenação e a unção com óleo na cabeça do bispo eleito", adianta dom Caetano.

Ao final, serão entregues as insígnias episcopais: a mitra (cobertura da cabeça), o anel e o báculo (espécie de cajado), quando os bispos farão a saudação. "Depois disso, a missa prossegue normalmente até a benção final, por volta das 18h", pontua.

SERVIÇO

A ordenação será realizada neste domingo (16), a partir das 15h, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, que fica na quadra 7 da rua Benedito Moreira Pinto, no Jardim Panorama, em Bauru.

'A PAZ É FRUTO DA JUSTIÇA'

Monsenhor Luiz Ricci, assim como o papa Francisco, que o nomeou bispo, é conhecido por também defender o respeito às diferenças

Não por acaso, o monsenhor Luiz Antonio Lopes Ricci será ordenado bispo durante o pontificado do papa Francisco. Assim como o pontífice, o primeiro bispo de Bauru é conhecido por seu posicionamento em defesa do respeito às diferenças e da justiça social. Autor do livro "A morte social: mistanásia e bioética", em que discorre sobre a morte causada pela exclusão, ele conta que, mesmo antes de iniciar seu sacerdócio, já guardava simpatia pelos trabalhos realizados pelas Comunidades Eclesiais de Base.

A partir de 5 de agosto, o já bispo Ricci levará todo seu conhecimento acumulado - inclusive durante o mestrado e doutorado realizados na Itália - para cumprir sua nova missão como bispo auxiliar na Arquidiocese de Niterói, que abrange uma população de 2,5 milhões habitantes. Em alguns anos, a expectativa é de que ele seja nomeado bispo titular de alguma diocese no Brasil.

Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista concedida ao JC.

JC - O senhor nasceu em Bauru e completou, neste mês, 20 anos de sacerdócio, nove deles à frente da Paróquia de São Cristóvão. Como é deixar Bauru depois desta trajetória tão ligada à cidade?

Ricci - Em 20 anos como padre, eu fiquei seis anos em Roma, na Itália, para o mestrado e doutorado. Também trabalhei (como professor) em Marília, mas minha diocese sempre foi Bauru, minha família está aqui. Estou indo para uma realidade nova, mas estou feliz em fazer esta mudança radical. Estou me esvaziando de tudo o que eu gosto - estar em Bauru e lecionar - para deixar Deus me preencher de outra maneira.

JC - Na avaliação do senhor, o que foi determinante para a nomeação? Qual o perfil de líder religioso que a Igreja Católica espera nos dias atuais?

Ricci - Não saberei dizer especificamente quais critérios a Igreja adota. Eu fui o último a ficar sabendo, recebi uma ligação: "o senhor foi nomeado bispo". Mas há um processo longo e rigoroso de consultas, que ocorre de maneira sigilosa, depois da indicação feita por um ou vários bispos. Porém, queria deixar claro que, para ser bispo, não precisa ter titulação, como eu tenho. Trata-se da indicação de um bom padre.

JC - Mas a titulação deve ter contribuído de alguma forma.

Ricci - Eu acho que contribuiu, mas não é determinante. Talvez a minha indicação para Niterói, uma grande metrópole, com o Rio de Janeiro ao lado, tenha sido influenciada pela minha formação acadêmica.

JC - Há um período de permanência pré-estabelecido na Arquidiocese de Niterói?

Ricci - Na prática, o bispo auxiliar fica por cerca de quatro a cinco anos e, depois, é nomeado como bispo titular de alguma diocese. Eu me considero novo e vou a Niterói para aprender. O arcebispo dom José Francisco é muito bom e vou acabar tendo uma preparação para, depois, assumir, sozinho, uma diocese.

JC - Qual é o principal desafio da Igreja em um momento em que as pessoas estão desesperançosas e cada vez menos tolerantes? Qual a importância que os líderes religiosos têm para que elas consigam atravessar e superar esta condição?

Ricci - Estou indo para um Estado que atravessa uma crise muito grande, que está sofrendo muito também com a corrupção. O papel das religiões e, em especial, da Igreja Católica, é formar pessoas espiritualizadas, com consciência crítica e valores éticos e, a partir daí, construir a paz e a justiça. O ser humano com fé madura consegue resistir mais às tentações, incluindo as pequenas corrupções do dia a dia, e respeitar mais as diferenças, sem se deixar tomar pelo ódio. O que nos leva adiante é o amor, o bom senso, o diálogo, a democracia. Outro Brasil é possível, mas não podemos ser imediatistas, porque as mudanças são lentas.

