Bairros

Duplamente em Bauru

Ana Beatriz Garcia, Especial para o JC
| Tempo de leitura: 11 min

Fotos: Samantha Ciuffa
Placa de rua no Parque Bauru, um dos bairros oficialmente com nome do município
Mari Forquim Batalha da Silva, que é moradora do Parque Bauru há 13 anos
Crianças brincam em área aberta, ao lado do Centro Unificado (CEU) das Artes e do Esporte, próximo ao Parque Bauru

Próximo de comemorar 121 anos nesta terça-feira (1), Bauru pode se orgulhar de ter "dupla denominação" em algumas regiões. E mais: segundo a prefeitura, três localidades carregam, em caráter oficial, o nome da cidade. São o Parque Bauru, o Jardim Nova Bauru e o Residencial Nova Bauru.

O Jornal da Cidade visitou esses bairros para conhecer algumas peculiaridades e a história de seus moradores. Eles festejam avanços, mas também apontam demandas e desafios. Sem, contudo, perder a esperança de receberem melhorias.

Além dos bairros já citados, o nome "Bauru" também é encontrado em ruas e avenidas - não só dentro da cidade, mas também em outros municípios -, e no Parque Baurulândia que fica entre a Vila Aimorés e o Distrito Industrial Domingos Biancardi (Distrito Industrial II), mas que, segundo informações da prefeitura, trata-se de trecho de menor dimensão demográfica.

NA MEMÓRIA

Entrevistada na rua Lázaro Fernandes de Lima - uma das que separam o Parque Bauru do Núcleo Habitacional Pastor Arlindo Lopes Viana, popularmente conhecido como Bauru 22 - Mari Forquim Batalha da Silva, 45, comenta que quando chegou no bairro, 13 anos atrás, ainda tinha dificuldades para andar por lá. "Quando eu mudei pra cá, não tinha asfalto. Eu vi asfaltarem isso tudo, antes disso era horrível para transitar. A gente tinha que vir de bota até a avenida Lúcio Luciano, que era a única asfaltada, e trocar o calçado só aqui", comenta.

O caso do Arlindo Lopes Viana/Bauru 22 é o de muitos outros da cidade. Segundo informações da Cohab, alguns conjuntos habitacionais receberam seus nomes oficiais depois de saírem do papel, mas popularizaram-se com o nome "Bauru" seguido do número.

O BOM DO INTERIOR

Quem vê Bauru com sua população estimada de 369.368 moradores - de acordo com o último levantamento do IBGE -, pode até esquecer de que se trata de uma cidade que também sabe preservar hábitos saudáveis de cidades menores.

Crianças brincando nas ruas, idosos com suas cadeiras nas calçadas e aquela sensação de que todos se conhecem praticamente pelo nome são cenas comumente encontradas no dia a dia dos três bairros visitados.

"Aqui nós realmente conhecemos todo mundo", comentava Maria das Graças Silva, 54, depois de cumprimentar três motoristas que passaram por onde estava sendo entrevistada pela reportagem no Residencial Nova Bauru.

Veja algumas curiosidades?

Falando em carregar o nome de Bauru nos bairros, é possível lembrar dos núcleos habitacionais que, mesmo batizados oficialmente com outros nomes em sua implantação, popularizaram-se como “Bauru” seguido de um número. Esse é o caso do já citado Bauru 22, do Bauru 1, Bauru 16 e Bauru 2000 que são, consecutivamente, os núcleos habitacionais Pastor Arlindo Lopes Viana, Isaura Pitta Garms, Vereador Edson Francisco da Silva e Nobuji Nagasawa. Outros núcleos também têm seu número, mas são chamados por seus nomes oficiais (veja no quadro abaixo).

Moradores reconhecem avanços no Pq. Bauru. Porém, quando chove...

 Com o crescimento do município, bairro que carrega nome da cidade também evolui, mas ainda encara desafio recorrente durante os temporais

Fotos: Samantha Ciuffa
Pista de skate pertencente ao Centro Unificado (CEU) das Artes e do Esporte, que também atende crianças e jovens do Parque Bauru
Claudio Caldato Louzano, microempreendedor da região, relembra história curiosa envolvendo seu minimercado
Tereza Goulart Maquiroli é conhecida por caminhar com banquinho pelo bairro: simpática

Ao longo de seus 121 anos, Bauru progrediu e evoluiu. O mesmo ocorreu com o Parque Bauru, desde sua criação há 64 anos. Além da implantação do asfalto na região, um dos avanços que os moradores apontam como mais benéficos para o bairro foi a chegada do Centro Unificado (CEU) das Artes e do Esporte e do Centro de Referência da Assistência Social (Cras) no Bauru 22 - que fica a uma quadra do bairro.

