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100% da população lendo e escrevendo bem

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

Existe isso? Em notícias sobre Educação na Finlândia encontramos esta informação: "o nível de literacia da população ascende, virtualmente, aos 100%".Como não conhecíamos o termo 'literacia', pesquisamos e encontramos:"capacidade de usar a leitura e a escrita como forma de adquirir conhecimentos, desenvolver as próprias potencialidades e participar ativamente na sociedade". Quer dizer: 100% da população sabendo ler, escrever, entender e desenvolver seus próprios conhecimentos. Parece inacreditável quando olhamos para o Brasil com 8,7% de analfabetos absolutos e 27% de analfabetos funcionais, que somados são 35,7% ou mais de 75 milhões de brasileiros incapazes de escrever ou ler e compreender um pequeno texto.

Pode-se argumentar que a Finlândia é um pequeno país com pouco mais de 5 milhões de habitantes, metade da população da cidade de São Paulo, mas é preciso levar em conta a sua história. Situada próxima do Polo Norte, onde o inverno dura 180 dias, com temperatura que varia de -15ºC a -30ºC, foi colônia da Suécia do século XII ao XIX, tornando-se Grão-Ducado da Rússia em 1809 e só se tornou independente em 1917. Passou por um período tumultuado por guerra civil e contra a Rússia e a Alemanha para, somente após a 2ª Grande Guerra iniciar a caminhada que a levou, a partir de 1970, a ser considerada um Estado de bem-estar social, por atingir um dos melhores níveis de renda e qualidade de vida do mundo.

Depois de séculos de domínio e de pobreza, o país levou menos de meio século para atingir esse alto grau de desenvolvimento graças à opção feita pelo seu Parlamento de garantir escola de qualidade gratuita para todos, do ensino fundamental ao superior. Escolas onde o "filho do empresário estuda ao lado do filho do lixeiro, não se admitindo que a educação de uma criança dependa da condição econômica de seus pais". A Educação foi priorizada de verdade, não ficando só no papel. A carreira do professor foi tão valorizada que vem sendo uma das mais disputadas devido ao alto status que atingiu. Como a qualidade não depende só de garantir bom salário, o professor tem garantida a sua formação até o mestrado, a atualização e todos os recursos que são necessários ao seu trabalho. Com isso é possível trabalhar com projetos inovadores, que acompanham as mudanças vertiginosas dos tempos atuais. Com mais eficácia foi possivel reduzir o número de horas de aulas e de provas.

Aqui no brasil caminhamos no sentido inverso. Até a década de 1970 nós tínhamos ensino básico gratuito de boa qualidade para todos, onde filhos de fazendeiros e de empresários setavam lado a lado com filhos de trabalhadores da roça no curso primário, no ginasial e no colegial. Os professores tinham melhor status e gozavam de grande respeito. No Estado de São Paulo, mais adiantado, até começamos uma experiência inivadora, no governo de Carvalho Pinto, em 1961 - os Ginásios Vocacionais. As escolas particulares eram uma minoria. O que nos faltava era a inclusão de uma parcela significativa que ficava fora da escola, principalmente nas regiões Nordeste e Centro-Norte. Se tivesse havido uma expansão prgressiva do sistema hoje poderíamos estar em condições iguais ou melhores que as da Finlândia. O imediatismo, entretanto, preferiu a inclusão quantitativa, aumentando o número de vagas sem dar as condições que vinham garantindo a eficácia do sistema.

Uma das medidas tomadas pelo governo militar foi a criaçãpo do Mobral, com o objetivo de erradicar o analfabetismo em dez anos. Começou em 1971 de forma festejada e não se pode negar que deu boa contribuição. Idealmente, entretanto, deveria ser um projeto temporário, até que o sistema formal de educação fosse universalizado e a alfabetização por fora não fosse mais necessária. Assim, foi se extinguindo, substituido por outros projetos, ao passo que o sistema formal, em vez de melhorar, piorou. Hoje as escolas particulares estão procurando suprir o que falta em qualidade e não se vislumbra uma reversão do quadro, principalmente depois que mais de uma década de galopante corrupção colocou o País em estado de mséria. Como a esperança é a última que morre, esperemos que quando a Lava Jato puder fechar o registro e pudermos passar o pano para secar e lustrar, começaremos uma nova fase.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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