| Aceituno Jr. |
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| ‘Minha casa, meu carrinho’: Laerte improvisa um teto com pedaços de panos velhos, mas não perde a esperança por dias melhores |
| Malavolta Jr. |
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| Depois de percorrer toda a cidade com seu carrinho, Laerte estaciona na quadra 20 da Nuno de Assis: lar doce lar |
Quando cai a noite, o carrinho de recicláveis do catador Laerte Oliveira Filho, 40 anos, ganha outra função: a base do veículo vira uma cama forrada de cobertor e alguns pedaços de pano velho tomam a forma de um teto improvisado. "Aqui é o meu cantinho", resume.
A mesma estrutura de ferro que garante a sobrevivência de Laerte também é o único ambiente de descanso depois de um dia puxado de trabalho, o que justifica o xodó que ele tem pelo veículo adaptado. "Esse carrinho é tudo pra mim", orgulha-se.
O catador está há um mês na cidade, mas viveu anos em São Paulo. Ele conta que veio empurrando seu carrinho pelas rodovias durante uma semana da Capital até Bauru, onde ele já traçou alguns objetivos para mudar de vida. "Quero arrumar um emprego e ter o meu próprio lar".
Laerte ainda tenta encontrar um irmão que não vê há mais de duas décadas, que estaria morando em Bauru, atualmente. Ele diz ter abandonado o convívio familiar na adolescência e fugido de casa depois de ser agredido pelo pai.
Nascido em Pongaí (100 quilômetros de Bauru), começou a trabalhar no corte de cana ainda criança, para ajudar nas despesas da casa, onde vivia com os pais e três irmãos. Certa vez, levou um tapa no rosto do pai e avisou: "Na próxima agressão, vou embora".
"Eu tinha uns 16 anos. Ele levantou a mão pra me bater de novo e decidi sair andando pela rodovia. Ainda era pista simples", lembra Laerte, que, ora seguia o percurso a pé, ora de carro através de caronas que arrumava pelo caminho.
Em três dias, segundo relatou, estava na Capital. "Deus nunca fechou as portas para mim e consegui chegar até lá", ressalta, frisando que seu destino foi pautado pelo que ele via na TV. "Falavam que era um bom lugar para ganhar dinheiro, mas não é bem assim".
Sem oportunidade de trabalho, passou a recolher material reciclável para sobreviver. Arrumou um carrinho e dormia na região do Terminal Todoviário Tietê. "Era claro. Tinha que ficar esperto para ninguém tacar fogo na gente. Alguns moradores de rua foram queimados, à época".
Depois de anos em São Paulo, um episódio fez o catador mudar seus planos. "Conheci uma menina que vivia em clínicas de reabilitação. Consegui convencê-la a retornar para a família e largar aquela vida. Ela acabou me inspirando a voltar para o Interior", conta.
BUSCA PELO IRMÃO
Laerte pegou a sua "carroça" e caiu na estrada novamente. Em Bauru, estacionou seu carrinho na quadra 20 da avenida Nuno de Assis (sentido Marechal Rondon-Rodoviária), cantinho que ele escolheu para ser o seu lar doce lar.
No veículo adaptado, o catador fixou a bandeira do Corinthians, seu time do coração. Ele conta que tem apenas duas peças de roupas, um cobertor e papelões para os dias frios. Lava as vestimentas em um ferro velho da cidade. "Penduro as roupas na carroça para secar".
Hoje, Laerte se diz arrependido por ter deixado a sua família. "Nunca abandonem seus pais e irmãos para saírem pro mundo, porque a vida lá fora é muito difícil", diz ele, que teve notícias sobre a morte de seu pai anos atrás.
"Já minha mãe, Maria Ivone Oliveira, não sei se está viva ou morta. Ela vivia em Cafelândia", conta o catador. Laerte, agora, luta para encontrar seu irmão Edson Oliveira Filho, que, segundo ele, estaria residindo em Bauru, na Vila São Paulo. "Quero muito encontrá-lo", projeta.

