Geral

Descuidos e falta de atenção causam acidentes e sequelas

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

A vida é um sopro, mas para muitos a energia concentrada foi de tamanha consequência que restaram sequelas gravíssimas. Descuido, o improvável, ansiedade manifestada no atropelo das tarefas, inabilidade, falta de preparo em lidar com algo, azar, fatalidade. São inúmeros os elementos envolvidos nos casos que se multiplicam de acidentes "simples" com sequelas de enorme proporção.

O pior, sem exagero, é que entre os "atores" das ocorrências estão, em muitos, "obstáculos" tão inesperados quanto a própria resultante do acidente. Tem chinelo, sabonete, tapete, enxada, sabão, telha, bola de futebol.

Mais importante do que o nome dos personagens de fatos reais, até por isso aqui mencionados de passagem, está a reflexão sobre acidentes evitáveis que estão transformando pra sempre a vida de milhares de pessoas todos os dias.

Foi assim com Cristiano Ricardo Zamboni. O servidor público tomava banho em um dos cômodos de sua residência em um final de tarde do final do último ano. A esposa tomava em outro banheiro. Motivo: ganhar tempo para irem ao shopping.

Eis que Cristiano se virou para deixar o sabonete em seu local de praxe. "Ao me virar girei o pé de apoio, escorreguei. A pancada concentrou no meio da costa. Perdi um pouco a consciência com a pancada. Fiquei por mais uns 10 minutos tentando me apoiar, sair e foi pior. Era muita dor", descreve.

Além do piso escorregadio e do movimento involuntário que gerou o tombo, um detalhe: "Eu tinha o hábito de fechar a porta para tomar banho. Fazia isso desde moleque. E ai foi o pior. Não conseguia gritar com a dor na costa e forcei para levantar, rastejar e alcançar a maçaneta da porta. Esse esforço deve ter agravado a fratura de uma vértebra no meio da costa, que estilhaçou", conta.

Conforme Cristiano, o exame apontou que "por um fio o 'estilhaço' não afetou a coluna vertebral". Dois meses de colete de preparo para a cirurgia e uma dor terrível no pós. "Um tombo no banheiro e por um triz não fiquei paraplégico, me disse o médico".

Ele ainda se recupera, o corpo continua "torto", tomar banho de porta fechada nunca mais, sentar agora só na cadeira anatômica que comprou, o piso ganhou fita antiaderente e, aos poucos, Cristiano conta que tenta fortalecer a costa com exercícios de pilates. O piso ganhou tapete antiderrapante.

A BOLA, A SANDÁLIA

Era mais um dia, da agenda semanal, em que o autônomo Marcos Gomes ia jogar futebol society com os amigos da empresa. Empolgação, movimentos, dribles, um domínio de bola fugiu ao controle, ele caiu.

A cabeça de Marcos foi atingida pelo joelho do colega, conforme amigos. A costumeira gozação (Marquinhos sempre foi alegre, brincalhão) foi substituída por preocupação. Socorro em situação de urgência, espera de vaga para internação. Marquinhos agora depende do uso de cadeira de rodas e retomou poucos movimentos. O diagnóstico médico aponta pouca chance de recuperação da capacidade motora.

A cerimonialista Iracema Nogueira Lima descreve que usava uma sandália, "crock, volumosa o suficiente para torcer o pé esquerdo. Na queda, apoiei o cotovelo direito e bati com a cabeça no canto do tanque. Rompi ligamentos do pé, rompi todos os ligamentos que existem no braço e ainda levei mais nove pontos na cabeça".

Foram pelo menos seis meses para recuperar, parcialmente, movimentos, sobretudo do braço. "A imagem e as sequelas foram tão impressionantes que quando me perguntavam o que houve dizia que foi atropelamento para facilitar", conta.

