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| Para Olynda Bassan, professor não pode ser o mesmo de antigamente |
Aos 70 anos, a educadora aposentada Olynda Aparecida Bassan Franco vai lançar o seu primeiro livro de poesias, mês que vem. Vai ainda disputar o concurso de Miss Bauru Melhor Idade, na próxima quinta-feira, além de ser superantenada. Seu dia a dia inclui Internet e redes sociais, por exemplo. O segredo para tanta vitalidade? "A vida tem que ter um sentido. Tudo o que fiz até agora foi com um propósito".
A seguir, leia os principais trechos da entrevista concedida por ela, que tanto acredita no poder do agora. Não por acaso, atualmente, faz uma releitura da entonação da própria palavra (agora).
Jornal da Cidade - Sua carreira sempre foi voltada para o magistério, você é acima de tudo uma educadora...
Olynda Bassan - Sim, sem dúvida, tenho pós-graduação em formação de professores; parei por alguns anos por causa dos filhos, mas depois retomei e fui até me aposentar.
JC - Como vê este momento da educação brasileira em especial?
Olynda Bassan - Não está fácil, o mundo mudou muito, o que é natural. São fases e esta está bem difícil, não dá para fugir da realidade, da escalada da violência, por exemplo, nas escolas. Mas é preciso mudar. O professor não pode ser o mesmo de antigamente, tem que se aprimorar, não pensar em dar aula como foi quando éramos pequenos.
JC - E os alunos?
Olynda Bassan - Esta geração, sem dúvida, é bem diferente daquela de quando lá em 1988, eu enfrentava estrada até Santa Cruz do Rio Pardo para me aprimorar no magistério, sempre me especializando. Hoje as pessoas falam em jovens semianalfabetos, porque escrevem "vc" em vez de você, mas eles são articulados, sim, não estão alienados, não. A gente tem que ler os sinais deles. O que me incomoda é o aluno que não tem sonhos, isso torna a tarefa do professor difícil, na mente que não sonha é difícil depositar uma mensagem, o sonho é que alimenta a gente. Quando isso acontece a gente vê jovens são incríveis, empreendedores.
JC - Tem a ver com nosso momento?
Olynda Bassan - Claro, a crise na saúde, na educação, há uma profunda "desimportância" política.
JC - Quem sofre é a escola?
Olynda Bassan - Sim e o professor que se desmotiva. E vamos reconhecer que não dá nem para falar em motivação salarial, com o que está aí, não é isso que move o profissional, é o amor mesmo. E há escolas ótimas, que têm projetos excelentes sobre o meio-ambiente, convivência familiar, só que isso fica circunscrito dentro dela, é preciso levar essa visão do pátio para fora.
JC - Apesar de ter uma visão muito crítica sobre a questão educacional do País você não parece ser pessimista.
Olynda Bassan - Exatamente, sou muito otimista, sim. E há algo que permeia a minha vida, ela tem um sentido: eu sempre faço as coisas com um propósito, acho que isso faz a diferença, é preciso dar sentido à vida.
JC - Faz poesia desde criança?
Olynda Bassan - Ao contrário do que possa parecer, nunca escrevi. Comecei só em 2013. Faz pouco tempo mesmo. Vieram-me palavras, como "galho seco/ folha verde/ esperança" e disso surgiu a necessidade de fazer um poema. As poesias brotam, os textos veem assim, intuitivamente.
JC - Daí para o livro...
Olynda Bassan - Eu chamo meu livro de "filho de papel". O título será "Alma em versos", justamente porque eu acho que meus textos são isso: a minha alma, meu interior, se desintegrando em versos. Punha no Facebook meus textos e muita gente reclamava porque, de repente, eles se perdiam por lá. Assim criei um blog, o "olhar do cotidiano" e, para o livro foi um passo. Acabei escolhendo 80 poemas, sendo 70 para cada ano de minha vida e 10 eu brinco que são os amigos, meus ombros, meus sustentáculos.
JC - Sua espiritualidade é bem desenvolvida também não é?
Olynda Bassan - Então, de uns tempos para cá, eu procuro caminhar menos para a crença (não que eu não acredite, não tenha fé, nada disso) e mais para a espiritualidade. Quero me conectar cada vez menos com um Deus que castiga e mais com o Deus/Amor. Também faço parte da Fraternidade Marianista, há 18 anos, uma comunidade para leigos católicos. Através dela, a gente "vê o mundo com o olhar de Maria". Ela leva a Cristo, mas de uma forma acolhedora, com compaixão, protetora.
JC - Você é muito bonita, vai disputar o Miss Bauru Melhor Idade (na quinta-feira acontece o evento para escolha de Miss e Mister), como se cuida?
Olynda Bassan - Bom, não que eu não seja vaidosa, mas acho que a genética também ajuda. Eu tenho preocupação com a alimentação - o mais natural possível, sem refrigerante, por exemplo - com um bom sono, faço Pilates, mas sempre estou adiando o início das caminhadas. Confesso que a minha beleza não é muito disciplinada, não.
JC - Nenhum problema de saúde?
Olynda Bassan - Ainda (risos) nada, colesterol, triglicérides, tudo em ordem. Para você ter uma ideia, meus cabelos, nesta idade, são naturais, faço só luzes.
JC - E o concurso?
Olynda Bassan - Bom, há alguns anos, os amigos me incentivam. Mas como disse que não sou muito disciplinada para isso, quando eu vejo, já perdi a data de inscrição. Este ano quando fui ver, também tinha passado. Mas descobri que foi prorrogado, aí eu disse: "agora eu vou". Fiz a inscrição às 17h do último dia. Vamos ver o que vai dar.
JC - Você está na UATI, desfila, estuda, faz parte do grupo expressão poética, desfila no carnaval, pela escola de samba Mocidade Unida da Vila Falcão, de onde tira tanto pique?
Olynda Bassan - Então, minha neta mais velha falou isso outro dia: que eu não paro. Tomei como um elogio, mas na verdade é uma questão de filosofia, um jeito de pensar sobre o poder do agora, estou fazendo uma releitura da entonação dessa palavra agora. As pessoas podem querer algo, aprender a dançar, por exemplo, e acham que já é tarde. Falam: "eu queria, mas agora não dá mais". Não tem isso, dá sim, é só fazer, o momento é agora. Tudo dá, sim. Comece e vá em frente, jamais perca a esperança.
