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Pais buscam trabalhos flexíveis para priorizar companhia da família

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 6 min

Aceituno Jr.
Sexta-feira, às 16h - Anderson Custódio Alves acompanha treino de futebol do filho Levi, de 11 anos: flexibilidade de horário no trabalho 

Enquanto muitos pais estão grande parte do tempo no trabalho, sem chance de acompanhar com intensidade as atividades dos filhos, o corretor de imóveis Anderson Custódio Alves, 38 anos, vivencia outra realidade. O vaivém característico da sua profissão o ajuda a administrar melhor a jornada. Conclusão: ele tem mais facilidade para conciliar os momentos de lazer em família.

"Entre um cliente e outro, vejo o treino de futebol do meu filho mais velho ou dou mais atenção para o caçula", conta, lembrando que na tarde da última quinta, ele participou da festa para os papais na escola infantil em que o filho Gabriel, 2 anos, estuda. Na sexta, às 16h, incentiva Levi, 11 anos, nos gramados. "Isso se deve à flexibilidade dos meus horários".

Aliás, a busca por trabalhos flexíveis para passar mais tempo com a família tem crescido nos últimos anos. A tendência é apontada em pesquisa e reiterada por especialista ouvido pelo Jornal da Cidade, que, neste Dia dos Pais, celebrado hoje, levanta a reflexão sobre a importância do convívio próximo entre pai e filho.

Levantamento da Workana - plataforma de trabalho freelance com atuação em toda a América Latina - mostra que a atividade extraordinária ou avulsa (que não apresenta vínculo empregatício) cresceu mais de 181% em 2016 no Brasil. Deste total, 47% dos freelancers cadastrados têm filhos (leia mais abaixo).

Entre os exemplos de pais que buscam serviços com horários mais flexíveis está o motorista do Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Bauru Ricardo Dal Medico dos Santos, 50 anos. A tarefa dele na autarquia exigia uma rotina apertada e sobrava pouco tempo para passar com o filho João Pedro Nunes Dal Medico dos Santos, 11 anos.

"Eu levava os servidores para manutenções de ruas. Não tinha dia e hora certos para trabalhar. Inclusive em qualquer feriado como no Natal e Carnaval. Foi aí que decidi mudar", conta ele, que, em janeiro deste ano, trocou de setor na autarquia e largou o caminhão basculante que ele tanto gostava para ficar com o filho na hora do almoço e poder buscá-lo na escola, às 17h.

"O salário diminuiu, pois o trabalho, agora, não exige que eu fique até mais tarde. Mas valeu a pena, pois filho cresce muito rápido e estar com ele não tem preço. Posso participar das atividades dele. Pai tem que estar sempre junto", exalta Ricardo.

SEGURANÇA E AFETO

Especialista em direito da família, o advogado e psicólogo Vinicius de Carvalho Carreira justifica a procura por trabalhos mais flexíveis citando a conscientização em relação à necessidade da presença dos pais para o desenvolvimento saudável dos filhos.

"A relação próxima é necessária não somente para a segurança do filho, especialmente em razão dos atuais perigos da Internet, mas principalmente para criação de afeto, que é importante na formação de autoconfiança e desenvolvimento de habilidades sociais".

A preocupação com o distanciamento também é apontada por Carreira como um dos motivos para o incremento na busca de empregos mais versáteis. "Muitos, por exemplo, tiveram pais ausentes e sentiram na pele as consequências dessa ausência", comenta.

O receio de expor os filhos a uma situação de segregação incentiva os pais a procurarem fontes de renda que lhes permitam dispor de mais tempo com os filhos, reitera o especialista. "Atividades como 'home office' (trabalho em casa), empreendedorismo, trabalhos na Internet e prestação de serviços autônimos", exemplifica.

DO CAMPO PARA A CIDADE

Geraldo Gonçalves tem 91 anos. Dedicou metade de sua vida ao trabalho no campo. Porém, ao se ver longe dos 10 filhos (seis homens e quatro mulheres), abandou a zona rural e decidiu aventurar-se na cidade. "Arrumei um emprego de ajudante geral numa metalúrgica", conta.

