Articulistas

A guerra do fim do mundo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Quem vai a Hiroshima e Nagasáqui, as duas cidades japonesas que sofreram o horror atômico, tem uma perspectiva do que poderá acontecer com o mundo se houver uma guerra envolvendo potências com armas nucleares. Os museus de ambas as cidades contam os horrores vividos pelas vítimas há 72 anos. Foram 160 mil mortos em Hiroshima e 80 mil em Nagasaki. E as estatísticas ainda estão abertas. Aqueles que sobreviveram carregam sequelas e mortes são registradas em consequência das radiações, nos descendentes.

No dia 6 de agosto de 1945, quando a bomba A, ironicamente batizada de Little Boy, foi despejada sobre Hiroshima, milhares de corpos e edifícios foram desintegrados num raio de 2 quilômetros. Três dias depois, outra bomba, a Fat Man, arrasava Nagasáqui. O turista também pode testemunhar o milagre da reconstrução, de como o povo japonês soube se reerguer das cinzas e construir uma sociedade próspera e pacífica.

Desde então, vez por outra ressurge o risco das potências nucleares desencadearem o Armagedom - a guerra final entre Deus e os governos humanos. Já foi maior no auge da Guerra Fria, entre os Estados Unidos e a ex-União Soviética. Em 1962, Nikita Kruschev, que sucedera a Stalin na liderança, tentou instalar uma base de mísseis em Cuba, a 120 quilômetros do território norte-americano. O líder russo, em discurso na ONU, arrancou o sapato e bateu com o salto na tribuna prometendo varrer do mapa o "imperialismo". Depois recuou. Não era tão maluco assim. O episódio inspirou Stanley Kubrick na comédia de humor negro, Dr. Strangelove, vivido por Peter Sellers. Num ataque paranoico, julgando-se ameaçado na sua posição de "senhor do mundo", o personagem aperta o botão desencadeando um ataque atômico e dá início ao "Juízo Final".

Veja-se a recente confrontação retórica entre o ditador norte-coreano Kim Jong-un e o presidente dos EUA Donald Trump. O norte-americano prometeu responder com "fogo e fúria" a quaisquer novas provocações norte-coreanas. Trump não está preocupado em dissuadir o adversário com uma discussão racional, como o mundo espera do dirigente da única superpotência que ainda resta. Em vez disso, dá livre curso às suas emoções. O norte-coreano põe em relevo somente a sua pretensão de tornar o seu pais uma potência nuclear. Seria a forma de assegurar a continuidade da sua dinastia - a família está no poder desde 1948 - e de garantir a própria segurança.

Desta vez são dois garotões bem-nascidos, um de cada lado. Nada ideológico. A Coreia do Norte está longe do socialismo marxista. É mais uma seita religiosa. Lá, não se pode usar calças jeans, vestidos decotados e comemorar o Natal. Não tem Internet. Quem passa por uma estátua dos ditadores falecidos tem que prestar reverência. Dobrar o jornal é heresia, porque sempre existe uma foto do dirigente na primeira página.

O pior é que não existem opções boas para responder à ameaça norte-coreana. Um ataque preventivo à península coreana liderado pelos EUA, por exemplo, poderia conduzir a uma confrontação direta com a China e à destruição da Coreia do Sul. Teria implicações imprevisíveis para o Japão. Como o triângulo China-Coreia do Sul-Japão se tornou o novo centro da economia global no século XXI, nenhum país seria poupado das repercussões econômicas. O Brasil seria afetado em cheio. A China é o nosso principal parceiro econômico.

Com a Coreia do Norte na posse de armamentos nucleares e dos meios para os utilizar, a Coreia do Sul e o Japão também vão precisar desenvolver a sua própria capacidade nuclear. O coquetel é altamente explosivo. Entram nessa mistura letal Israel, Índia e Paquistão, além dos tradicionais Estados Unidos, Rússia, Reino Unido e França. O Irã também quer. Até o Brasil já teve suas pretensões.

As ameaças nucleares atuais exigem exatamente o contrário de "fogo e fúria". O que é necessário é ponderação, racionalidade e uma diplomacia paciente que não se baseie em ameaças de forças fantasiosas e perigosas. Se a última superpotência renunciar a estas virtudes, o mundo - todos nós - terá de enfrentar consequências. No solilóquio de Macbeth, de Shakespeare, quando o personagem fala consigo mesmo e exterioriza seus sentimentos, ele conclui que "A vida não passa de uma sombra que caminha (...) É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria/ E vazia de significado".

O autor é jornalista e articulista do JC.

Comentários

Comentários