"O Cras ajudou muita gente dessa região. Lá tem cozinha comunitária - que oferece comida por R$1 -, quadra de futebol, pista de skate, aula de música, biblioteca e sala de cinema. A minha parte preferida do bairro é o Cras e o parquinho das crianças", comenta Mari Forquim Batalha da Silva, 45, "bauruense de coração" há 26 anos e moradora por lá há 13.

Quem também acompanhou as mudanças e evoluções do bairro e ressalta a atuação do Cras é Claudio Caldato Louzano, 56, dono do minimercado que é referência dentre os moradores da região. "Eu vi o bairro crescer e lentamente se transformar, tornar-se o que é hoje. O bairro mudou bastante e muitas benfeitorias foram feitas, como a implantação de asfalto e do Cras".

Mas, segundo o comerciante, ainda faltam algumas ações para deixar o local melhor, principalmente em relação às épocas de chuva, que é quando ele diz serem os dias de mais dificuldades.

"Quando chove, é um rio que passa aqui. Eu já cheguei a amarrar o meu carro no poste umas duas ou três vezes para ele não ser levado pela enxurrada, que é muito forte. Colocaram uma galeria, mas não é suficiente. Ela não dá conta do fluxo de água, acaba transbordando e a água chega a entrar para dentro da loja", lamenta.

Procurada, a assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal informou em nota que, no momento, não dispõe de verba para realizar melhorias na avenida. No entanto, melhorias na referida avenida Lúcio Luciano não estão descartadas.

DONA DO BANQUINHO

Mas não só de histórias ruins são as memórias dos 23 anos em que mora no Parque Bauru.

Mesmo com as dificuldades, Claudio logo recorda de uma história curiosa que envolve seu mercadinho e uma moradora do bairro. "Todos os dias a dona Tereza passa aqui para deixar o banquinho dela. Todo mundo a conhece no bairro", diz o comerciante.

Quem contou essa história foi a própria dona do banquinho, Tereza Goulart Maquiroli de 75 anos. Segundo a aposentada, todos os dias ela subia as quatro quadras que a distanciam do Cras com ele transpassado no braço.

"Um dia, até confundiram o meu banquinho. Um moço falou que era da avó dele, mas eu disse que era meu e tinha quatro iguais em casa. De tanto me ver andar para cima e para baixo com o banquinho no braço, ele me ofereceu para deixar lá no mercadinho. Agora fica mais perto, só caminho uma quadra com ele e depois guardo de novo", conta.

Dona Tereza carrega o banquinho para cima e para baixo para poder esperar na fila e não cansar enquanto o almoço na Cozinha Comunitária não é servido. Ela garante que a espera é breve e que vale a pena.

"Vou todo dia almoçar lá. Eu adoro. Acho a comida muito gostosa. E agora todo mundo aqui no bairro me conhece como a velhinha do banquinho".

Memórias

De acordo com informações do jornalista e memorialista, Luciano Dias Pires, na região do Parque Bauru – o mais antigo dentre os bairros visitados – encontrava-se o hipódromo de Bauru, nos anos 50.

“Naquelas redondezas funcionava o Jockey Club Terra Branca, construí- do por Antônio Bortoni. No início, era muito frequentado, inclusive, o noroeste chegava a antecipar os jogos do domingo para o sábado, por conta do movimento no Jockey”, comenta.

A memória desse período ficou registrada no nome da avenida do hipódromo, localizada no Núcleo Habitacional Pastor Arlindo Lopes Viana - Bauru 22, vizinho do Parque Bauru.

Nova Bauru: dois bairros e duas realidades

Moradores do Jardim Nova Bauru destacam os espaços de lazer; já os do residencial de mesmo nome apontam dificuldades nesse sentido

Fotos: Samantha Ciuffa
Área verde no Jardim Nova Bauru, em frente à casa de Carmelita Caçula da Silva
Daniel Camargo dos Santos destaca que é bom ter áreas de lazer próximas ao lugar onde mora
Carmelita Caçula da Silva, moradora do Jardim Nova Bauru há 40 anos

Distante algumas ruas do Parque Bauru, outro bairro leva o nome da cidade, o Jardim Nova Bauru. O mesmo ocorre com o Residencial localizado próximo à Vila São Paulo, que compartilha dessa nomenclatura. Além da distância de aproximadamente 12 km entre os bairros, outra questão ainda separa as preferências dos moradores das duas localidades: as áreas de lazer.

Dentre os jovens até os mais velhos habitantes do Jardim Nova Bauru, o destaque fica por conta das áreas verdes e da tranquilidade da região.

