Tribuna do Leitor

Lawfare

Mauro Cesar P. Landolffi, professor
| Tempo de leitura: 5 min

Se observarmos como a história é escrita diariamente pela grande mídia, aí encontraremos talvez uma pista para as incoerências que às vezes sentimos na história que aprendemos na escola. Uma ideia, mesmo uma mentira, repetida, lida, ouvida e falada incansavelmente passa a ser tida como verdade, como base para as pessoas construírem convicções e argumentos - convicções que são criadas não pela observação, não pela lógica, mas pela repetição.

No final de 2014, quando a presidenta Dilma terminava seu primeiro mandato, o índice de desemprego - registrado pelos mesmos instrumentos que registram os índices atuais- era de 4,8% -a menor taxa de desemprego já registrada. Com a reeleição de Dilma, o candidato derrotado, do partido derrotado, prometeu perante seus aliados fazer "uma oposição incansável, inquebrantável, intransigente" no congresso ao governo eleito pela maioria dos brasileiros. Essa "oposição" resultou numa obstrução que simplesmente boicotou toda e qualquer tentativa de medida legislativa para combater a crise - que não afetava só o Brasil- e fazer o país continuar a andar para a frente.

Os políticos e as organizações que se alinharam a esse golpe, esses sim são os verdadeiros responsáveis pelo atual índice de desemprego -13,7%- e a situação em que jogaram o país. Viraram as costas para os trabalhadores e a população, partiram para o revanchismo e passaram uma rasteira na democracia e nos brasileiros. E são eles que, agora, estão querendo enfiar goela abaixo do povo reformas que usurpam muitos direitos e que têm como principal argumento o desemprego e a crise econômica que eles mesmos -os golpistas- criaram.

Os partidos e os políticos que de forma ilegítima tomaram o poder - em conluio com setores corrompidos da mídia, do judiciário e do legislativo - estão entregando as riquezas do Brasil para o capital internacional, tirando direitos conquistados pelo povo ao longo da história do país, liberando o desmatamento de florestas, a grilagem e a ampliação dos latifúndios e entregando a exploradores terras indígenas, para pagar acordos políticos. Mas o que se vê na grande mídia e, consequentemente, o que se ouve em conversas mais exaltadas são críticas e acusações a Lula e ao PT, com chavões criados como parte da história do golpe: "os tenebrosos 13 anos de governo do PT (em que o Brasil saiu do mapa da fome, teve as menores taxas de desemprego e ocupou seu lugar entre as seis maiores economias do planeta)", "o PT é uma organização criminosa (quando na verdade convivemos com partidos políticos -os maiores- que vêm sugando de forma sistêmica o dinheiro público, entregando ou sucateando nosso patrimônio, praticando desvios, rombos nos transportes, na saúde, na educação), "O PT acabou com o Brasil" (acabar com o Brasil é o que as pessoas e os partidos que tiraram Dilma do poder estão fazendo agora).

Na campanha do episódio que ficou conhecido como o "mensalão do PT", políticos de outros partidos -grandes partidos- já saqueavam desde muito tempo as finanças públicas, em dimensões muito maiores. Esses políticos hoje continuam, sem ser incomodados, a roubar o dinheiro público, livres para continuar fazendo leis, governando, alguns nem investigados foram. Como esses crimes não são noticiados também incansavelmente e com fervor, eles passam quase que despercebidos, não viram assunto em rodas de conversa, os comentaristas nem se lembram deles.

Não foi no governo do PT que acabaram com a ferrovia - que era pública -, para deixar essa fatia milionária do setor dos transportes nas mãos dos setores concorrentes da iniciativa privada -muitos internacionais. Não foi no governo do PT que entregaram a Vale do Rio Doce -um tesouro nacional, maior produtora de minério de ferro do mundo- a preço de banana para o capital internacional. Não foi o Lula ou algum político do PT que se apressou em apresentar projetos para entregar o pré-sal -esse outro tesouro do patrimônio do Brasil- também de mão beijada para interesses estrangeiros. Não é do Lula nem de nenhum político do PT as contas com milhões de dólares escondidas em um banco na Suíça.

O esforço dessa gente agora é tirar Lula do páreo para as próximas eleições. Autoridades passaram a trabalhar exclusivamente com a missão de encontrar base para pôr o ex-presidente fora do jogo. Não acharam nada. Tentaram então provar que o Lula roubou um pouquinho. Do sitio com os pedalinhos nem se fala mais... Partiram então para a história do triplex- e nem isso conseguiram. A decisão que condenou Lula não foi novidade para ninguém, pela forma "polêmica" como são conduzidos esses processos. A comunidade jurídica do Brasil - e também do exterior - que o diga.

Um governo legítimo e decente -próprio de um país desenvolvido- é aquele que representa os diferentes setores de uma sociedade de forma democrática. Interesses legítimos, negociados democrática e civilizadamente. A oposição é saudável e muito importante; é fundamental que haja diálogo, negociação. O que o Brasil não precisa é de um grupo de políticos profissionais trabalhando praticamente só para servir interesses externos e os de uma "casta" de nossa população, além de seus próprios interesses, ditando políticas que comprometem a vida e o futuro de toda a nossa população. Que cada pessoa possa votar de acordo com suas convicções e seus interesses, mas que ninguém seja privado da verdade para tomar suas decisões. Só a verdade tornará as pessoas livres para não se sentirem mais constrangidas em expressar sua opinião. Uma boa maneira de se ver se um político está do lado dos brasileiros ou não é ver a postura e a atitude que ele tem frente a essa usurpação de nossas riquezas e de nossos direitos, esse retrocesso que estão querendo impor ao Brasil e à nação brasileira.

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