Tribuna do Leitor

Saudoso Munir Zalaf: artista, escritor e poeta

João Álvares
| Tempo de leitura: 5 min

Em sua tipologia, Nietzsche distingue duas figuras, o sacerdote e o artista-poeta. Sacerdotes temos hoje para dar e vender, de todas as religiões e até sem religião, mas artistas e poetas?

Gostaria, caro Munir, que você emprestasse por um instante algumas características de sua obra literária para que eu possa fixar as três forças ou, se preferir, as três virtudes, que, a meu ver, constituem o artista e poeta. Denomino-as já: vigilância, sabedoria e, a mais paradoxal de todas, fragilidade.

Ao contrário do sacerdote, o artista-poeta surpreende-se admira, seu olhar pode ser crítico, mas não é acusador, o artista-poeta não conhece o ressentimento. Porque você é poeta-artista é que sua obra literária está aberta para o moderno. Muitos tomam o moderno como uma bandeira de luta contra o velho mundo, seus valores comprometidos, mas, para você, o moderno não é o termo estático de uma oposição fácil, o moderno é, ao contrário, uma dificuldade ativa em seguir as mudanças do tempo, não mais apenas no nível da grande história, mas por dentro dessa pequena história cuja medida é a existência de cada um de nós.

Iniciada há muitos anos atrás, sua obra literária-poética foi-se encaminhando e momento em momento num movimento de dupla vigilância, para Bauru, Piratininga e para o mundo contemporâneo e para você mesmo. Cada um dos seus livros foi, na sua escala pessoal uma experiência histórica, ou seja, o abandono de um problema antigo e a formulação de uma nova questão, publicar poesias e livros, sem ter curso superior. Para isso, meu amigo, você nasceu para sucesso! É um poeta-artista e escritor nato!

Isso quer dizer que você viveu e tratou a história destes últimos 40 anos com sutileza, não como a matéria de um reflexo artístico ou de um engajamento ideológico, mas como uma substância cujo magnetismo você tinha de captar de obra em obra.

Utopista, sua preocupação com a época não é a de um historiador, de um político, de um moralista, mas sim a de um utopista que procura perceber em pontos preciosos o novo mundo, porque deseja esse mundo e que já faz parte dele. A vigilância do poeta-artista que é a sua, é uma vigilância amorosa, uma vigilância do desejo. O que chamo de sabedoria do artista-poeta e escritor não é uma virtude antiga, muito menos em um discurso medíocre, mas, ao contrário, o saber moral, a acuidade de discernimento que lhe possibilita nunca confundir sentido e verdade, entanto, essa verdade sempre só em um sentido. Quantas guerras, quantas repressões, quantos terrores, quantos genocídios para um triunfo de um sentido! O poeta-artista, porém, sabe que o sentido de uma coisa não é sua verdade, esse saber é uma sabedoria, uma louca sabedoria, poderíamos dizer, pois o retira da comunidade, do rebanho de fanáticos e arrogantes. Nem todos os poetas-artistas, porém, tem essa sabedoria, alguns hipostasiam o sentido. Essa operação terrorista geralmente se chama realismo. Por isso, quando você declara (numa conversa com pessoas de sua família) "sinto a necessidade de exprimir a realidade em termos que não sejam totalmente realistas" está demonstrando um sentimento justo do sentido, não o impõe, mas não o abole. Essa dialética dá a seus poemas e livros (vou usar de novo a mesma palavra) uma sutileza: sua arte consiste em sempre deixar o caminho do sentido aberto e como que indeciso, por escrúpulo.

É nisso que você realiza com muita precisão a tarefa do poeta-artista e escritor de que nosso tempo precisa: nem dogmática nem insignificante. Por fim, para abreviar, seus poemas e seus livros levam essa crise do sentido ao cerne da identidade dos acontecimentos ou das pessoas. No fundo, ao longo de sua obra-literária há uma crítica constante, ao mesmo tempo dolorosa e exigente, dessa marca forte do sentido, que se chama destino. Essa vacilação, eu diria, com mais precisão, essa síncope, do sentido segue caminhos técnicos propriamente cinematográficos, ou seja, (cenário, planos, montagem), que não me cabe analisar, pois não tenho competência para tanto, estou aqui, parece-me, para dizer em que a sua obra literária envolve, além do palco da vida, todos os artistas do mundo contemporâneo, você trabalha para tornar sutil o sentido daquilo que o homem diz conta, vê ou sente, e essa sutileza do sentido, essa convicção de que o sentido não para grosseiramente na coisa dita, mas vai indo cada vez mais longe, fascinado pelo extra-sentido, e a convicção, creio, de todos os artistas cujo objeto não é esta ou aquela técnica, mas um fenômeno estranho, a vibração. O objeto representado vibra, em detrimento do dogma. Penso nestas palavras do pintor Braque: "O quadro está acabando quando apagou a ideia".

Caro Munir, tentei dizer com minha linguagem pouco intelectual as razões que fazem de você para além da poesia, um dos artistas de nosso tempo. Esse cumprimento não é simples, você sabe, pois ser artista-poeta e escritor hoje é uma situação não mais sustentada pela consciência de uma grande função sagrada ou social, já não é assumir, serenamente, um lugar no Panteão burguês dos Luminares da Humanidade, é, no momento de cada obra, precisar enfrentar em si mesmo os espectros da subjetividade moderna, pois já não se é sacerdote, que são o desalento ideológico, a consciência social pesada, a atração e a aversão pela arte fácil, tremor da responsabilidade, o incessante escrúpulo que dilacera o poeta-artista e escritor entre a solidão e o gregarismo.

Cabe-lhe hoje, portanto, aproveitar este momento tranquilo, harmonioso, reconciliado, em que toda uma coletividade está de acordo no reconhecimento, na admiração, no amor à sua obra literária. Pois amanhã recomeça o trabalho duro. Aí, onde você está no céu, com Jesus, Maria e José, na sua morada celestial há, tem tempo, quero que todos saibam, que foi você, meu saudoso amigo, que, após a minha inexplicável demissão da nossa querida Associação Bauruense de Letras, esteve em minha residência, dando-me o seu importantíssimo apoio e contando sobre (em que pé) se processou a minha demissão da "ABL". Meu saudoso Munir, fique na santa paz do Senhor Jesus, abraço o poeta-escritor e artista.

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