JC - O senhor escreveu um livro em que discorre sobre a morte causada pela exclusão social. O tema tem alguma conexão com o passado recente da Igreja Católica, relacionado às Comunidades Eclesiais de Base?

Ricci - Tem tudo a ver. Meu chamado aconteceu na década de 1980, época de grande efervescência política e sensibilidade social. Sou da geração X. Na minha juventude, quando eu ainda estava no comércio e nem pensava em ser padre, trabalhei muito colhendo assinaturas pela Constituinte. Venho da Pastoral da Juventude, que tinha uma visão mais crítica do sistema. Faz parte da minha história e procurei não perder isso. Eu sempre sonhei com um País mais igual, justo e fraterno e procurei me manter em uma teologia mais reflexiva e conectada com a realidade concreta das pessoas e com o sofrimento dos mais pobres.

JC - Os seus estudos sempre seguiram nesta linha e ela o acompanhará neste novo desafio?

Ricci - O mestrado, o doutorado e o pós-doutorado foram nesta linha. Eu nunca abandonei esta reflexão com viés mais social e político. Há um absurdo desperdício de vidas humanas provocado pelas desigualdades sociais, pela corrupção, pela falta de acesso à saúde e educação. A paz é fruto da justiça e do perdão. Não adianta falar em paz sem criar condições dignas de vida às pessoas. E este tema tem tudo a ver com a minha missão, porque o bispo é aquele que cuida do rebanho, que está sofrendo. Este tema é um chamado do próprio Papa: precisamos vencer a cultura da indiferença e construir um mundo melhor para todos.

Perfil

Monsenhor Luiz Antonio Lopes Ricci é natural de Bauru e nasceu em 16 de maio de 1966. Foi ordenado diácono em 26 de dezembro de 1996 e sacerdote em 10 de Julho de 1997.

Cursou filosofia no Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus e teologia no Instituto Teológico Rainha dos Apóstolos, ambos em Marília - SP, Centros de Formação da Província Eclesiástica de Botucatu. Convalidou os cursos de filosofia pela Universidade do Sagrado Coração (USC), em Bauru e de teologia pela Faculdade Joao Paulo II (FAJOPA), em Marília. Possui mestrado e doutorado em teologia moral pela Pontificia Universidade Lateranense - Accademia Alfonsiana, de Roma.

Fez pós-doutorado em bioética pelo Centro Universitário São Camilo, cuja pesquisa acaba de ser publicada pela Editora Paulus, com o titulo "Morte Social: Mistanásia e Bioética". É vice-líder do grupo de pesquisa "bioética e direito" do Centro Universitário Eurípedes de Marília (UNIVEM). Foi Reitor do Seminário Provincial Sagrado Coração de Jesus (2000 -2004) e diretor Executivo da Faculdade Joao Paulo II.

Foi pároco da paróquia Senhor Bom Jesus, em Cabrália Paulista, administrador da paróquia de Santa Teresinha, em Paulistânia e pároco da Paróquia Santa Maria, em Piratininga.

Também foi coordenador diocesano de pastoral, membro do Conselho Presbiteral e Vigário Geral da Diocese de Bauru.

Até sua nomeação, foi diretor da Faculdade Joao Paulo II, em Marília e professor titular de teologia moral, bioética e virtudes na mesma instituição. Atualmente, era pároco da paroquia São Cristóvão, em Bauru, assessor Diocesano da Pastoral da Criança e membro do Colégio dos Consultores.

Pela TV e rádio

Aqueles que estiverem longe ou não puderem comparecer ao Santuário Diocesano do Sagrado Coração de Jesus poderão assistir à cerimônia pela TV Preve, que fará a transmissão ao vivo a partir das 14h30 pelo canal local e pela internet (https://www.tvpreve.com.br).

A celebração também poderá ser acompanhada pelo site oficial da ordenação (https://ordenacaodomluizricci.tmp.br) e pelo Facebook da Arquidiocese de Niterói (https://www.facebook.com/arqnit). As Rádios Catedral FM 106,7 do Estado do Rio de Janeiro, Anunciadora, Senhora do Amparo e web amparo também transmitirão o evento ao vivo.

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