Sendo totalmente franco, a vida é de uma inconveniência enorme para a Física. Seja um micróbio, seja uma borboleta, um elefante ou uma palmeira, o que um ser vivo faz não é igual àquilo de que ele é feito. Não há combinação química que faça um violão escrever uma peça musical. Assim como o corpo humano, a madeira do violão é composta inteiramente de elementos orgânicos, principalmente carbono, hidrogênio e oxigênio ou celulose. Não há nenhum aspecto da celulose que explique a música dos Beatles ou qualquer outra. Tampouco a química do corpo humano explica atividade alguma de alguém. A vida tem propósitos, significados, orientações e metas, os compostos orgânicos não têm nada disso.
A dissipação de energia é conhecida como entropia e todas as formas de vida a combatem. A vida nada mais é do que o acúmulo de energia que não se dissipa, até a morte. Se soubéssemos como foi que os organismos vivos descobriram como reverter a entropia, talvez o motivo pela qual a vida existe seja encontrado. A verdade é que a biosfera terrestre é uma ilha de entropia negativa carregada de informações e de complexidade que não tem nenhuma razão científica para existir que não seja existir.
Quase toda a energia disponível para a vida em nosso planeta vem da fotossíntese. Além de precisarem de uma reserva própria de energia para crescer, as plantas estão na base da cadeia alimentar de toda a vida animal da Terra e essa energia vem do Sol. Quando a luz solar atinge as células que contêm clorofila, sua energia é colhida pela planta e usada na produção de proteínas e outros compostos orgânicos. A Química, até hoje, não consegue explicar a precisão quase perfeita do processo de fotossíntese.
O surgimento da vida é tanto científico quanto místico. Os tubarões, plânctons, caranguejos e outras formas de vida que conviveram com os dinossauros não evoluem há centenas de milhões de anos. O que leva algumas criaturas a ficarem estáveis enquanto outras são levadas a galope pela trilha da evolução?
Por que dizemos que o cérebro é consciente? O cérebro é constituído por átomos e moléculas comuns. O cálcio é o mesmo cálcio que encontramos no calcário; o ferro é o mesmo ferro que se encontra nas ligas de aço de nossas moedas. Nem as moedas e nem o calcário são pensadores, mas todos nós concordamos que o cérebro humano ocupa um lugar privilegiado no universo, mas isso não significa que os átomos que o compõem sejam diferentes dos átomos do calcário e da moeda.
Quando uma molécula de glucose atravessa a membrana cerebral, a glucose não se altera fisicamente, mas contribui com os processos que chamamos de pensamento, sentimento e percepção. Como é possível que um simples açúcar, que usamos para adoçar o café, tenha aprendido a pensar?
Realmente, a ideia de átomos que aprendem a pensar é absurda. Jamais será localizado o momento exato em que átomos adquirem consciência. De todos os elementos químicos conhecidos, apenas seis constituem 97 por cento do corpo humano: carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo e enxofre. Se alguém espera misturar e combinar esses átomos de uma maneira extremamente complexa, de forma que, de repente, eles comecem a pensar, não vai conseguir.
Nunca ninguém conseguiu explicar a conexão entre o que uma célula do cérebro faz e o mundo tetradimensional que o cérebro produz. O mundo é ilimitado e estamos imersos em seu mistério e em sua beleza. A incerteza em que estamos mergulhados, nossa precariedade, suspensa sobre o abismo da imensidão daquilo que não sabemos, não torna a vida sem sentido: ao contrário, a torna preciosa.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru