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| Ícone do teatro brasileiro, atriz Ruth Escobar foi destaque na vanguarda nos anos 1960 e 1970 |
Não foi apenas no teatro, nos mais de 30 espetáculos em que atuou, que a atriz e produtora Ruth Escobar, morta nessa quinta-feira (5), aos 81 anos, sentiu-se autorizada a se desdobrar em inúmeras personagens.
Longe das coxias, esta portuguesa nascida Maria Ruth dos Santos, em 31 de março de 1936, na cidade do Porto, foi deputada estadual em duas gestões, empresária, ativista política, líder feminista, autora de uma autobiografia lançada em 1987 e uma militante em tempo integral cuja disponibilidade para criar e defender projetos comunitários impressionava até os amigos mais próximos.
Tamanho ecletismo em sua trajetória foi marcado ora pelo signo do sucesso, ora pelo da polêmica. E, em incontáveis vezes, simultaneamente pelos dois. Se fosse possível abrigar tantas vocações atrás de uma única denominação, não seria injusto dizer que Ruth Escobar foi, acima de tudo, uma personalidade.
Ruth Escobar chegou ao Brasil aos 15 anos, em 1951 - as décadas seguintes que viveria por aqui ajudaram a atenuar, sem jamais eliminar, seu acento lusitano. No fim dos anos 1950, já casada com o dramaturgo e filósofo Carlos Henrique Escobar, partiu para uma temporada de estudos na França.
Ao retornar, criou sua primeira companhia, o Novo Teatro, e convidou para suas primeiras produções o diretor italiano Alberto D'Aversa, que havia chegado a São Paulo em 1957 para dar aulas na Escola de Arte Dramática.
As primeiras peças que D'Aversa dirigiu para Ruth e sua trupe foram "Mãe Coragem e Seus Filhos", de Bertolt Brecht, em 1960, que se revelou um fracasso de bilheteria tão grande a ponto de comprometer o salário da equipe, e "Males da Juventude", de Ferdinand Bruckner, no ano seguinte.
O velório será no teatro Ruth Escobar, em São Paulo.
Trajetória
Nascida em 1936, em Portugal, Maria Ruth dos Santos Escobar estava internada no Hospital Nove de Julho, em São Paulo.
O velório será no teatro que leva o nome da atriz, ainda sem horário confirmado.
Em 2006, a atriz que sofria de Alzheimer foi interditada, a pedido da filha Patricia, e seu patrimônio passou a ser administrado por um escritório de advocacia.
Ícone do teatro brasileiro, Ruth foi destaque na vanguarda nos anos 1960 e 1970, com a companhia Nova Teatro e com a realização do 1º Festival Internacional de Teatro, em 1974.
Mudou-se para o Brasil em 1951 e casou-se com o filósofo Carlos Henrique Escobar.
Em 1958, viajou para a França, onde participou de cursos de interpretação.
Brasil lamenta a morte da artista
Diversos artistas usaram suas redes sociais para lamentar a morte da atriz Ruth Escobar. O dramaturgo Aimar Labaki afirmou: "Nunca foi santa. Mas sem mulheres como ela, não se constrói um país. Descanse em paz, Ruth. Obrigado por tudo".
O governador de São Paulo Geraldo Alckmin disse que recebeu a notícia com pesar e a chamou de ícone do teatro. "Também deixou sua marca na política, tendo sido eleita duas vezes deputada estadual. Como colega de Assembleia, pude acompanhar de perto seu trabalho", disse o tucano.
O ator e ex-secretário de Cultura da cidade de São Paulo Celso Frateschi falou sobre a vida da atriz. "Um pouco de cada artista de teatro devemos a você." Já a atriz e diretora de teatro Mika Lins escreveu: "Ruth Escobar fez muito pelo teatro brasileiro."
O cineasta Lufe Steffen a chamou de guerreira das artes e afirmou que ela "fez história com tantas coisas".
Mario Viana, dramaturgo, disse que a produtora foi uma das mais ousadas. E o poeta Claudio Willer escreveu que se ela estivesse viva "seria mais uma voz forte contra o retorno da censura".
Teatro da resistência: atriz e produtora era chamada de louca e criativa
O passo determinante para a consolidação do nome de Ruth Escobar como atriz e produtora se deu em 1964, com a criação do teatro que leva seu nome, no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo.
