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Dunquerque, filme sem heróis

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Candidato certo ao Oscar de 2018, "Dunkirk" é um épico de guerra que relata a retirada das tropas inglesas de Dunquerque. O episódio, segundo os historiadores, envolveu o primeiro grande erro de Hitler na II Guerra Mundial. Em 1940, ingleses e franceses juntaram os seus exércitos para darem uma lição nos alemães que invadiram a Polônia, dando início à hecatombe universal. As divisões Panzer deram uma tunda nos aliados, passaram pela "inexpugnável" Linha Maginot - barreira de concreto, aço, túneis e canhões - e encurralaram os soldados ingleses, franceses, belgas e poloneses nas praias do Canal da Mancha. As tropas eram bombardeadas incessantemente pela Luftwaffe.

Os generais alemães aguardavam ordens para enviar os tanques e acabar, de vez, com o exército britânico, em maioria. Hitler suspendeu as operações. Dizem que queria poupar os carros de combate para chegar logo a Paris. Também planejava fazer um acordo de trégua com Churchill, porque tinha em mente invadir a União Soviética e queria evitar o combate em duas frentes. Foi um grande equívoco. As tropas que ele poupou foram as mesmas que, em 6 de junho de 1944, tiveram importante papel na invasão da Normandia, no Dia D.

Os ingleses são melhores para filmes de guerra do que os americanos. Os soldados ianques são façanhudos, heroicos, humanistas e lutam contra a barbárie. Christopher Nolan, conta a história de um punhado de homens normais, com falhas e qualidades, jogados em um evento selvagem que ultrapassa a racionalidade. O diretor dá importância ao coletivo sobre o indivíduo, não glamouriza ou tem heróis definidos. A ação é contada, sobretudo, pelo olhar de um jovem soldado que está desesperado para voltar para casa e que se vê constantemente no limite da sobrevivência.

Mais de 400 mil soldados estão cercados e Churchill quer uma retirada para que a derrota não seja ainda mais catastrófica. O filme relata a mesma situação e três tempos. É a grande sacada do diretor inglês: 1 - uma semana em terra, descreve a situação na praia de Dunquerque onde os soldados aguardam o resgate; 2 - um dia no mar, com epicentro em uma das centenas de embarcações (iates de recreio, barcos de pesca, contratorpedeiros) que saem de todos os pontos do litoral da Inglaterra e cruzam o canal para ajudar no resgate; 3 - uma hora no ar, com os pilotos da RAF a bordo dos seus Spitfire que lutam para proteger os navios de resgate. O tempo e o espaço se multiplicam. Voltamos sempre àquilo que já vimos.

Para Nolan, a primazia é fazer um exame moral e sensorial sobre um dos acontecimentos que mudaram o curso da guerra. E também para refletir sobre o caos e a desumanidade da guerra. Seu filme não tem aquele uso frenético de recursos de computação. Nada de corpos explodindo. O inimigo (os nazistas), nem aparece. Quase não há diálogos. É como se o diretor quisesse mostrar - "Olha como eu filmo ação sem truques digitais". A música é que nos mantém grudados na poltrona com o zumbido - até abusivo - dos sintetizadores.

"Dunkirk" - eles fizeram questão de manter o título com a grafia da cidade em inglês - foi filmado nas areias do porto francês, em 2016. Naquela ocasião, ali pertinho, em Calais, havia o maior campo de refugiados de imigrantes muçulmanos, aguardando "resgate". Mudam-se os tempos, mas a falta de humanidade é a mesma. Os batelões inseguros lotados de soldados sobre o mar agitado, lembram as frágeis embarcações que hoje cruzam o Mediterrâneo rumo à Europa. São milhares de homens, mulheres e crianças se afogando em barcos a pique. Enfrentam o perigo na esperança de sobreviverem em outras terras, onde as pessoas não os querem. Em Dunquerque, quem não é inglês não embarca. Quem está no mar não encontra braços estendidos, porque a lotação já está completa. O diretor Christopher Nolan, perguntado, diz que pensou nos refugiados do mundo muçulmano, mas "seria óbvio demais". Mesmo assim se declara influenciado pelas imagens e horrores do mundo ao seu redor. Faltou, em tempo real, pelo menos deixar subentendido que acontece algo semelhante no mundo de hoje.

Para o bem e para o mal, Dunkirk é o blockbuster (o filme-bomba destinado a arrasar quarteirões, na gíria anglo-americana) da temporada pré-Oscar. Pelo menos nos deixa descansar daqueles produtos ruidosos em efeitos visuais e super-heróis infantilizados.

O autor é jornalista e articulista do JC

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