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Entrevista da semana: Maria Inês Faneco

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Douglas Reis
Maria Inês Faneco

A profissão é pipoqueira e produtora de eventos e festas. Mas isso está longe de definir Maria Inês Faneco. Criadora do grupo bauruense Esquadrão do Bem, destinado a acolher pessoas em situação de miséria, a mulher é uma guerreira em prol de quem precisa. E mais: Faneco é, acima de tudo, uma cidadã que zela pelas pessoas e pela cidade de Bauru, que ama de paixão.

Engajada mesmo, a ponto de uma pichação dela ter virado questão de vestibular da Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 2013. Isso porque para apoiar a campanha de combate à dengue ela pichou no muro de casa: "Quantas pessoas terão que morrer para que você limpe seu quintal?", com o intuito de mobilizar as pessoas. Essa é a Faneco, bem a cara dela. Acima de tudo, uma cidadã, uma lutadora, sempre a favor do bem. E é difícil falar só dela, sem falar no Esquadrão do Bem.

Jornal da Cidade - O Esquadrão do Bem tem a ver com o fato de que você já esteve internada no Esquadrão da Vida?

Faneco - É uma homenagem porque eu não seria quem sou sem isso, agradeço a Deus por ter colocado na minha vida uma amiga que me levou para lá. Estaria perdida nas drogas. 

JC - Conseguiu o que muitos acham difícil...

Faneco - E é difícil mesmo. Droga, álcool, são vícios difíceis, mas as pessoas precisam se amar. 

JC - E isso você tem... autoestima.

Faneco - Nós todos do grupo tentamos passar isso para os outros [em tempo: ela sempre fala na terceira pessoa do plural, raramente usa o verbo na primeira, o eu]. Não basta apenas doar comida, um cobertor, um enxoval de criança, procuramos acolher sem julgar. Não julgamos quem está no vício, nem a família que, muitas vezes, lava as mãos, cansa. O mínimo que fazemos é dar de comer, aquecer, dar uma roupa digna. É preciso muito mais, e, às vezes, só uma palavra amiga basta.

JC -  Quantos são, atualmente, os voluntários do Esquadrão do Bem?

Faneco - São 20 pessoas. É pouco, muito pouco, precisamos de mais voluntários, quanto mais pessoas vierem, melhor. Já os doadores passam de mil.

JC - Mais de mil?

Faneco - Sim, conheço todos eles, uns aparecem mais do que outros, com maior constância, outros nos socorrem nas festas mais tradicionais, Natal, Dia das Crianças, Páscoa...

Aceituno Jr.
Esquadrão do Bem e da Noite. Giovanna Paveloski, Renata Maluf, Tomaz Dangio, Maria América Ferreira, Marco Bechir, Marina Barrios, Jessika Oliveira, Sandro Paveloski, Maria Inês Faneco e Renata Colaço

JC - Por que então pouca gente põe a mão na massa?

Faneco - Há duas razões para isso. A primeira é a falta de tempo. A vida está corrida demais. Eu mesma acordo bem cedo, vou dormir tarde e termino com a sensação de que não fiz metade do que eu queria. Há tanta gente para ajudar, tanta coisa para fazer que eu já até fiz um trato "lá em cima" [faz um gesto apontando os céus]. Quando eu morrer tenho que voltar rapidinho, porque só uma encarnação não vai dar para fazer o que é preciso [risos]. 

JC - E a outra razão?

Faneco - É o medo, muita gente acha que é perigoso entrar nas favelas, então prefere ajudar de fora. 

JC - Você vai e não há problema algum...

Faneco - É uma questão de confiança!

JC - As redes sociais ajudam muito nesse sentido, não é? 

Faneco - Sim, sim, não é que as pessoas quando trazem esses sacos de arroz, esse monte de roupas e até esses chocolates pensem que vá ser desviado, não é bem isso. As pessoas gostam de resultado rápido (e quem está lá também precisa de tudo rapidamente, a fome aperta). Então, a gente postando nas redes sociais o resultado da doação, quem doa fica feliz e sente-se motivado a doar mais. A rede social ajuda muito nisso. 

JC - A transparência é muito importante, né?

