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Vigia coloca fogo em creche, mata 6 crianças e professora em Minas

Atualizada às 3h37
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Fotos: Polícia Militar/Divulgação
Familiares chegam desesperados em busca de informações
Damião Soares dos Santos

O segurança de uma creche municipal de Janaúba (MG), a 554 km de Belo Horizonte, ateou fogo em crianças e em si mesmo dentro da unidade, deixou uma professora, duas meninas e quatro meninos de 4 anos mortos e ao menos 23 feridos, na manhã dessa quinta-feira (5). O ataque ao centro de educação infantil Gente Inocente deixou em choque a cidade de 72 mil habitantes do interior de Minas Gerais. Dos 23 feridos, 20 eram crianças - os locais e as porcentagens de superfície corporal queimados variam, mas a maioria está em estado grave. A professora Heley Abreu Batista, que teve 90% do corpo queimado tentando salvar seus alunos, morreu nessa quinta-feira (5) à noite.

O ataque feito por Damião Soares dos Santos, 50 anos, que também morreu, foi premeditado, segundo a polícia, que encontrou galões com combustível na casa dele. A polícia afirmou que ele tinha problemas mentais e era obcecado por crianças - e que a data era simbólica para ele por marcar os três anos da morte do pai. Morreram na hora as crianças Ana Clara Ferreira Silva, 4 anos; Luiz Davi Carlos Rodrigues, 4 anos; Juan Pablo Cruz dos Santos, 4 anos; e Juan Miguel Soares Silva, 4 anos. Renan Nícolas estava com 90% do corpo queimado, enquanto Cecília tinha 80% e morreram depois, a caminho de um hospital em Belo Horizonte.

O segurança fazia a vigilância noturna na creche havia quase uma década. Ele disse à família, na terça-feira (3), "que daria um presente a todos se matando em breve".

A maioria das crianças feridas teve que ser transferida para hospitais de Montes Claros e de Belo Horizonte. O Centro Municipal de Educação Infantil Gente Inocente, com capacidade para 82 crianças, é da prefeitura e fica no bairro Rio Novo. A Polícia Civil de Minas Gerais informa que abriu um inquérito para apurar o caso.

O prefeito de Janaúba, Carlos Isaildon Mendes (PSDB), afirmou que o segurança retornaria de férias ontem à creche, que funciona em período integral. "Ele tinha acabado de chegar de férias e entrou na escola dizendo que ia entregar um atestado médico, alegando que não passava bem. Mas estava com um balde, e, em um gesto completamente insuspeito, jogou o que seria álcool, que estava nesse balde, no próprio corpo, e no corpo das crianças", afirmou.

Reprodução Internet
A instituição tinha capacidade para abrigar 82 crianças e estava cheia na manhã dessa quinta-feira (5)
Moises Silva/O Tempo/Estadão Conteúdo
Dos 23 feridos, porcentagens de superfície corporal queimadas variam, mas a maioria é grave

Indagado sobre as condições mentais do funcionário, Mendes negou que ele tivesse apresentado algum indício de problemas. "O que me relataram lá é que ele chegou normal e tranquilamente até a diretora para supostamente entregar um atestado médico. Estamos mesmo muito surpresos com o que aconteceu", disse. Por outro lado, o prefeito disse que o ataque "poderia ter sido pior", já que a sala em que o segurança entrou com o material inflamável era a do segundo período, com crianças de até cinco anos de idade.

"Poderia ter sido algo até pior, porque a sala ao lado era o berçário, e evacuar crianças dali seria muito mais difícil. Onde ele atacou as vítimas são maiorzinhas e muitas conseguiram escapar", afirmou.

A secretária municipal de Educação, Luzia Angélica Santos, afirmou que Damião nunca havia se envolvido em problemas. "É algo inexplicável, ninguém entende."

Já o delegado Bruno Barbosa Fernandes disse que Damião estava em tratamento psiquiátrico desde 2014. "Ele nunca precisou ser afastado do trabalho nem tinha contato com crianças, já que era segurança noturno. O que ele fez foi covarde, mas nunca tinha manifestado nada disso no trabalho."

Em visita a Belém nesta quinta, o presidente Michel Temer disse lamentar a tragédia. "Lamento imensamente essa tragédia das crianças em Janaúba, Minas Gerais, eu que sou pai, naturalmente muitos dos senhores e das senhores também o são. Quero expressar minha solidariedade às famílias, lamentar esse acontecimento."