A professora Thereza Popoff levou tombo no passeio em fazenda. Longa intervenção médica, pinos, e veio outra ocorrência. Resultado: andador pra sempre e ausência de força nas pernas capaz de fazê-la voltar a andar por si.

Nesta semana, um trabalhador perdeu a vida pelo uso improvisado de uma motoserra. São centenas, milhares de casos. E isso, ainda, sem incluir acidentes com idosos, parcela considerável de vítimas de ocorrências com sequelas graves. Há dois anos, um irmão segurava a escada para o outro em um reparo caseiro. Um foi pegar o alicate, a escada ficou sem sustentação. O irmão que estava pendurado bateu com a cabeça ao chão: morte em Pederneiras.

Uma perna pra Carol

Samantha Ciuffa
Caroline Michele Pereira

Caroline Pereira, 31 anos, funcionária de hotel em Bauru, universitária do quarto ano de engenharia de produção, faz campanha na internet para arrecadar R$ 35 mil.

O valor é necessário para a compra de prótese transfemural e os serviços de reabilitação e adaptação. Ela criou na internet a página "Uma perna pra Carol". "Sofri um acidente, só estou viva porque uma bombeira civil estava próxima e fez os primeiros socorros. Perdi muito sangue. O tempo de espera para levar ao hospital e a intervenção médica foram insuficientes e tive uma perna amputada. Moro no Parque Giansante, em rua de terra, estou sem trabalhar e não tenho condições de pagar a prótese. Na fila do SUS a previsão é de bem mais de um ano. Espero que me ajudem", apela.

Caroline prefere não entrar em detalhes sobre o acidente, em razão da discussão jurídica que envolve seu caso.

Médico confirma escalada

Samantha Ciuffa
Ortopedista Roger Tédde Mansano: tapete, chão escorregadio e pressa geram perigo

O ortopedista Roger T. Mansano perdeu de vista acidentes com sequelas permanentes relacionados a pacientes que atendeu. São tantos os exemplos, sobretudo os ocorridos em residência, que ele preferiu elencar elementos perigosos e grupo de risco. "Idoso, escorregão, queda, piso, tapete, perda de equilíbrio e fratura exposta do colo, do fêmur, são coisas que se interligam. Fato muito, muito comum: bater a cabeça e sofrer sequela neurológica. A questão é que o médico inclui jovens, de idade média ou não, e negligência e descuido no pacote. "Há muito caso de acidente fatal, ou que deixa a pessoa sem condições de retomar sua vida normal anterior, envolvendo descuido. Tapete, chão escorregadio, pressa, falta de atenção. São tombos e lesões contundentes na coluna, entre outros".

Na sala de fisioterapia

Divulgação
Fisioterapeutas Carina Azevedo Santos e Cilene Abruceze Senna: acidentes evitáveis

Multiplicam-se os atendimentos em clínicas de fisioterapia por acidentes ligados a "causas corriqueiras, caseiras". Fratura de patela, com cirurgia para reconstrução do osso, em razão do tombo de uma paciente em um banquinho de bar. Um jovem, ao fazer exercício em casa, levou queda porque a barra se desprendeu da parede.

São inúmeros os exemplos. Isso para citar fratura de vértebras e um tratamento de seis meses com fisioterapia porque não teve lesão medular. Uma ação que envolve toda a família nos primeiros meses, porque o paciente fica dependente e tem movimentos que não consegue fazer, contam as fisioterapeutas Carina Azevedo dos Santos e Cilene Abruceze Senna.

Sequelas como ficar mancando e perder sensibilidade em partes do corpo são habituais, acrescentam as profissionais. "Mas há inúmeros casos com alterações viscerais, que afetam rim, bexiga, intestino e que exigem ainda mais tempo e geram maiores chances de sequelas. E é até repetição dizer, mas a maioria desses acidentes eram evitáveis e foram originados por descuidos, desatenção, outros por pressa. Existem fatalidades, mas muitos poderiam ser evitados", posicionam.

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