Moradora há quase 40 anos do bairro, Carmelita Caçula da Silva, de 70 anos, revela que quando chegou ali, só havia uma casa amarela de um índio, na rua José Fernando de Souza - hoje, ocupada por muitas casas. "Eu sou feliz aqui, vi isso crescer. Até hoje, nunca ninguém me aborreceu. Já ouvi falar de gente que teve a casa roubada, mas comigo nunca aconteceu nada, ainda bem", comemora.

Além disso, a aposentada - que mora em frente a uma área verde - destaca que gosta do visual. "É bonito essa natureza em frente de casa. Eu fico a maior parte do tempo por aqui mesmo, é muito difícil ir para o centro da cidade, é bom ver isso".

O espaço verde nesse bairro, assim como os do Bauru 22 também são bastante utilizados pelos jovens e crianças das imediações. Um deles é Daniel Camargo dos Santos, 18, que não precisa ir muito longe de casa para encontrar com os amigos. "Meus colegas moram aqui por perto ou vem pra cá. Eu passo a tarde aqui, solto pipa e jogo baralho. A gente gosta de ir no Bauru 22 também, porque lá tem bastante espaço, a quadra e a pista de skate. É bom ter esses lugares perto da gente", revela o jovem.

OUTRO NOVA BAURU

Samantha Ciuffa
Aparecido Donizete Santana, um comerciante e morador do Residencial Nova Bauru há 13 anos

Bem distante das áreas para lazer do Jardim Nova Bauru, no Residencial de mesmo nome, o comerciante e morador do bairro há 13 anos, Aparecido Donizete Santana, 54, comenta que os espaços de entretenimento para os jovens e, principalmente, para as crianças é escasso.

"As crianças brincam bastante nas ruas, soltam pipas, andam de skate, principalmente aqui na avenida. Era preciso ter um lugar melhor e mais seguro pra elas brincarem, que fosse apropriado para o lazer das crianças", comenta o dono do minimercado da região.

Mesmo estando distante do centro da cidade, ele ainda comenta que gosta do bairro e que não encontra dificuldades para se deslocar a outros pontos da cidade. "É um bairro bom de se morar, sem muita violência. É longe, mas o acesso à cidade é rápido por conta da rodovia. A cidade em si é boa. Tem bastante coisa ainda para ser feita, acredito que poderia ter um olhar mais especial principalmente nas periferias, mas eu gosto muito de Bauru".

Em nota, a Prefeitura Municipal comunicou que a Secretaria de Esporte e Lazer (SELJ) está estudando a implantação de dispositivos de lazer na região do bairro citado.

Pronto para a festa?

Morador do Ferradura Mirim, Alan dos Santos Lima, 26, caminha algumas quadras para passar a tarde com os amigos no Jardim Nova Bauru. Ele conta que todos os anos confecciona pipas para soltar na megafesta Viva Bauru (realização do Jornal da Cidade, Prefeitura Municipal e Rede Confiança Supermercados). "No ano passado eu levei 43 pipas pra eu e os meninos soltarmos. Nesse ano, resolvi fazer algumas maiores. Vou levar essas grandes e mais 10 pequenas", declara mostrando suas pipas coloridas.

Samantha Ciuffa
Alan dos Santos Lima levará pipas para a comemoração do aniversário da cidade no Parque Vitória Régia

Caminhada vira costume entre os moradores do Residencial Nova Bauru?

Todos os dias, por volta das 17h30, as vizinhas Maria das Graças Silva, 54, Eliete Vicente Pereira Farias, 53 e Maria Beatriz Zocca Mulato, 16, moradoras do Residencial Nova Bauru tem um encontro marcado. O costume é de ir caminhar, assim como outros moradores do bairro e imediações também fazem. Segundo elas, o trajeto tem alguns trechos não muito seguros, mas é o espaço que têm para se exercitar.

"Faz quase um ano que fazemos caminhada por aqui. Nós vamos da rua sete até a ponte lá em cima. Tem muita gente fazendo isso todos os dias, virou um costume no bairro", conta Maria das Graças. De acordo com o trio, a escolha é pela saúde, mas também é possível fazer novas amizades no trajeto.

Assim como afirmam as amigas Viviane Godoy Barreto, 16, e Karina da Silva Cardoso, 17, moradoras do bairro Pousada da Esperança, que vão até o Residencial Nova Bauru para fazer caminhada por questão de lazer e de saúde.

"A gente sai todos os dias por volta desse horário. Tem dias que eu faço caminhada com o meu irmão ou venho com a Karina. Nessas caminhadas a gente conhece pessoas e é possível fazer novas amizades", comenta Viviane.

Samantha Ciuffa
Maria das Graças Silva, Eliete Vicente Pereira Farias e Maria Beatriz Z. Mulato caminham no Res. Nova Bauru

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