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Sono vira "sonho de consumo"

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Samantha Ciuffa
Walter Silva Júnior discute tema com profissionais

Parece algo simples. Mas para algumas pessoas, ter uma boa noite de sono é uma missão árdua. Em alguns casos, inclusive, essa possibilidade torna-se até "um sonho de consumo". Problemas como ronco, apneia obstrutiva do sono e insônia são alguns exemplos de dificuldades que transformam a hora de dormir em verdadeiro "pesadelo".

"As pessoas realmente estão dormindo cada vez pior. O número de problemas catalogados relacionados ao sono passa dos 100", afirma o especialista no assunto e dentista Walter Silva Júnior, organizador do Simpósio Multidisciplinar sobre Ronco e Apneia Obstrutiva do Sono, que discutiu o tema na semana passada com profissionais e estudantes da saúde.

A falta de uma noite bem dormida atrapalha a atenção, concentração e deixa a pessoa sonolenta o dia todo, sem a capacidade total de exercer suas funções. "O sono não serve apenas para o descanso do corpo. Existe uma série de produções hormonais e mediadores químicos importantes para que a gente possa desempenhar as nossas funções no outro dia", explica Walter.

Outro fator que vem atrapalhando o sono é o hábito que algumas pessoas criaram de dormir com tablets, celulares e televisão ligados. "O uso desses aparelhos ao pegar no sono interfere na produção da melatonina, o hormônio natural que induz o sono. Podemos dizer que as pessoas desaprenderam a dormir, achando que podem dormir menos para poder fazer mais coisas, mas o sono cobra a sua cota mais para frente", comenta.

De acordo com o especialista, os trabalhos mostram que, no mínimo, são necessárias de sete a oito horas dormindo para que um adulto tenha um sono reparador com descanso físico e mental.

DOENÇAS

Segundo o especialista, até dormir demais pode ser um problema. "A pessoa dorme por muitas horas, mas acorda cansada. Esse é um sono não reparador que causa alterações hormonais", afirma.

Além disso, doenças podem ser adquiridas por conta da falta de uma boa noite de sono. "Quando a pessoa não dorme bem, ela não tem todo o ciclo adequado de eliminação de toxinas do organismo que podem, mais tarde, desenvolver doenças como Parkinson e Alzheimer", comenta.

Ainda existem as que afetam pessoas que querem dormir e seguem orientações - a chamada higiene do sono (veja mais nesta página), que são rotinas criadas durante a noite para garantir uma boa noite -, mas, mesmo assim, não conseguem por conta de distúrbios.

"O ronco e a apneia são distúrbios do sono extremamente incapacitantes, com diversas doenças associadas como diabetes, pressão alta, infarto e AVC. Essas pessoas precisam procurar ajuda médica para controlar o problema com um aparelho intraoral", comenta.

De acordo com o especialista, esses são problemas que podem estar relacionados à anatomia da garganta do paciente, à obesidade, ao uso de medicações e ao tipo de formações de arcada dentária.

'NÃO DURMO'

Samantha Ciuffa
Luiz Carlos da Silva conta que seu sono é muito leve

Luiz Carlos da Silva é caseiro em um sítio e está sempre alerta, até quando poderia estar dormindo. Ele relata que os roncos são constantes e o sono, cada noite mais leve. "Eu durmo muito mal e, quando não tenho insônia, meu sono é leve. Também sei que ronco bastante e isso me atrapalha bastante", comenta. "Eu praticamente não durmo", ressalta.

Com hábitos noturnos criados após anos de preparação de aulas e provas, a professora aposentada Myriam Caldeira de Mello convive com o problema há mais de 10 anos. A aposentada também não conseguia dormir e procurou ajuda. "Tive acompanhamento médico e já fiz exames de funcionamento do sono três vezes", afirma.

Segundo Myriam, quando trabalhava, o maior problema, além da falta de sono, era o dia seguinte. "Parecia que eu tinha acordado de uma anestesia geral", comenta. Atualmente, a aposentada faz uso de remédio indutor de sono e meditação para conseguir dormir. "Está surtindo efeito, com a meditação eu estou dormindo melhor", conclui.

OUTROS CUIDADOS

Samantha Ciuffa
Endocrinologista Roberta Penhalbel Pinheiro 

Além dos problemas de saúde que atrapalham o bom andamento do sono durante a noite, a endocrinologista Roberta Rodrigues Penhalbel Pinheiro, também palestrante do simpósio, alerta para outro risco.

"Hoje vemos uma população apresentando cada vez mais aumento de peso e, junto disso, nós encontramos outras comorbidades, como é o caso da apneia do sono, que também vem crescendo. A obesidade traz como consequência as alterações de metabolismo da glicose, lipidemia e outras alterações que acabam concorrendo como fatores de risco para doenças cardiovasculares e daí a importância de olhar para essa questão", ressalta. Segundo a especialista, essa é uma realidade que acomete mais aos homens, mas as mulheres também são afetadas por problemas que podem prejudicar o sono em períodos como o da menopausa. "Nós vemos em alguns trabalhos, que ainda devem ser melhor estudados, que as reposições hormonais, durante o período de menopausa, podem prevenir problemas como a apneia do sono", comenta.

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