| Quioshi Goto/JC Imagem |
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| Abigail Bolsonario, Nair Conti e Helena Quialheiro Oliveira com Zuleika Gadotti e Yvone Almeida |
"Vizinho é mais que parente, pois é o primeiro a saber das coisas que acontecem na vida da gente". A frase da poetisa Cora Coralina, eterna defensora do bom relacionamento entre vizinhos, tem grande sentido para muitas pessoas que encontraram em quem está ali, bem próximo de casa, alguém com quem se possa contar.
Seja para uma xícara de café, uma boa prosa ou um pedido desesperado de socorro, valorizar a amizade de quem mora perto parece cada vez mais raro nos dias de hoje, em que a rotina e a pressão do cotidiano impelem os indivíduos a mal olhar para os lados. Mas, assim como Cora Coralina, há quem cultive essa relação por toda a vida, inclusive quando o vizinho muda de endereço.
Durante muitos anos, no Dia do Vizinho, comemorado hoje, a aposentada Helena Quialheiro de Oliveira, 80 anos, celebrou a data em encontros regados a chás e quitutes caseiros. Fã dos livros da escritora Cora Coralina, ela diz que encontrou no hábito de estreitar relacionamentos com os vizinhos uma forma de cuidar do outro e, ao mesmo tempo, sentir-se cuidada.
"Eu preservo muito as amizades, inclusive com vizinhos antigos. Dá saudade desta relação quando a gente muda de lugar, daquele hábito de comprar alguma coisa na feira e levar um pouco para a vizinha, de tomar um café, de dar bom dia quando encontra. Eu ainda sou do tempo antigo", observa.
De conversa fácil, ela já conquistou, contudo, novas amizades no prédio onde vive há dois anos, no Centro. Dona Helena conta que decidiu fazer a primeira festa para comemorar o Dia do Vizinho em 1996, na rua Benjamin Constant, onde viveu por mais de três décadas.
Na época, ela lembra, as confraternizações eram realizadas na calçada e reuniam dezenas de pessoas. "Cada um levava um prato e sentava à mesa para conversar. O chá e o café, servidos com xícara e pires, sempre fizeram parte da tradição e também não podiam faltar", destaca.
VÍNCULO DE DÉCADAS
| Malavolta Jr. |
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| O mais recente encontro da turma da quadra 11 da rua Manoel Pereira Rolla ocorreu em junho |
Se Helena pode ser considerada uma verdadeira guardiã da data, a turma da quadra 11 da rua Manoel Pereira Rolla é um verdadeiro exército de preservação dos laços entre vizinhos. Criado em 1986, o grupo soma, hoje, 99 pessoas, entre pais, filhos e netos, que se encontram periodicamente para relembrar histórias e acompanhar, um pouco mais de perto, a evolução da vida de cada um.
A aproximação se deu por meio de uma iniciativa despretensiosa de Maria Luiza Sotero, que havia se mudado para a rua Manoel Pereira Rolla, na Vila Universitária, e decidiu reunir as crianças vizinhas, incluindo seus dois filhos ainda pequenos, para ensaiar uma apresentação em homenagem ao Dia das Mães daquele ano.
"Ninguém se conhecia na rua e esta festinha, que eu fiz no fundo de casa, transformou tudo. Começamos a fazer reuniões várias vezes ao ano. Chegávamos a fechar a quadra, porque era muita gente mesmo", lembra.
Hoje, membros da turma estão espalhados por todo o País, mas ainda assim o elo construído há quase três décadas se mantém sólido, conforme revela Roberto Maia, 56 anos. "Somos uma grande família, que só vem crescendo com o nascimento dos filhos, com a chegada de maridos e esposas. Há uma vontade muito grande de estarmos juntos e acho que este é o segredo de esta união durar tanto tempo", comemora.
HISTÓRIA DE UM APREÇO
O Dia do Vizinho foi criado em homenagem à poetisa Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, a Cora Coralina, na cidade de Goiás (GO). A ideia surgiu devido ao apreço que a escritora tinha pelos vizinhos. Após eles insistirem em festejar seu aniversário, também comemorado hoje, Coralina teria pedido que, em vez de festa para ela, celebrassem os vizinhos. A poetisa começou a escrever aos 14 anos e fez dezenas de livros. Destacam-se "Estórias da Casa Velha da Ponte", "Meu Livro de Cordel", e o livro infantil "Meninos Verdes". A autora morreu em Goiás, em 10-4-85, aos 96 anos. A nora, Nize Garcia Bretas, morou em Bauru por muitos anos e participou da organização de algumas festas do vizinho, no Jardim Higienópolis. Em 2006, ela mudou-se para a cidade de Balneário Camboriú (SC).

