Tribuna do Leitor

O retorno antes do fim

José Marta Filho - professor aposentado da Unesp - jose@martafilho.com.br
| Tempo de leitura: 4 min

Acabo de receber a visita de um amigo que há muito não via. Lembramos fatos e histórias de pessoas que há muito não tinha notícias; me emocionei várias vezes. Num dado momento, ele me disse que estava prestes a se aposentar. Levei um susto. Poxa, como pode um jovem já estar se preparando para a aposentadoria? Tentei argumentar que estava cedo, que ele tinha muito a oferecer. Sugeri que fizesse outra graduação (Engenharia, Direito...) e recomeçasse tudo de novo, agora com as experiências acumuladas. Nada lhe entusiasmava. Como última tentativa, contei-lhe um pouco da minha trajetória profissional que, após a aposentadoria como docente da Unesp, passei a dirigir Instituições de Ensino Superior - fui diretor e reitor de seis - e que atualmente, com quinze anos mais que ele, era Reitor numa grande instituição com 40 Cursos Superiores de Graduação e Pós-Graduação - Presenciais e EaD.

Nada o motivou e, ao final, ele, com muita convicção, disse: quero me aposentar para ter uma vida tranquila com muito contato no campo; quero acordar cedo e ouvir os pássaros cantando, ver os animais no pasto e estar perto da roça. Busco, mais do que uma viagem exterior, um resgate interior.

Entendi tudo. Ele disse, sabiamente, que nada adianta uma viagem sem um despertar de si mesmo. Poderia ser até um terrível autoengano. A bela lição do amigo me fez refletir bastante sobre minhas atividades profissionais. Lembrei-me de um texto que li há muito tempo, intitulado "O Caminho de Volta", escrito pela jornalista e publicitária (hoje morando no Recife) Téta Barbosa, no jornal O Globo, em 2011. Ele trata de um retorno particular de Téta, uma espécie de auto despertar e a conquista de um caminho, do próprio caminho. Diz: "Já estou voltando. Só tenho 37 anos e já estou fazendo o caminho de volta. Até o ano passado eu ainda estava indo. Indo morar no apartamento mais alto do prédio mais alto do bairro mais nobre. Indo comprar o carro do ano, a bolsa de marca, a roupa da moda. Claro que para isso, durante o caminho de ida, eu fazia hora extra, fazia serão, fazia dos fins de semana eternas segundas-feiras. Até que um dia, meu filho quase chamou a babá de mãe! Mas, com quase 40 eu estava chegando lá. Onde mesmo? No que ninguém conseguiu responder, eu imaginei que quando chegasse lá ia ter uma placa com a palavra Fim. Antes dela, avistei a placa de Retorno e nela mesmo dei meia volta. Comprei uma casa no campo (maneira chique de falar, mas ela é no meio do mato mesmo.) É longe que só a gota serena. Longe do prédio mais alto, do bairro mais chique, do carro mais novo, da hora extra, da babá quase mãe. Agora tenho menos dinheiro e mais filho. Menos marca e mais tempo. E não é que meus pais (que quando eu morava no bairro nobre me visitaram 4 vezes em quatro anos) agora vêm para cá todo fim de semana? E meu filho anda de bicicleta e eu rego as plantas e meu marido descobriu que gosta de cozinhar (principalmente quando os ingredientes vêm da horta que ele mesmo plantou). Por aqui, quando chove a internet não chega. Fico torcendo que chova, porque é quando meu filho, espontaneamente (por falta do que fazer mesmo) abre um livro e, pasmem, lê. E no que alguém diz "a internet voltou! " Já é tarde demais porque o livro já está melhor que o WhatsApp, Facebook, o Twitter e o Orkut juntos. Aqui se chama Aldeia e, tal qual uma aldeia indígena, vira e mexe eu faço a dança da chuva, o chá com a planta, a rede de cama. No São João, assamos milho na fogueira. Nos domingos converso com os vizinhos. Nas segundas vou trabalhar contando as horas para voltar. Aí eu lembro da placa Retorno e acho que nela deveria ter um subtítulo que diz assim: 'Retorno - Última chance de você salvar sua vida!' Você provavelmente ainda está indo. Não é culpa sua. É culpa do comercial que disse: "compre um e leve dois". Nós, da banda de cá, esperamos sua visita. Porque sim, mais dia menos dia, você também vai querer fazer o caminho de volta. "

É... meu amigo tem razão de querer abandonar a busca da "cenoura na ponta do caniço" - isso é para burro puxando a carroça, que avança a fim de comer a cenoura que está pendurada à sua frente, na ponta de um caniço. Ou a vida de "hamster correndo na gaiola". Na trilha cujos destinos e cujas "placas de Fim" parecem tão óbvias, não o são. Tem hora que precisamos buscar a viagem de retorno, geográfica e não-geográfica. Desacelerar.

O texto lido há tempo aflorou na conversa com o amigo. Agora é a hora certa do retorno. Retorno para a família e para os amigos, longe da hora extra e do poder. Talvez com menos dinheiro e mais felicidade. E esse despertar nem precisa significar o abandono de nada em particular. Mas é, necessariamente, a conquista de algo genuíno e individual: o próprio caminho. Os próprios olhos. O próprio coração. E as próprias pernas (para chegar até lá, ou aqui).

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