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Nosso retrocesso histórico

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

Em "Uma Breve História da Humanidade", o historiador e professor israelense Yuval Noah Harari apresenta uma cronologia do desenvolvimento da humanidade, começando em 200 mil anos atrás, quando surgiu na África Oriental, o Homo Sapiens, que considera ser a origem da atual população da Terra. O Homo Sapiens levou 130 mil anos para que sua inteligência permitisse fazer coisas especiais como a invenção de barcos, lâmpada a óleo, arco e flecha etc. O autor considera esses fatos como a primeira revolução no curso da história e chama de Revolução Cognitiva. Passaram-se mais 60 mil anos para dominar a Natureza, conseguindo domesticar animais e cultivar plantas, marcando uma nova era, a Revolução Agrícola. Mais 10 mil anos foram necessários para registrar um novo período evolutivo, a Revolução Científica, já na Era Cristã, em plena Idade Média.

A sua evolução passou a se acelerar a partir da Revolução Cientifica, que se desdobrou em revoluções industriais, já depois da descoberta do Brasil. O autor faz a seguinte observação: "Se um camponês espanhol tivesse adormecido no ano 1000 e despertado quinhentos anos depois, ao som dos marinheiros de Cristóvão Colombo a bordo das caravelas Niña, Pinta e Santa Maria, o mundo lhe pareceria bastante familiar. Apesar das muitas mudanças na tecnologia, nos costumes e nas fronteiras políticas, esse viajante da Idade Média teria se sentido em casa. Mas se um dos marinheiros de Colombo tivesse caído em letargia similar e despertado ao toque de um iPhone do século XXI, ele se encontraria em um mundo estranho, para além de sua compreensão. "Estou no Céu?" ele poderia muito bem se perguntar. Ou "Estou no Inferno?" O que mudou nestes quinhentos anos, em comparação com a evolução dos cerca de 200 mil anos anteriores assusta pela vertiginosidade.

O Brasil começou dentro da Revolução Agrícola, que perdurou até 1750, quando teve início a 1ª Revolução Industrial, da qual viemos a participar com a construção de ferrovias, iniciada em 1854, pelo Barão de Mauá. Da 2ª Revolução Industrial, iniciada no final da monarquia, só viemos a participar efetivamente com a montagem de automóveis em série, depois da 2ª Guerra Mundial. Teve um grande impulso com o governo de Juscelino Kubitschek, mas enquanto o mundo passou para a 3ª e já está na 4ª Revolução Industrial, ainda não temos o carro brasileiro, só montadoras de carros estrangeiros. De meados do século passado para cá o tempo histórico não dá mais para ser contado em períodos, pela brevidade com que as mudanças ocorrem. Hoje a contagem é pela sequência das gerações de inovação: 1.0, 2.0, 3.0 e já estamos na 4.0.

Onde se encontra o Brasil hoje? Como usuário de inovações produzidas por outros países estamos atualizados com o resto do mundo. Dos Smartphones e Smart TV, aos carros com GPS e outros equipamentos sofisticados, às casas inteligentes, aos mais adiantados aparelhos de medicina, enfim, temos tudo que o mundo tem, até astronauta. Só não temos bomba atômica. Mas, se fossemos obrigados a ficar só com o que pudéssemos fazer, em que posição estaríamos? Economicamente ainda estamos no período da Revolução Agrícola, modernizada como agronegócio, que aguentou as pontas nesta crise. Na indústria chegamos a produzir aviões, graças a um bauruense, mas no geral ainda estamos patinando na 2ª Revolução Industrial.

O Brasil é o país das potencialidades. Temos grandes riquezas em potencial, naturais e humanas, que existem para serem exploradas, mas não o são como deveria ser. Ao longo do tempo temos sido mais predadores que construtores, não só destruindo as riquezas naturais como aquelas criadas pelo próprio homem. Estamos secando os rios, derrubando as matas, erodindo as terras cultiváveis, como destruímos as ferrovias, sucateamos a indústria, quebramos as Santas Casas e hospitais públicos e abandonamos o ensino público. E enquanto o mundo se prepara para adaptar-se à ameaça do desemprego pela 4ª Revolução Industrial, a robotização em massa, nós, com 14 milhões de desempregados, estamos perdidos em discussões infindáveis, improfícuas e torrando o dinheiro público.

Mais uma vez o Brasil está em retrocesso histórico, agora tentando sair do atoleiro criado no período lulopetista e está mais difícil, porque estamos entregues aos "que não querem ser punidos e, pior ainda, aos que não querem ficar honestos daqui para frente", como disse o ministro do STF, Luis Roberto Barroso.

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