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'Cegos' nas ruas de Bauru fazem população questionar

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Malavolta Jr.
Vestidos com trajes sociais, homens e mulheres cobertos por argila e com vendas feitas de gaze caminharam pelo Centro e fizeram ações em frente dos prédios símbolos de poder na cidade

"Meus Deus! Parece um bando de zumbis ou múmias vindo na minha direção"; "Qual é a mensagem? Pensei que fosse um protesto de professores ou de funcionários da prefeitura"; "Será que estão protestando contra a corrupção no Brasil?"; Será que estão protestando contra o aumento da tarifa do circular?", "Será que é um protesto contra a lentidão da Justiça?"; "Aliás, será mesmo um protesto, ou será que estão se apresentando apenas para nos levar a refletir?".

Essas foram algumas das reações de quem cruzou ontem com a experiência performática "Cegos", que o Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp) trouxe a Bauru, junto com o grupo Desvio Coletivo, de São Paulo. A intervenção urbana provocou indagações e variadas no público que passava ou frequentava o Centro da cidade, das 12h às 14h.

Vestidos com trajes sociais, homens e mulheres cobertos por argila branca e de olhos vendados caminharam, como se interferissem poeticamente no fluxo cotidiano do Centro.

Ordenado e alinhado, o grupo, formado por oito pessoas - sete delas de Bauru -, saiu da Câmara Municipal, bateu continência na frente de um prédio da polícia, subiu as escadarias de uma igreja, jogou malas, moedas e fez gesto de "banana" com os braços em frente à um órgão público federal, andou pelo Calçadão da Batista e reverenciou um banco na rua Primeiro de Agosto.

"Foi realizada uma espécie de cartografia dos símbolos de poder na cidade. E a ideia central era provocar a discussão entre as pessoas sobre o que é a cegueira local", comentou Leandro Brasílio, produtor e integrante do Desvio Coletivo.

REAÇÕES DIVERSAS

Malavolta Jr.
Maria Lucia de Carvalho admirou a intervenção urbana, ontem

Conforme o JC Cultura antecipou na edição do dia 22 de agosto, "Cegos" é uma obra aberta a diferentes leituras: a redução da nossa existência à função produtiva e ao consumo, o excesso de trabalho, o aprisionamento e a petrificação da vida, a automatização do cotidiano e a degeneração ética que se alastra no atual estágio da sociedade. E não possui nenhuma manifestação partidária ou bandeira.

"Achei interessante e legal a forma como estão vestidos. Mas gostaria de saber do que realmente se trata?", indagou a aposentada Josefa Benedito Justino, 63 anos.

George de Christians, 59 anos, e sua mãe, a aposentada Zilma Lemos, de 75, até pensaram em atravessar a rua, mas mudaram de ideia e resolveram se aproximar do grupo. "Não queria passar por aqui, mas a curiosidade falou mais alto. Muita coragem se apresentarem assim", comentou a dona Zilma. "Dá a impressão de que estão protestando contra a corrupção ou contra o conformismo da população com isso", completou George.

A estudante Vitória Beatriz Marques, 16 anos, aproveitou e fotografou o fato "curioso". "Parece que estão alienados, hipnotizados. Acho que a mensagem tem haver com protesto", cita.

Já vendedores e consumidores na quadra 6 da rua 13 de Maio focaram impressionados. "Ficamos bem receosas. Pareciam seres de outro planeta vindo até nós", comentou Marcele Mori.

TRAJETÓRIA

O grupo Desvio Coletivo é uma rede de criadores em cena teatral contemporânea, que atua na zona de fronteira entre o teatro, a performance e a intervenção urbana. Após oficinas com pessoas da cidade, o grupo se une para intervenções. A estreia de “Cegos” aconteceu na Avenida Paulista, em São Paulo, em 2012. Na estrada, o grupo já fez 40 apresentações em 21 Estados brasileiros, Distrito Federal e sete países.

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