Isso aconteceu em 1958, quando ele deixou a fazenda em que vivia no Mato Grosso para morar em Bauru, onde os filhos arrumaram emprego. "Infelizmente, cinco dos meus filhos já morreram, mas pude ficar mais perto deles ao tomar a decisão de vir pra cá", observa.

MARIDO DIVIDE AS TAREFAS

Malavolta Jr.
Advogado e psicólogo, Vinicius de Carvalho Carreira ressalta que, por trabalharem fora, mulheres ajudaram a mudar cenário

Segundo levantamento da Workana, 34% dos pais contam com ajuda externa para cuidar dos filhos. Cofundador da plataforma de trabalho freelance, Guillermo Bracciaforte aponta que o perfil dos pais vem mudando e refletindo essa transformação no mercado de trabalho.

"Cada vez mais, temos pais que sentem a necessidade de cuidar dos filhos e dividir igualmente as tarefas com a mulher. Isso se alia à busca dos profissionais pela harmonia entre vida profissional e pessoal e tem um efeito muito positivo, já que um pai que participa mais em casa proporciona mais liberdade para que a mãe também siga com sua carreira profissional".

Bracciaforte frisa ainda que a busca por um trabalho mais flexível colabora para o crescimento da atividade freelance e proporciona aos profissionais novas oportunidades. "Dentre dos usuários da Workana, por exemplo, cerca de 60% trabalham como freelancer em tempo integral, sem conciliar com outro emprego".

Segundo o advogado e psicólogo Vinicius de Carvalho Carreira, a dinâmica moderna em relação à inclusão das mulheres no mercado de trabalho contribuiu para a mudança de cenário. "Muitos homens que têm esposas com condições econômicas superiores a deles estão adotando postura de 'dono de casa' para passar mais tempo com o filho", pontua.

Com a regulamentação do home office, aponta Carreira, a tendência é que o trabalho em casa por meio da Internet e videoconferência ganhe força. "Entre os casais divorciados, tenho visto bastante o marido pedindo a guarda dos filhos. Houve uma inversão: eles procuram trabalhos com horários flexíveis para ficar mais tempo com os filhos", finaliza o especialista.

CRISE FEZ 84% MUDAREM DE PRESENTE

Por conta da crise econômica, 84% das pessoas que vão presentear mudaram suas escolhas para o Dia dos Pais. É o que mostra a pesquisa da plataforma de varejo AondeConvem com mais de 8,5 mil pessoas, feita poucas semanas antes da data comemorativa. Dos entrevistados, 65% vão presentear, mas a maioria pretende fugir dos supérfluos e dos apelos das marcas e dar utensílios necessários. Já 35% abriram mão do mimo.

A pesquisa aponta que 28,5% dos entrevistados que vão presentar comprarão conforme a necessidade e 27% querem adquirir presentes que combinam com a personalidade do pai. Outros fatores de escolha são as promoções (14%), o orçamento (13%), custo-benefício dos produtos (11%) e, por último, marcas prediletas (6%).

O levantamento, realizado entre 31 de julho e 1º de agosto, mostra que os pais de 61% dos entrevistados que vão contemplá-los ganharão mimos que custarão até R$ 100,00, enquanto as compras entre R$ 100,00 e R$ 200,00 serão realizadas por 24,5%. Os presentes de mais de R$ 200,00 estão no planejamento de somente 13,5% dos consultados.

Clineu Júnior, CEO do AondeConvem, analisa que os consumidores estão mais cautelosos. "Os brasileiros estão mais conscientes em suas escolhas de consumo", diz. Quase metade dos pais dos entrevistados, que têm entre 26 e 40 anos, pode esperar ganhar itens de vestuário (48%). Perfumaria é a escolha de presente de 21% dos consultados. No total, 3% dos filhos presentearão os pais com ferramentas. Apenas 8% das intenções de compra serão de eletrônicos, entretenimento (6%) ou livros (3%).

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