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Entrevista da Semana: Diva Simões; uma pioneira

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 6 min

Arquivo pessoal
Eurydes Milagre (de roupa social, ao centro) com Diva (à direira) e Marta Estevan, juntamente com demais árbitros

Primeira mulher a ser juíza de futebol em Bauru, Diva Simões esbanja vitalidade hoje, com quase 70 anos. Inclusive, se houvesse a personificação da palavra "pioneira", seria ela. Diva foi taxista e até motorista de caminhão. Seu jeito espontâneo e debochado lhe rendeu um apelido engraçado: "Dercy Gonçalves do Mato". Confira um pouco mais da vida dessa personalidade, que esbanja simplicidade, simpatia e força.

Jornal da Cidade - Basta a gente trocar duas palavras com a senhora e já se vê que é uma mulher combativa, sem medo, justificando o apelido de "Dercy Gonçalves do Mato". Como é essa história?

Diva Simões - Pois é. É que, assim como era a Dercy, eu sou desbocada mesmo. Não levo desaforo para casa e falo o que penso, sem a menor censura e não me arrependo de ser assim.

JC - E nenhum outro arrependimento?

Diva - Do que tenha feito? Não, de nada. Talvez tenha arrependimento do que não fiz ainda. Tenho e tinha tanta coisa para fazer nessa vida. Não sou de parar quieta.

JC - E nem aguentava desaforo apitando as partidas?

Diva - Se, até hoje, xingam a mãe do juiz, imagina no meu tempo. O mínimo que eu ouvia era "vai lavar roupa" (risos) e eu respondia "não vou, porque tua mulher, sua mãe está lá lavando para mim" (mais risos). Daí o engraçadinho ficava quietinho. Meu compadre, o Milagre (Eurydes Milagre de Oliveira,  dirigente esportivo, presidente da Liga de Futebol Amador de Bauru por vários anos) dizia 'deixa disso, não leve em consideração' e na maioria das vezes eu deixava mesmo. Não estava nem aí para o preconceito que, por sinal, é uma bobagem. Sempre soube me impor. Comigo não tinha briga. 

JC - A senhora fala no seu tempo... quando foi isso? E como começou a ser árbitra?

Samantha Ciuffa
Diva Simões ganhou o apelido de "Dercy Gonçalves do Mato"

Diva - Isso foi nas décadas de 80 a 90. Comecei em 1985 e foram 13 anos apitando. Comecei por duas razões. A primeira gostar do que faço. Eu sempre gostei de futebol, ajudei até a formar um time de futebol feminino em Bauru, o Diamante Negro. Depois, porque precisava mesmo. Tinha cinco filhos para sustentar, uma casa para manter, o que ganhava aos domingos garantia o frango, a macarronada. Mas fui estudar. Fiz cursos para conseguir ser aprovada como juíza, batalhei mesmo. 

JC - O fato de ser de uma família de 16 irmãos, a maioria homens, ajudou a ter essa preferência por atividades que eram ditas masculinas?

Diva - Nada. Acho que é um pouco coisa minha mesmo. É meu jeito, minha índole.  Não era de ficar em casa. Mas a família tem a ver mesmo. Veja: meu pai tinha 10 filhos quando eu nasci. Todos homens. E ele falava para todo mundo, inclusive para mim, que eu vim estragar o time de futebol dele, afinal eram 10 moleques, né? Eu respondia "deixa que eu jogo no gol, pai". Eu tive também o incentivo do meu irmão, Valdir Simões, que foi técnico das categorias de base do Noroeste. Uma pena, ele morreu muito novo.

JC - E a senhora teve vários filhos...

Diva - São cinco filhos, três meninas e dois meninos. Nem tanto quanto meu pai e minha mãe (risos) talvez porque só tive um marido... (mais risos). Não casei mais depois da separação, mas namorei bastante, isso eu reconheço.

JC - E como foi ser caminhoneira?

Diva - Antes, fui motorista de táxi, aqui em Bauru mesmo. Na época, a única taxista. Mas não vivia só disso. Fazia de tudo, passava, lavava, fazia faxina, fiz curso de enfermagem, fui cuidadora. Mas o dinheiro não estava dando e me mudei para Maringá (PR), onde havia mais emprego. Por lá, vi um anúncio de que estavam precisando de motorista, o dono da frota até se espantou mas resolveu fazer um teste comigo porque um dos seus motoristas ficou doente. Acabou que deu certo. Transportava de tudo. Caminhões pequenos e grandes. Quando o doente voltou, foi trabalhar em outro caminhão, porque aquele já era meu. 

JC - E não teve nenhum acidente?

Diva - Graças a Deus nunca. E nunca fui multada. E o caminhão acabou me levando até para o Paraguai. Acabei indo morar lá. Morei em Corpus Christi de Canindeyú, um distrito, bem pequeno (próximo a Sete Quedas, no Mato Grosso do Sul pelo lado brasileiro). E tenho amigos e compadres lá até hoje, é um lugar muito aconchegante. Quando chego me recebem muito bem, parece que está chegando uma rainha de tão bem tratada que sou. Adoro ir lá. Viajar é uma paixão. Adoro. Gosto de dirigir. Só não dirijo mais porque os filhos não deixam. 

JC - E na sua volta para Bauru... não dirigiu mais caminhão por aqui?

Diva - A bem da verdade eu tentei, até tentei dirigir coletivos, mas não me quiseram (risos). Sei que há preconceito até hoje.

JC - E sofreu também nessa área?

Diva - Sem dúvida, vou contar o milagre sem contar o santo até porque quem me fez o desaforo já morreu. Mas eu queria dirigir circular, fui aprovada e um diretor da época não deixou que me admitissem e falou bem alto: "enquanto eu for diretor, mulher nenhuma vai dirigir um circular". Puro preconceito.

JC - E viveu de que?

Diva - Bom, como sempre gostei da enfermagem, também acabei sendo cuidadora, até que precisei parar, por problema de saúde.  

JC - E seus filhos? Como encaravam essa mãe?

Diva - Acho que bem! Claro que no campo de futebol não gostavam de ver a mãe ser xingada, mas foram criados com a mente aberta. E acho que criei bem, não tem nenhum bandido (risos). 

Perfil

Diva Simões ("só assim mesmo, sem nenhum outro nome ou sobrenome") tem cinco filhos, 18 netos e  uma bisneta. Nasceu em 30 de julho de 1958, em Arealva, mas se considera bauruense. Só viveu em sua cidade natal por seis meses. Cresceu aqui, rodou um pouco o mundo, morou no Paraná e, de lá, pulou a fronteira e se estabeleceu no Paraguai, País que também aprendeu a gostar, mas adora Bauru, sua cidade natal do coração.

Hoje,  divide seu tempo entre o apartamento ("fui a primeira a ser sorteada pelo Minha Casa, Minha Vida") e a chácara de um dos filhos, o Osni, que ergue tudo com reciclado, até as paredes da casa. Até outro dia, o filho preparava a massa e ela assentava o contrapiso. 

No espaço, Diva gosta mesmo de cultivar plantas: samambaias, bromélias, damas da noite e uma infinidade de temperos estão ali à mão, tudo cultivado por ela. As histórias que têm para contar dão, com certeza, mais do que um livro. Mas não pense que ela só olha para o passado. Nada disso. Tem sonhos de reunir todos os filhos mais perto dela e de conhecer Campos do Jordão. Brinca que ainda poderia ser técnica de escolinha de futebol do Noroeste, time que também traz no coração, ao lado de sua paixão, o Corinthians. Antenada, adora rever velhos amigos e fazer novos. Por isso, avisa: podem encontrá-la no Facebook!

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