Faneco - Sim, fazer tudo às claras, mostrar o que está sendo feito, aliás, tudo na vida deveria ser assim, não é? Só lamento que tem gente que confunde, acha que é autopromoção.

JC - Como você lida com isso?

Faneco - Isso não me magoa, embora não tenha nada a ver, vamos continuar trabalhando assim, mostrando o que fazemos, para atrair mais gente. Nesse sentido, o Facebook, por exemplo, é muito bom, depois de usar a mídia social, de uns cinco anos para cá, o nosso trabalho bombou, isso é o mais importante. 

JC - Há um outro tipo de crítica de que vocês dão o peixe e não ensinam a pescar...

Faneco - Para esses que pensam assim eu digo que, se não houver quem dê a comida, o cara não vai parar em pé, nem para conseguir trabalhar. Nós damos o básico, a roupa, a comida, realizamos o sonho de uma criança de ganhar presente de Papai Noel, mas quem quer ensinar a pescar é muito válido também. Gostaria muito de ver gente ensinando essas pessoas a ler, por exemplo, porque há muitas que não sabem nem ler, nem escrever... Mas eu entendo. Sempre haverá os que só criticam e não fazem nada.

JC - O que a magoa, então?

Faneco - Achar que não vou dar conta de tudo. Preciso dos outros e tem dias que acho que não vai dar, os presentes serão insuficientes para as crianças e, também, claro, eu me questiono se o caminho é esse. Há frustrações, sim.

JC - E como passa por cima disso?

Faneco - Só com muito joelho no chão (faz o sinal de quem se ajoelha e reza). Com orações mesmo. Rezar e pedir a Deus é meu melhor jeito de enfrentar a frustração, a impotência. E Deus sempre provê, exatamente como dizia minha mãe, para mim e meus irmãos.

JC - Você se revoltou quando era criança, é verdade?

Faneco - Sim, é verdade. Eu e meus irmãos (são dois e ela é a mais velha) chegávamos da escola e tinha dois ovos para três, por exemplo. E ela havia feito do terceiro um sanduíche com pão e dado para um mendigo (era assim que a gente chamava o morador de rua na época, hoje virou pejorativo). E minha mãe dizia: Deus provê, Deus proverá. Aquilo me dava uma raiva. Hoje, eu entendo, a abraço e peço perdão todos os dias por não compreendê-la à época. 

JC - Por sinal é o espaço que era dela que você usa?

Faneco - Sim, estamos aqui (rua Vereador Antonio Ferreira de Menezes, 1-87, Vila Falcão). Minha mãe (Eliza Bernardo Faneco) tem Alzheimer, aos 84 anos, está acamada. Mas a casa nos fundos e toda a parte da frente que seria a garagem usamos para receber as doações. Temos a cozinha da casa do Sandro onde são feitas as marmitas e levadas para os moradores de rua. Mas fazemos lanches aqui e também comida.

JC - E a venda de pipoca? O que representa para você?

Faneco - É o meu ganha-pão, meu sustento. Na verdade comecei com carrinho de lanches, mas mexer com comida perecível é mais complicado, às vezes dá, às vezes não; mais perdia do que outra coisa, porque os produtos estragam... Então, a pipoca tem menos risco, exige menos capital e, felizmente deu certo, me salvou da miséria, da fome. 

JC - Para encontrar a Faneco pipoqueira  e experimentar as suas pipocas é só ir em frente ao Teatro Municipal?

Faneco - Pois é, fico ali quando há eventos. Quando não estou contratada para uma ou outra festa, que também é minha especialidade atender em festas também, de todo o tipo: junina, julina, aniversários, almoços, jantares, de empresas... Mas você acredita que estou nas ruas desde os 17 anos e nunca consegui um ponto fixo?.. 

P.S. Vale ressaltar que ela dá o "dízimo", tira uma parte do que ganha com as festas para investir no Esquadrão do Bem. Contatos diretos com a Faneco: (14) 9 9675-5495 / 3879-4751.

Álbum de Família
Os sobrinhos Diogo Braga e Artur Faneco, Maria Inês, os irmãos gêmeos Luis Faneco e Paulo Faneco, a mãe Eliza Bernardo Faneco e o pai Rubens Faneco, já falecido

 

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