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Que coisa te causa mais medo?

Wellington Anselmo Martins
| Tempo de leitura: 2 min

Filmes fracos de terror respondem mostrando apenas sustos, gritos agudos e música alta. Já o recente "It, a Coisa", mais sofisticado, explora alguns arquétipos do temor humano que podem ser bem resumidos no medo da morte e da violência.

Cada pessoa, a seu modo, interpreta esse medo essencial. Mas nada supera o medo de uma morte violenta. Separados, morte e violência, já podem causar um receio constante. Mas, juntas, estremecem as vísceras.

Thomas Hobbes dizia que tal medo, da morte violenta, é o que move os homens a quererem instituir Estados e procurarem viver em paz. Jesus Cristo, historicamente, carregou em si o estigma de concretizar essa dor; a sua morte de cruz é até hoje lamentada por muitos cristãos e não cristãos, é um símbolo de tudo o que um ser humano não deve passar. O filme "It", baseado em um texto do rei do horror, Stephen King, explora bem essas coisas que nos amedrontam.

Apesar da linguagem juvenil empregada no cinema, a narrativa exemplifica como a Coisa, medo da violência e da morte, são comumente vivenciadas, tristemente inclusive por crianças. Tal como Jesus, inocente, passara pelo que passou, também a inocência da infância é violada por inúmeras dores e traumas. O filme escolhe o medo da exclusão, do bullying, dos pais autoritários, do racismo, do estupro, da perseguição, das perdas familiares. Tudo sintetiza a Coisa, o incômodo desta vida, uma vida que, duramente sabemos, acaba em morte, tantas vezes com torturas e assassinatos.

A história escrita por King, gigantesca, exigiu que apenas um filme não desse conta do recado. Por isso, decerto terá continuação. Os personagens de agora, infantis, o menino gordinho, a moça estuprada, o gago, o jovem negro, reaparecerão adultos em "It 2". Porém, como essa história lida com coisas fundamentais da vida, esta vida humana que desde Aristóteles é pregada como possibilitadora da felicidade, qual um palhaço que deveria fazer rir mas às vezes faz o contrário, também na idade adulta os medos continuarão deixando sua marca de sangue.

Paradoxalmente, o medo humano da morte pode acabar com a morte. Mesmo uma morte violenta, então, teria o poder para nos livrar exatamente do nosso medo dela. Seria uma libertação! Isso, claro, se estiver errada a vertente cristã que profetiza que há para depois uma morte ainda pior, de uma violência eterna: o inferno. O nosso medo, enfim, não conhece limites.

O autor é graduado em Filosofia (USC), mestre em Comunicação (Unesp).

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