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Malas

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Definitivamente decidido: viagem internacional com a minha mulher nunca mais! E como sem ela chance nenhuma tenho, caso encerrado. O motivo: minha mulher evapora. Foi assim numa conexão em Lisboa. Como se não a conhecesse, cometi a imprudência de me abaixar para amarrar os cadarços. Ao erguer a cabeça, ela simplesmente tinha sumido. Imediatamente, acionei o celular: caixa postal, sem bateria. Passei duas horas esbaforido, correndo de um lado para outro. Nada.

Os alto-falantes, tão irritados quanto eu, berravam o nome dela. Nada. Eu, que de tudo sou descrente, rezei fervorosamente. Nada. Enfartei? Nada. Só no último minuto do embarque, consegui encontrá-la. Tranquila, comprava lembrancinhas. Descontrolado, explodi-me em adjetivos. Ela apenas respondeu: "Que culpa eu tenho? Não tenho relógio..."

Três anos depois, ela implorou nova chance. A irmã viajaria para a Alemanha. Com ela, estaríamos completamente seguros. Era verdade. Minha cunhada Isabela é viúva de um inglês que amava viajar. Enfartou. Dele ela herdou fortuna e o prazer de bater asas. Isabela fala um inglês perfeito e um alemão e um francês quase perfeitos. Eu não falo pitico de nada. Minha mulher, não entendo até hoje, fala esperanto.

Minha cunhada é mesmo perfeita. Domina, além dos idiomas, as minudências do viajar com cultura e segurança. Países, monumentos, museus, tudo ela conhece e historicamente explica. Incrível, tem sempre o comprimido desejado, o cadeado sobressalente, capinhas de chuva, aferidor da pressão arterial, coisas assim emergenciais. Era a nossa chance de ouro. Pegar ou perder? Pegamos. Mas só depois de a minha mulher jurar por Deus, três vezes, que não evaporaria.

Então, ela se lembrou de uma velha amiga. Outra viúva, Glorinha. O marido, alto funcionário da ONU, viajava mundo afora. Glorinha acumulou inegável experiência internacional. Diante de viúvas tão viajadas , eu era apenas uma mala e , considerando tais currículos, minha mulher era a terceira viúva, ainda que de marido vivo.

Embarcamos, eu e as três viúvas. A coisa começou a se complicar na primeira manhã em Frankfurt e assim se estendeu por toda a viagem. Minha mulher, esquecendo o juramento feito, disparava na frente sozinha, como se a Europa fosse o seu quintal. Glorinha lá atrás, puxava um joelho encrencado. Eu e minha cunhada, no meio, dividimos tarefas: eu olhava pra frente, segurando e xingando a minha mulher. Ela olhava para trás, cobrando da amiga, um pouco mais de pressa pelo amor de Deus! O medo, claro, era minha mulher sumir numa lojinha qualquer. Se ela se perdesse na Alemanha, seria o caos: ela fala esperanto e os alemães, grego! Ofegante, o joelho da outra implorava, lá atrás, paciência cristã e solidariedade.

Glorinha trouxe uma tosse terrível e um intestino ameaçador. Daí que toda hora, ela queria saber se os roncos hidráulicos gasificados vinham da barriga dela ou se das nossas. Disenteria, ela se benzia, seria o fim. Na Europa, proíbe-se banheiro em ônibus de turismo. Acontecendo o desarranjo, é vexame mesmo. É mato mesmo. E se a diarreia for brava é mato muitas vezes mesmo. "Imaginem eu ter que pedir pro motorista ir parando pelo caminho... Com que cara vou ficar entrando e saindo do mato?, dizia aterrorizada. Glorinha cortou o leite, a carne, a cerveja, o camarão... Foi de maçã e pera a viagem toda. Deu certo.

Em Munique, minha mulher descobriu que precisava de grampos. A recepcionista deu-nos a informação: dois quarteirões e, depois, era só virar à direita. Ela recusou que eu a acompanhasse, "desce dois e vira à direita, não tem erro, não preciso de você, vou sozinha".

Prevendo o pior, bati o pé e fui junto. Na volta, ela passou reto, não fez a curva necessária. Deixei que ela continuasse errando um pouco mais. Depois, maldosamente, fiz aquela crítica do "tá vendo, eu não disse?!" Tranquila, ela me esnobou: "Você não faria falta nenhuma, eu pegaria um táxi." Aproveitei a deixa: Ah é ... e qual é o nome do hotel? "Renaissance", ela respondeu. "Marriott" era o nome. Com essa rima, o taxista jamais chegaria ao hotel.

Só contei os ridículos das minhas companheiras de viagem. Os meus, bem piores, não os contei. Bem ou mal, sou o narrador, a quem se concede o direito de tesoura. Então, tesourei as minhas gafes e, aproveitando a oportunidade, tesourei o passaporte. Agora é pra valer. Nunca mais viajo. O mais que posso conceder - coisa pra se pensar - é Guarujá.

O autor é professor de redação e membro da Acade mia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br

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