Tribuna do Leitor

Não nos convidaram para esta festa nobre, Severina!

Kátia Souza - Professora de Educação Física, coordenadora do Núcleo de Base ?PT PresenTe?, membro do Movimento Resiste Mulher
| Tempo de leitura: 5 min

Amanhece Bauru. Dia lindo. Café e pão. A roupa é a de sempre, a cor também. Bauru, é seu aniversário: Parabéns! Cidade linda, acolhedora, fresca, quente, calórica! Que eu amo! 121 anos de glórias. Sigo. Vejo o pão e o circo se preparando para receber, a todos nós, o povo. Mas, meu destino é outro. Estico a faixa, pego o spray e picho... opa...escrevo. O quê? Surpresa.

Subo a rua, a pé na contramão, viro levemente à direita. Bloqueios, fitas amarelas e pretas. Nossa, e o verde? Não, amarelas e pretas. Tudo muito limpo, pintado. Homens sérios de paletó e um fio que sai das costas e vai até a orelha. Rádio e comunicação. Sérios, tensos e atentos. Muita polícia, carros, luzes giroflex. Hummm... Nossa, já há faixas, acordaram mais cedo que eu. Quem será?

Esta rua está diferente. Mas logo me alegro e vejo uma turma de jovens, mulheres, homens, negros, negras, brancos, brancas, trans, travestis, lésbicas e me junto. Havia faixas no chão, faixas entre as árvores, faixas para fazer. Mensagens expressando descontentamento. Fora! Ah, é aqui. Esse é meu povo! Povo, povo, povo e vai chegando gente. De chinelo, blusa sem grife, a pé, de ônibus, com fé.

Reunião e risos. Hoje vai ser bom! Professores, professoras, militantes, trabalhadores, trabalhadores de todas as tribos, partidos, correntes, divergentes, gente. Arruma aqui, pinta lá, prende uma, pega o barbante. E a tesoura? Está na mochila. Tudo pronto. Ah, chegou um megafone. Batuque!

E começa a chegar mais gente, mas essa gente é diferente. Roupas bem passadas, tudo combinando, paletós, tailleurs, maquiagem, nossa que chique. De cá, começam as vozes, os gritos, as músicas, as bandeiras começam a tremular. Começou! Recepção! Vários carros, marcas muitos não sei. Vidros escuros, mas pode? Eles podem, nós não, é infração! Carros luxuosos, pessoas? Difícil de enxergar, mas a gente grita, grita nosso clamor por igualdade. Entram lindas e indos. Pura grife! É o Oscar, é o tapete vermelho.

Vamos entrar? Não pode. Lotação esgotada. Porta de vidro fechada na cara. Mas aqui também não é nosso? É a USP, lógico que podemos entrar. Caras sisudas dizem não. Mas, minha vida Severina não teme sisudez. Tenho medo de cara feia? Não. Pra mim é fome! Fome! Tento. Entro. Negocio, imploro, por favor, mais gente, pois a solidão dói. Mais alguns, digo 30, deixam 20. Não, mudaram de ideia. Olho o saguão, quanta gente. Tudo muito limpo. Rostos muito limpos. Os nossos suados. Cabelos, descabelados. Mas algo diz: fica! Fico.

Eu e uns outros, muito poucos. Telão, elegância, educação. Ah, sim, educação. E de primeira, primeiríssima. Tudo chique. Eu mais ainda. Procuro sinalização e vejo: auditório. É lá. Fico num bloqueio. Posso entrar? Não. Não. Não. Não. Não. Mas, a paciência de quem catou caranguejo no mangue, sabe esperar. Homem alto, paletó bonito engomado. Entra. Eu também posso. Cansaço e espera. Caranguejo. Mangue. E o primeiro soar das vaias...eu vi quem foi. Deixa pra lá. Entro. Tudo clean, nude e eu vermelha.

Respiro. Coração batendo forte. Estranha no ninho. Respiro. Oro. Espero. Olha o mangue. Tudo importante. Auditório lindo. Tudo limpo. Cheiro de perfume caro no ar. Olho lá na frente. O poder. Cadeiras de madeira imponentes. E eu de pé. Fala uma, fala outro. Palmas. Candidato anunciado. Mas, a cerimônia é política? Mais palmas. Muitos cursinhos serão abertos. Mais professores. Mais. Mais. Mais. Lucro. Fala outro. Coração na boca. Vigiada. Sem problema. Faculdade. Medicina. Vagas. Progresso. Hospital. Prédio azul. Prefeitura vai cuidar da contrapartida. Partida.

Coração partido. Crianças mortas antes de poderem viver. Mães mortas ao parir. Meu coração bate forte e algo acontece. Science. Science. Chico Science. Era essa a charada. É tu Science. Meu amigo, conterrâneo. Casa-Grande & Senzala, Morte e Vida Severina. Anunciaram. Ele vai assinar. É agora, vai! Desço cantando. Sorriso no rosto. Coragem. Canto quem? Science. A primeira música que veio: A Cidade.

Cidade, aniversário, faculdade. Morte, muitas mortes. Sangue, corpos, esperanças, experiências não vividas. Tolhidas. Desço cantando o refrão: "Eu vou fazer uma embolada, um samba, um maracatu. Tudo bem envenenado, bom pra mim e bom pra tu. Pra gente sair da lama e enfrentar os urubus. (haha)." Olham pra mim. Que ideia sensacional: uma preta vai nos distrair. Está cantando. Olho. Paro. Falo. Respiro. Porque respiração é tudo. É vida! Sinto. Pergunto: onde está o povo? E a periferia? Onde estão os negros e negras? Somos só 7. Eu contei. Por que o povo não foi convidado? Não é tão bom para o povo?

Camisa vermelha. Estrela. Ódio. Gritos. Olha o caranguejo. Peguei e pus na lata!

Falei, tive que falar mais alto. Me ouçam, por favor! É um clamor. Sintam a dor das famílias. Contrapartida: filial do matadouro. Matadouro de Gente. Xingam. Nossa, mais não combina: grife e xingamento. Aqui é o mais alto nível de educação. Aqui é uma das maiores do mundo! Aqui, não! Aqui, sim! E eu sou preta, mas não xinguei. Avancei. Subi. O microfone. Não me deram. Pegam meu braço. Olho fixo e digo: solte! E falo alto. E digo o que não querem ouvir. Queremos saúde! Queremos viver! Nos deixem viver! Sangue nas mãos.

Vaias. Vaias. Vaias. Falo e quando termino, saio. E ouvi dois: vagabunda! Dois. Sou não. Sou não. Coração a mil, de feliz! Era isso! E eu nem sabia. E lá vem o João me acompanhando até a saída, aquele do Cabral de Melo Neto, o da Morte e Vida Severina. Fui xingada dentro da maior das maiores. Mas eu tenho educação. E termino ofertando um trecho do João: "E se somos Severinos

iguais em tudo na vida,

morremos de morte igual,

mesma morte severina:

que é a morte de que se morre

de velhice antes dos trinta,

de emboscada antes dos vinte,

de fome um pouco por dia

(de fraqueza e de doença

é que a morte Severina

ataca em qualquer idade,

e até gente não nascida)."

Viva Bauru! Viva! Todos vivos!

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