Mentiras não faltam entre nós. Há muita falsidade siliconada nos seios turbinados. Fraude em bumbuns plasticamente redesenhados. Engodo nas perucas que cavalgam vastas calvícies. Disfarces em faces botoxizadas. Há burla na musculatura anabolizada das academias de cada esquina. Há estelionato na idade da menina, antiga colombina de passados carnavais. Tudo, porém, se desculpa, tudo, porém, se perdoa, quando pequenas as mentiras e compreensíveis as vaidades. Agora, o que não dá pra engolir, o que não dá pra encarar são essas cenas obscenas de políticos malas com suas montanhas de dinheiro na telinha da tevê. Coisa nauseante, repugnante, vontade de vomitar. Difícil suportar este tempo sem ética, tempo sem métrica, em que os filhos da pátria, em esperta argumentação, juram a mais santa inocência, com muito dinheiro no bolso e o terço aviltado na mão. Todos se dizendo inocentes dessa lama fedida, ainda não devidamente esclarecida pela língua maldita da delação.
Por tudo isso, impossível negar, o brasileiro sofrido anda triste e cabisbaixo. Sem bússola, perdido, não mais sabe navegar. Temo que os mais desesperançados, diante desse nó que não desata, tenham jogado fora a bandeira da última passeata. Até então, tocados pela cidadania, cantavam hinos e pelas ruas saíam na urgência de protestar. Havia cores na camiseta, carros de som, palavras de ordem, até mesmo homens e ideias em que se podia confiar. Mas o tempo, que tudo lava, jogou jato contra a lama e, arrancando a casca podre, o pior dos mundos revelou. Tantas maracutaias escorreram pelos vídeos, câmeras e gravadores, que, enfim, o dejeto malcheiroso ao ventilador chegou. Nunca na história desse país, tanta merda se espalhou. Tamparam-se as narinas, foi uma desgraça, foi um horror, muito difícil está conviver com tão forte fedor. A coisa realmente tá preta e faz tempo que o Chico avisou.
Se o brasileiro anda triste, bem diferente andam os políticos que, em tempo, perceberam o tempo de tudo mudar. De jeito matreiro e inovador, não se dizem mais políticos, agora colam na cara o rótulo novo de gestor. Assim também fizeram os partidos, correndo atrás de um nome para a nova cara mostrar. E num instante, O PT do B "Avante" virou; o PTN, o Obama copiou e, agora, é "Podemos" (Yes, We can). O PMDB envergonhado quer voltar ao passado, jogando toda a culpa no "P". Eliminando a letra, tudo se resolve, volta a ser MDB. Coisa idiota, coisa tosca, essa nossa mania de apenas mudar a mosca.
Desemprego indecente, a saúde doente, os Estados falidos, a educação abandonada, a violência matando e, o pior, a nação desesperançada... E o que fizeram os políticos? Mudaram de nome para a cara ocultar. E, por estarem sempre à venda, querem mais dinheiro para o presidente apoiar. Querem ainda mais. Na calada da noite, quando todos os ratos pardos gatunos são, eles tramam o mais clandestino ato capaz de mandar pro espaço a maldita Lava Jato.
Caros amigos e políticos caros, desgraçadamente falimos. O preço é muito maior do que o nosso bolso pode pagar Nossa conta é imoral. Tempo triste sem igual, em que empresário delatado manda flores para juiz do mais alto tribunal. Nenhum problema se a coisa anda indigesta e se tão longe a solução. Continuamos em festa, jogando futebol, mas a coisa continua preta e tá difícil segurar esse rojão.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br