Quem é apreciador de pássaros, seja por interesses acadêmicos ou mesmo por amar a natureza de forma intuitiva, sabe o quanto os sabiás-laranjeira são acanhados. Quando não há ninguém próximo, até caminham por aí, habitando os solos próximos das árvores.
Mas quando algum predador (ou humano) surge, eles preferem isolar-se nas sombras dos galhos mais altos das árvores, e de lá entoam o canto mais límpido e melodioso. Nem sempre conseguimos vê-los. E precisamos? Ouvi-los, basta. Seu canto é puro deleite para nossos ouvidos.
Enquanto isso, numa manhã chuvosa de domingo, muitos bauruenses estiveram reunidos em nome de alguém que nos atrai pelos sons: Hermeto Pascoal. O albino louco (na melhor definição de Miles Davis) esteve em nossa cidade para promover o seu disco mais recente.
Além de fazer um show para uma centena de sortudos da região, ofereceu-nos também a oportunidade de um bate-papo no dia seguinte, praticamente uma hora de perguntas a ele, que respondia a todas elas com a mesma experiência, experimentalismo e sentimento que consegue transpor em notas, em acordes, em melodias.
Também, puro deleite. O papo estava tão bom e enriquecedor que (não sei como) um sabiá-laranjeira invadiu o ginásio em que estávamos. Talvez atraído pela energia da sua fala, pela vibração de suas notas vocais, o sabiá pousou em uma das estruturas do palco, e ficou ali, por pelo menos uns dez segundos, observando Hermeto falar.
Satisfeito com o que viu, voou para próximo de algumas árvores, sem antes dar uma prova da sua alegria, com o seu cântico de várias notas e vários sentimentos.
Do palco, Hermeto tirou sons de cartões, de objetos eletrônicos do Paraguai, do piano e de outros instrumentos. E desta manhã de domingo que transbordou sons, cores e chuvas, a última frase deste texto-memória é de Hermeto: "O verdadeiro cantar é a alma de cada um de nós".
Voa, sabiá. Obrigado, Hermeto.