O agravamento das condições sociais e econômicas das famílias em função da crise provocou o aumento dos índices de evasão e abandono escolar em Bauru. Segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC), a taxa de abandono no Ensino Médio foi de 3 a cada 100 alunos em 2016, ante a 2% no ano anterior.
Já no Ensino Fundamental, o indicador foi de 0,8% no ano passado e 0,5% em 2015. Enquanto o abandono se refere a saída do aluno durante o ano letivo, a evasão implica na não efetivação da matrícula do estudante para o ano seguinte, tendo ele sido aprovado ou reprovado.
Neste último caso, os dados mais recentes são de 2015, quando 8,9% dos alunos do Ensino Médio não fizeram sua matrícula após o término do ano letivo anterior. Em 2014, o índice havia sido de 6,6%. No Ensino Fundamental, o panorama é um pouco melhor, mas ainda com resultado negativo: em 2015, a taxa de evasão foi de 1,8% e, em 2014, de 1,4%. Para a diretora regional de Ensino, Gina Sanchez, a principal causa da elevação dos indicadores é a perda de empregos e do poder de compra das famílias em razão da crise econômica.
Como consequência, a análise é de que o aperto financeiro tenha levado um grande número de jovens a buscar oportunidades de trabalho, mesmo no mercado informal, para complementar a renda dentro de casa. "Isso ocorre principalmente entre os adolescentes. E, quanto maior a idade, maior a tendência de saída da escola. Por isso os índices do Ensino Médio são tão superiores ao do Ensino Fundamental", pontua.
Ela pontua que, diferentemente da rede privada, em que as taxas são infinitamente menores, muitos estudantes da rede pública se veem forçados a atender uma necessidade imediata, que é a busca por uma fonte de renda, em detrimento de um planejamento de longo prazo. "É uma situação que sempre existiu, mas que foi agravada pela crise", completa, salientando que, nestes casos, a escola aciona a família e, se necessário, o Conselho Tutelar e Ministério Público na tentativa de trazer o aluno de volta à sala de aula.
JOVENS
| Malavolta Jr. |
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| Secretária municipal de Educação, Isabel Miziara: tendência |
Não apenas no Ensino Médio, mas também nos anos finais do Ensino Fundamental as taxas de evasão e abandono tendem a ser maiores. Assim como Gina, a secretária municipal de Educação, Isabel Miziara, avalia que isso ocorre porque, de maneira geral, as escolas ainda enfrentam dificuldades para conquistar os jovens, que tendem a se tornar mais dispersos quando fazem a transição da infância para a adolescência.
"A escola se torna um ambiente desmotivador porque a estrutura e a própria grade curricular têm um modelo muito diferente da realidade onde o adolescente está inserido. Há uma desconexão entre o que é ensinado e o mundo deste jovem", cita.
Entre as soluções para reduzir este descompasso, Isabel aponta a necessidade de adequação permanente da linguagem e do ferramental utilizado, bem como da forma com que os professores se relacionam com os alunos. Neste sentido, a rede de ensino precisa estar atenta, também, às demandas de uma geração extremamente conectada às novas tecnologias. "Até hoje, em grande parte das escolas, as carteiras são enfileiradas, possibilitando pouca interação entre os jovens. Hoje, eles são muito ativos e possuem um repertório grande de vivências, que não pode ser desconsiderado", observa.
REFORMA E PARTICIPAÇÃO
Dentro da adequação curricular, Gina Sanchez também defende a necessidade de implementar a reforma do Ensino Médio, com currículos distintos que se alinhem às áreas de interesse do aluno, e também a ampliação das unidades que oferecem ensino integral.
Isabel Miziara destaca, ainda, a importância de um envolvimento maior das famílias, que tendem a acompanhar com menor intensidade a rotina escolar dos filhos conforme eles crescem.
NA REDE PRIVADA
Na rede privada, os percentuais de abandono e evasão são compostos, principalmente, pelos alunos que saem das unidades quando as famílias enfrentam dificuldades para custear as mensalidades. Neste caso, no entanto, crianças e adolescentes passam a frequentar escolas da rede pública e não deixam de estudar.
"Quando o pai ou a mãe perde o emprego e fica sem condições de manter o filho, esta é a única saída", pontua o diretor regional do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp), Gerson Trevizani, o Duda.
No Ensino Médio, segundo levantamento do Inep/MEC, o índice de abandono se manteve em 0,1% em 2015 e 2016 e, no Ensino Fundamental, em 0%. Já a taxa de evasão cresceu de 0,9% para 1,4% entre 2014 e 2015 no segundo grau e de 0,3% para 0,4% no primeiro grau. "Perdemos muitos alunos entre 2015 e 2016, mas a tendência é de melhora, já que a inadimplência, em 2017, diminuiu de 15% para 5%", pondera.
GRAVIDEZ E VIOLÊNCIA
| Samantha Ciuffa |
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| Lucas Moraes Gonçalves e Larissa Letícia de Paula Luizeto |
A chegada de uma gravidez não planejada e a inserção do jovem em um universo de violência também são causas recorrentes da saída de alunos da escola. Foi o que ocorreu com o casal Larissa Letícia de Paula Luizeto, 19 anos, e Lucas Moraes Gonçalves, 23 anos.
Em 2013, Larissa estava no 1º ano do Ensino Médio e ficou grávida. Apesar de ter continuado a estudar durante parte da gestação, acabou abandonando a escola para cuidar do filho, hoje, com 3 anos de idade.
"Quando ganhei o bebê, tentei voltar, mas não consegui mais acompanhar e decidi não voltar mais", revela ela, que está no início de sua segunda gravidez, desejosa de que seus dois filhos sigam caminho diferente. Lucas também saiu da escola na época em que se tornou pai, mas conta que já havia desistido de estudar anteriormente, quando se mudou para Santa Catarina, com medo das ameaças que vinha sofrendo.
"Eu estava com 17 anos e tinha andado no mundo errado. Decidi mudar e comecei a ir para a igreja, mas os caras [envolvidos com a criminalidade] não queriam deixar e ameaçaram matar minha família. Passei um ano em Santa Catarina e, quando voltei para Bauru, comecei a estudar de novo, mas parei porque precisava trabalhar", lamenta ele, que ainda sonha com a possibilidade de concluir o Ensino Médio e se tornar engenheiro civil.