O Teatro Ruth Escobar, um endereço que entraria para a história recente do Brasil tanto pela ousadia e ineditismo das produções ali apresentadas quanto por sua inclinação para polo de resistência à ditadura militar, foi inaugurado com um texto de Bertolt Brecht, "A Ópera dos Três Vinténs", dirigida por José Renato (1926-2011).
Em julho de 1968, durante uma das apresentações da peça "Roda Viva", de Chico Buarque, o teatro foi invadido por 20 integrantes do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), que destruíram o cenário da peça, danificaram equipamentos e espancaram os atores. "Vivi muitos momentos importantes com a Ruth. O mais marcante na minha memória foi estarmos juntas, presas, no Segundo Exército em São Paulo, em 1968", recordaria a atriz Marília Pêra (1943-2015), que foi agredida no camarim durante a invasão do teatro pelo CCC. "Naquela noite na sede do Segundo Exército, éramos cinco os 'marcados': Ruth Escobar, Augusto Boal, Plínio Marcos, Renato Consorte e eu", disse ainda a atriz. "Boal e Plínio conseguiram escapar. Ruth e eu fomos presas. Passamos duas noites no mictório dos militares, deitadas em dois colchões no chão, falando e temendo tudo. Além de tudo o que vi dela ali, vi também que ela foi uma luz no teatro brasileiro, desde todos os espetáculos que fez acontecer, até suas festas inesquecíveis, e mais suas inacreditáveis interpretações como atriz. A vida de Ruth não cabe em dez livros. Louca e criativa."
No fim da década de 1960, a atriz produziu -e protagonizou- alguns dos mais lendários espetáculos já encenados no país em qualquer época. Entre eles, "Cemitério de Automóveis", de Fernando Arrabal, que estreou em setembro de 1968 em uma velha garagem na Rua 13 de Maio, e "O Balcão", de Jean Genet, que entrou em cartaz em dezembro do ano seguinte. As duas peças, surpreendentes pelo arrojo e vigor da encenação, foram dirigidas pelo argentino Victor García (1934-1982), que Ruth havia convidado para trabalhar no Brasil em 1967.
A montagem brasileira de "O Balcão", apontada pelo próprio Genet como a melhor que seu texto recebeu em qualquer outra parte do mundo, subverteu até mesmo a arquitetura do teatro, que teve parte da plateia e mezanino destruídos para a obtenção de um vão livre de 20 metros de altura. A peça conquistou os principais prêmios de teatro naquele ano e fez de Ruth Escobar a vencedora do Troféu Roquette Pinto na categoria personalidade do ano.
Ao longo dos anos 1970, Ruth Escobar colocou o Brasil no mapa da vanguarda teatral mundial com a criação do Festival Internacional de Teatro, que, ao longo de oito edições (a primeira se deu em 1974), permitiu ao público nacional tomar contato com a obra de encenadores do porte de Bob Wilson, Andrei Serban e Jerzy Grotowski.
Depois da terceira edição do festival, em 1981, candidatou-se a deputada estadual e foi eleita duas vezes (1983 e 1987). Acabou expulsa do seu partido, o PMDB, ao apoiar, em 1986, a candidatura do empresário Antonio Ermírio de Moraes ao governo do Estado pelo PTB.
A edição seguinte de seu festival ocorreria, de forma bem mais modesta, somente em 1994, sob o nome de Festival Internacional de Artes Cênicas, que seria produzido até 1999. No início dos anos 2000, recebeu o diagnóstico de que tinha o mal de Alzheimer. Aos poucos a atriz, cinco casamentos e mãe de cinco filhos, começou a se distanciar dos palcos e da vida pública. Ainda teve tempo de lançar, em maio de 2001, um dos seus espetáculos mais controversos, o musical "Os Lusíadas", superprodução de R$ 2 milhões inspirada na obra do poeta português Luís de Camões.
Ruth brigou com o diretor e o figurinista, foi aos jornais criticar a encenação que antes endossara, tirou a peça de cartaz para, em outubro do mesmo ano, trazê-la novamente aos palcos, com nova direção e equipe técnica. A melhor tradução do empreendedorismo e das controvérsias de Ruth talvez seja expressa pela canção "Essa Vida é um Mafuá", composta para ela pelo jornalista e ator Oswaldo Mendes. Ruth interpretou a canção, com conhecimento de causa ímpar, na peça "Revista do Henfil", de 1978.
