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Quietude para poder pensar

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Profissionais de áreas criativas tentam conciliar a sedutora tirania da era digital com pelo menos um nanossegundo de tempo, espaço e silêncio para pensar. A tarefa mais difícil, hoje, é a de se livrar do vício de manusear o smartphone, a toda hora.

A solução parece estar num programa inventado por acadêmicos norte-americanos, que permite ao usuário bloquear o acesso à internet do seu computador, ou meio móvel, por um período de até oito horas. O Freedom (Liberdade), como foi batizado o programa, congela a tela em intervalos variáveis para induzir o candidato levantar e dar uma relaxada. O Freedom liberta você das distrações. Devolve o tempo que você precisa para escrever, analisar e criar.

Segundo as pesquisas, as pessoas estão cada vez mais sufocadas pelas demandas ininterruptas da conectividade. Quem envereda pelo e-mail, Facebook, WhatsApp e coisas do gênero, dedica, em média, dez segundos a cada mensagem.

O dia acaba e o usuário não teve tempo e espaço para pensar. Blaise Pascal atribuía todos os problemas do ser humano à nossa incapacidade de ficarmos sozinhos e calados num quarto. "Distração é a única coisa que nos consola de nossas misérias, embora seja ela a maior de nossas misérias", filosofava o matemático francês já no século 17.

Os escritores e jornalistas têm necessidade de interagir com o mundo, para poder entendê-lo. Mas a profissão cobra disciplina, paciência e coragem. O ato literário ou de informação e análise dos acontecimentos é uma luta que só acaba com o ponto final. O tipo e a intensidade variam de profissional para profissional.

De nada adianta passar o dia "antenado", se não houver tempo isolado para pôr as ideias - ou os fatos - em perspectiva na tela do computador. No século passado, todo jornalista era considerado "boêmio" por natureza. Trabalhava em velocidade constante para levantar dados, fazer entrevistas e entregar o texto no horário de fechamento do jornal. Concluída a tarefa, o jornalista se achava no direito de invadir o bar da esquina e encher a cara. Era a forma de se aliviar do trabalho insano, sob pressão constante.

Utilizar as redes sociais somente após concluído o período de criação literária, hoje é a prática mais comum entre os escritores. Versão moderna da técnica usada por Victor Hugo no século 19. O autor de "Os Miseráveis" tinha por hábito escrever nu; cabia a seu mordomo esconder as vestimentas do patrão para impedi-lo de sair à rua antes de concluído o tempo que ele se alocara para escrever. Ele morava em frente à Place des Vosges, onde a sociedade parisiense fazia o "déjeuner sur lherbe" no seu tempo. Seria irresistível sair para ver o sol e gente bonita que o admirava. Mais recentemente, no século passado, Walter Benjamin, filósofo da Escola de Frankfurt, aconselhava aos jovens escritores: "Garanta que a mediocridade do cotidiano não atrapalhe seu trabalho" e "Nunca parar de escrever, mesmo que esteja sem ideias".

Na área educacional, o estrago é considerável. O desempenho dos alunos cai, cada vez mais, pela perda da capacidade de pensar e refletir de forma independente sobre um tema. Em meio a tantos aparelhos que piscam, vibram e tocam, cria-se um vazio na percepção.

Bilhões de pessoas, em todo o mundo, vivem grudadas a smartphones e telas de computador checando mensagens e alimentando o Face, o WhatsApp. Também não se pode pedir que o jovens e adultos joguem seus IPhones no lixo. Nem se prega o isolamento sem rumo. O que os pesquisadores reivindicam é uma vida tecnológica que também contemple a formação de ideias e a prática da quietude.

O americano Nicholas Carr, talvez o mais arguto observador da era digital, já havia tumultuado o coreto ao acusar o Google de criar uma geração de estúpidos. No seu mais recente livro "A Geração Superficial" (Ed. Agir), ele também culpa as empresas. Minha filha se queixa de chegar do trabalho e ainda ter que ficar até a meia-noite respondendo e-mails de chefes. É uma síndrome do mundo mercadológico que tem até nome - a ITSO. Em inglês significa a "incapacidade de desligar". Tem provocado tantas baixas médicas que os sindicatos estão exigindo um "basta". Nem no réveillon o funcionário tem sossego. Festeja, mas sem tirar o olho do aparelhinho.

A qualquer tempo, o chefete pode pedir informações ou expedir orientações de procedimentos. Na Alemanha existem leis alforriando os trabalhadores de atenderem chamadas meia-hora depois do final do expediente.

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