| Malavolta Jr |
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| Na opinião de Celson Placido, o investidor privado, de grandes fundos, é quem vai fomentar obras estruturais no País |
Ele é sócio e estrategista-chefe da XP Investimentos, é o mais influente analista do mercado financeiro brasileiro e convive diariamente com os maiores investidores dentro e fora do País. Sem a pretensão de ser mago do mercado, até porque antecipar cenários é quase como acertar na loteria, Celson Placido é respeitado em um meio onde rentismo e especulação andam de mãos dadas. Afinal, quem tem dinheiro e tem sangue frio para as oscilações, combinado com uma boa pitada de expertise, costuma ganhar muito, tanto com crise quanto sem ela.
Nesta entrevista, Celson faz uma abordagem sobre os principais elementos do sinuoso ambiente político no Brasil e indica um caminho mais otimista que a maioria dos brasileiros, inclusive aposta em um juro real de 3,5% a 4%, em 2019. "A gente nunca viu nesse País, de verdade, uma taxa de juro real nesse patamar. Mas ela virá", afirma. Para ele, pelo menos para o ambiente do mercado financeiro, o País já atingiu o fundo do poço.
"Daqui para frente, será a vez de queda nas taxas de juros, o capital independente financiando as principais obras estruturais do País (porto, aeroporto, usinas) e retomada da capacidade de crescimento econômico", comenta. Celson participou do II Fórum Econômico promovido pelo Escritório Freitas Martinho Advogados, a Profit Investimentos e a XP Investimentos.
Jornal da Cidade: Como você analisa a manutenção ou não do governo Temer, novas delações e as eleições de 2018 no comportamento do mercado financeiro?
Celson Placido - O primeiro ponto é que a política se descolou um pouco da economia. Porque os participantes do mercado financeiro olharam Meirelles (ministro da Fazenda) junto com os responsáveis pela equipe econômica fazendo o trabalho deles e sem, entre aspas, a interferência que havia antes. É preciso lembrar que quando Joaquim Levy entrou no governo Dilma ele falava em reformas da previdência etc, mas ele saiu com o presidente do PT, Rui Falcão, falando que o governo não queria. Hoje essa interferência é muito menor. E antes teve redução no preço da gasolina com subsídio, redução no preço da energia e quase tivemos um apagão. O mercado olha o que o Pedro Parente está fazendo na Petrobras, com reajustes quase diários e preços livres na ação do mercado, o ambiente de confiança melhora muito. E na política, a Câmara não quer derrubar o Temer e nem houve manifestação nas ruas. E aqui não falo do mérito, mas faço a leitura.
JC: Juro real em queda é fato então?
Celson - Sim. O ambiente é esse. Juros em queda e inflação caindo a algo em torno de 4%. E falta um ano para esse processo de transição se completar. O Congresso olhou para a turbulência, a sociedade não gostou da opção que surgiu para a troca (Rodrigo Maia) e tem eleição em um ano. É a história do ruim com ele, incerto sem ele. Temer tem força reduzida nesse jogo. Mas também mostrou certa força ao sobreviver ao afastamento na Câmara. E a população e a mídia também estão em cima. A população bateu no fundo partidário de R$ 3,6 bilhões e houve reação a escárnios, como um juiz dizer que está tudo certo ele ganhar R$ 500 mil por mês em um País com 13 milhões de desempregados. É o processo de transição em curso.
JC: Anestesia social à parte, governo fraco do lado, o mercado aposta na transição para sair do fundo do poço?
Celson - Se vier uma delação pesada, vamos ter de avaliar. Mas o que conversamos com políticos influentes é que, mesmo vindo alguma denúncia nova, se o Congresso quiser, vai manter o Temer. E faltarão meses para a próxima eleição. Parar o País para punir todo mundo é opção fora desse cenário. E o mercado já atua com isso. A taxa real de juros que você perguntou tende a diminuir. Hoje você tem algo surreal, 9,25% de juros para uma inflação dos últimos 12 meses de 6%, você tem 3,25%. A Argentina, mesmo não tendo reserva cambial que a gente tem e com problemas piores que o nosso e calote na dívida, eles passaram por uma taxa de juros de 26,5% para uma inflação de mais de 24%. Mas o juro real lá é de 2,5%.
JC: Então por que dessa esquizofrenia? Tudo é desconfiança?
Celson: Isso vem de um histórico. Um passado onde ficou firmado que não se acreditasse no Brasil porque juro baixo poderia alimentar inflação. Acho que é extremamente viável trazer esse juro a 3,5% no tempo. A gente vai terminar o ano com uma inflação de 3,5%. Hoje o Banco Central não pode reduzir muito mais os juros porque em 2018 tem eleição e a safra recorde não será a esperada neste ano, as discussões sobre o barril do petróleo para 2018 podem influenciar. Ou seja, há um conjunto de vetores que pedem a redução gradual dos juros. Mas eu pondero para um juro nominal de 7,5%, uma inflação de 4% e um juro real de 3,5% a 4%. A gente nunca viu nesse País, de verdade, uma taxa de juro real nesse patamar. Mas ela virá.
JC: A classe média bebe na moda de títulos como LCA, LCI. O governo terá coragem de taxar as Letras?
Celson: É difícil dizer se eles vão taxar ou não. Mas se eles passarem a cobrar imposto, a discussão é se vão taxar o estoque ou as novas aplicações. Até poderia tributariamente taxar o estoque das aplicações, porque o ganho de capital vem quando você vende ou quando o prazo se encerra daquele título. Mas vai gerar judicialização. E os maiores emissores foram Caixa e Banco do Brasil e fazendo isso para títulos que rendem 90% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário). E se não tiver a isenção do Imposto de Renda, terão de pagar 106% do CDI. Então não acho que vão taxar. E se o fizerem, os bancos vão ter de remunerar a diferença para atrair cliente.
JC: Hoje o empresário deixa a grana na aplicação, ganha sem suar e o País não faz a roda girar. Com juro real e inflação a 4% muda muito?
Celson: O brasileiro do dia a dia tem a cultura da segurança e não pesquisa. Educação financeira ainda é um longo caminho. Ele não vê que o mesmo risco do CDB é o da poupança. Mas ele deixa o dinheiro na poupança, mesmo perdendo dinheiro. É um processo de educação de entender, ainda, o básico. De que tudo até R$ 250 mil está amparado pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Agora com o cenário de juro menor isso tem de mudar. Já o empresário é quem vai ter de sair mais cedo da cultura do rentismo. Com taxas baixas, mexe muito em tudo. Os grandes bancos não vão dar mais tanto crédito como antes. E o BNDES não terá mais esse papel. Com taxas baixas, reformas realizadas e um governo novo reformista, o Brasil sai do atoleiro e o capital externo entra pesado aqui para investir. O investidor privado, de grandes fundos, é quem vai fomentar obras estruturais no País.
