"Lugar de aluno é na... política". Assim, a reportagem do Jornal da Cidade (05/09/17, p. 4) iniciava a apresentação do projeto "Cidadania em Ação" com o objetivo de promover a prática da cidadania pela aproximação entre alunos e representantes políticos da cidade.
Em momento posterior, como título, o jornal trouxe: "Pesquisa: juventude rejeita política" (11/09/17, p. 3), relatando a constatação de uma apuração do Tribunal Superior Eleitoral.
Daí surgiu nossa inquietação e, sem desmerecer o projeto que tem mérito respeitável, cabem algumas reflexões sobre o assunto. De pronto, surge a indagação: O que é cidadania? O senso comum nos remete à política. E, então, o que seria política? A maioria, sem hesitar, poderia remeter tal conceito a Brasília, deputados e senadores ou corrupção. Porém, precisamos desagregar superstições e nos ater a uma resposta diáfana.
Cidadania usualmente foi relacionada com regime político, ou seja, o vínculo jurídico entre o Estado e o indivíduo que o qualifica como cidadão. No entanto, atualmente esta ideia tradicional de cidadania encontra-se incompleta. A democracia exige uma sociedade de cidadãos plenos, o que não é redutível ao processo eleitoral, o que não o afasta, por óbvio. A cidadania integral abrange também a efetividade de direitos fundamentais. Nesta senda, destacamos que a cidadania incorpora a concretização de direitos essenciais, como igualdade, liberdade, saúde, educação, moradia,alimentação e justiça no afã de garantir uma vida digna, conforme os mandamentos de nossa Constituição Federal de 1988.
Segundo Marilena Chauí, quando diz-se "estudante estuda e não faz política" refere-se aos políticos profissionais, enquanto afirmar "os estudantes estão alienados, não se interessam por política" reflete um interesse ou obrigação de todos. Um aparente paradoxo reflete que a expressão política é polissêmica.
Neste contexto, a política pode significar a administração do poder público pela sociedade como um todo ou atividade dos administradores que ocupam os postos do Estado e, além disso, decorre do consenso como sendo algo não muito confiável e normalmente contrário aos interesses gerais.
O estranhamento decore justamente de que a política foi criada para expressão das diferenças entre os homens sem que isso gerasse uma guerra e, ainda, para sociedade discutir, deliberar em comum as ações que envolvem todos os membros da sociedade.
Desta forma, a visão pejorativa que, muitas vezes, jornais e revistas desnudam a política traz prejuízos para nós, cidadãos, em busca de concretização de direitos fundamentais ao ser humano. Posto que só podemos lutar contra a corrupção, fraudes, crimes impunes, desvios de dinheiro público pela própria política.
No entanto, as pessoas, cansadas e exauridas de tantas notícias insatisfatórias na "política", deixam de participar de atividades sociais com este cunho e assim instala-se o paradoxo: "Ao recusar a política, a apatia social também é uma forma de fazer política, ainda que de forma passiva".
Por fim, evidente o mérito entre aproximar alunos e representantes da política. A busca incessante por saúde adequada, educação de qualidade, moradia e alimentação para todos, igualdade de direitos, entre tantos outros direitos essenciais está justamente na profana política.
Só com a política alçaremos a cidadania plena.