O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), decretou luto oficial de três dias. No Twitter, Pimentel disse que "todo o dispositivo médico necessário para o socorro das vítimas já foi acionado" e que irá pessoalmente a Janaúba.

EXTERIOR

A imprensa internacional repercutiu a tragédia. A rede inglesa BBC destacou que pelo menos seis crianças morreram em centro especializado no cuidado de crianças, além de destacar que o homem colocou fogo em si mesmo. O jornal norte-americano The New York Times relata a situação, dando destaque para o fato de o homem ser funcionário do local há nove anos e que os motivos do ataque não foram esclarecidos.

População se organiza para ajudar os parentes

Pelo Facebook, moradores de Montes Claros, cidade mineira a duas horas de distância de Janaúba, cenário de tragédia da creche, estão se oferecendo para dar abrigo, banho e alimentação para pais de crianças que tiveram de viajar para acompanham o atendimento as seus filhos.

"A psicóloga da prefeitura me ligou e avisou que pelo menos uma mãe de uma das crianças já vai vir aqui para casa", disse a cozinheira Edisa Rosa de Andrade, de 40 anos, uma das voluntárias. "As pessoas estão começando a chegar aqui. Minha casa fica a 10 minutos de distância da Santa Casa. Quando soubemos da tragédia, a gente se ofereceu para dar alguma ajuda para quem vier acompanhar os filhos", afirmou. Sua irmã, Darciza de Rosa Andrade, de 46 anos, também é uma das voluntárias.

Ainda nas redes sociais, a Prefeitura de Janaúba está pedindo à população das região ajuda com itens básicos de atendimento médico. A lista inclui luvas de procedimento, jalecos e medicamentos, como morfina e dipirona injetável. O Corpo de Bombeiros também está recebendo donativos para os hospitais da região. O governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), está se dirigindo à região. Pelo Twitter, ele divulgou nota em que afirma que "todo o dispositivo médico necessário para o socorro das vítimas já foi acionado".

Músico invade creche, resgata alunos no fogo e usa o próprio carro como uma ambulância

Por volta das 9h dessa quinta-feira (5), o músico Armando Lopes dos Santos Júnior, 25 anos, saiu de sua casa para receber uma encomenda dos correios. Quando retornou, voltava ao quarto quando ouviu um carro da Polícia Militar passar com as sirenes ligadas em alta velocidade. Ao retornar à rua para ver o que era, foi abordado pela vizinha, em desespero. "Pelo amor de Deus, ajuda, Juninho! É incêndio, as crianças estão pegando fogo, todo mundo, ajuda!", gritava ela.

Armando mora em frente à rua da creche a que um vigia ateou fogo em Janaúba (MG).

Armando conta que, ao ouvir a vizinha, saiu correndo em direção à creche. "Entrei para tentar apagar o fogo, mas não deu nada. O teto era inflamável, já estava cheio de fumaça tóxica, preta. Aí corri em casa para pegar meu carro e ajudar no socorro às vítimas", afirma.

O músico disse ter agido por impulso. "Não pensei direito, só queria salvar as crianças ali." Ele afirma que colocou cerca de cinco crianças queimadas no carro e levou ainda mais dois adultos, em uma viagem única.

"Quando cheguei (na creche) já tinham muitas viaturas. Coloquei o máximo de pessoas que eu consegui. Tinha uma professora ou funcionária queimada, muito mesmo, tipo 80% do corpo em carne viva. Um rapazinho estava todo branco, uns 90%", estima. Armando diz que todas as crianças estavam chorando muito e em estado de choque.

"Fui limpar o banco do meu carro, tinha pedaço de couro cabeludo. Foi uma cena difícil." Ele afirma que, como o hospital regional é próximo à creche, a corrida levou menos de um minuto. "Pisei o máximo que o carro tinha. O primeiro carro a chegar com vítimas foi o meu, já cheguei gritando e o pessoal foi ajudar."

O músico afirma estar abalado com a tragédia. "Na hora é uma sensação que eu não sei nem como descrever, a gente só pensa em ajudar, mas é uma situação muito complicada. Mas é muita coisa para se fazer, você fica sem foco, fica maluco", desabafou.

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