Cultura

Coberto por bandeira da Estácio, corpo de Luiz Melodia é sepultado no Rio


| Tempo de leitura: 3 min

Rodrigo Chadí/Estadão Conteúdo
Amigos e parentes se despediram do cantor Luiz Melodia na Escola de Samba Estácio de Sá

Em um caixão coberto com uma bandeira da escola de samba Estácio de Sá, o corpo de Luiz Melodia chegou ao Cemitério do Catumbi, no Rio de Janeiro, neste sábado (5), às 10h. O cantor e compositor morreu na sexta-feira (4), aos 66 anos, devido a complicações de um câncer que atacou sua medula óssea.

Desde julho do ano passado, o artista tratava de uma doença autoimune e chegou a passar por um transplante de medula óssea.

O músico carioca estava internado no hospital Quinta d'Or. O corpo foi velado na quadra da escola de samba Estácio de Sá, na Cidade Nova, próximo ao morro onde ele nasceu, na área central do Rio.

Familiares, amigos famosos e anônimos compareceram ao velório. Além de uma obra grandiosa, Luiz Melodia deixa a esposa, a também cantora e compositora Jane Reis, e dois filhos, Mahal e Hiran.

Um tropicalista dos morros

"Como assim, o rapaz é negro, desce do morro do Estácio e não é sambista?". Um jornalista do qual Luiz Melodia não citava o nome o recebeu assim em 1973, quando ouviu o que ele poderia fazer ao lançar o álbum "Pérola Negra", sua estreia, pela Philips. Eram anos de liberdade criativa mesmo nas gravadoras, de produção livre e "orgânica", de colocar para fora tudo o que bossistas, jovem guardistas e tropicalistas haviam deixado de legado na década anterior.

Melodia surge como o filho mais bem acabado do espírito tropicalista do "tudo é possível". Não por acaso, se aproximou de mentes livres como Waly Salomão, Torquato Neto e Helio Oiticica. Gravou rock, samba, samba rock e todo o universo que existe entre os dois.

O preconceito despejado na infeliz frase do jornalista carioca era sinal do embaralhamento que aquela imagem cheia de atitude poderia causar. Não havia como classificar Melodia. E "Pérola Negra", um dos grandes álbuns da música brasileira percebido assim logo de cara, não deixava dúvidas de que Melodia era um nome incontornável. Era preciso falar sobre ele.

O músico explicava aos jornalistas que se debruçavam para saber de onde vinham tantas informações na música de um homem que parecia predestinado ao samba. "Eu ouvia tudo isso no rádio e talvez tenha sido isso o motivo dos discos que até hoje gravo, sempre com variedade, desde o rock, o pop. Eu sempre tive essa malícia pra poder passar para os discos que eu componho."

Jazz e blues, idiomas que aprendeu, já eram presentes em criações iniciais como a própria "Pérola Negra" e em "Magrelinha" (basta ouvir as frases de guitarra blues de Perinho Albuquerque). "Uma vez vi minha mulher conversando com meu filho: 'Você já ouviu seu pai cantando blues? É genial.'" Ele mesmo se surpreendeu até identificar o quanto blues eram suas abordagens. Mas o mesmo disco tinha também "Forró de Janeiro", com acordeão de Dominguinhos. O tropicalismo, definitivamente, havia subido o morro.

De fala curta e objetiva, olhar cortante para entender a pergunta antes de respondê-la, Melodia gostava de exercer o controle da situação e o distanciamento profissional diante de jornalistas. "Não faço ideia do que você está falando", respondeu a um deles quando perguntado se a imagem de 'maldito' por parte da mídia não o havia prejudicado.

Respondia que sempre fez os discos que gostaria de ter feito, sem jamais deixar sair de si o "Estácio" que o havia ensinado tanto. Falava por si e olhava para os lados, sem medo de esfriar a festa quando preciso. Em 2014, em pleno palco Julio Prestes, na Virada Cultural, foi o único a lembrar que estavam todos ali em um território marcado pela calamidade humana. "Vamos olhar por esse pessoal que está nessa dependência dessa droga filha da p.. Qualquer ajuda é importante." Disse isso e cantou Magrelinha aos agoniados do crack.

Comentários

Comentários