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Somos destruidores e autodestrutivos

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Ao mesmo tempo em que somos criativos, também somos destruidores do que encontramos feito, do que construímos e de nós mesmos. Somos destruidores e autodestrutivos, tanto sob o aspecto material quanto moral. De muitas formas, destruímos matas, rios, espécies animais, centros das cidades grandes, obras de arte, como destruímos vidas humanas, reputação e a nós mesmos quando nos perdemos pela ambição ou pelo vício.

O homem primitivo, o Homo Sapiens, povoou a Terra saindo da África oriental, primeiro para a Ásia, onde caminhou até atingir a Austrália, há 45 mil anos, e depois para o resto do mundo. Como já dominavam o fogo e eram capazes de construir algumas ferramentas e armas, na Austrália incendiaram matas e exterminaram animais. Nossa capacidade destrutiva, portanto, vem de longe.

No início de 1800, o naturalista Alexander Von Humboldt esteve na Venezuela, Colômbia, Equador e Peru. No lago de Valência, região produtiva da Venezuela, colonos espanhóis disseram que as águas do lago estavam diminuindo. Humboldt fez medições, que confirmaram, e explicou que o motivo era o desmatamento, que deixava as encostas nuas e a água das chuvas, em vez de penetrar escorria levando a terra para o lago.

Foi o primeiro alerta histórico sobre os efeitos do desmatamento, que ao longo de milênios vem desvestindo o Planeta. Por ser muito grande e ter um crescimento lento, o Brasil ainda tem a maior área vestida do mundo, apesar de ter perdido grande parte da mata atlântica.

Derrubada para extração de madeira, criação de gado e para extensas lavouras de soja, a floresta amazônica vai sendo destruída e seus rios poluídos pela mineração.

No Equador, Humboldt escalou o Chimborazo, até então o pico mais alto da Terra, com 6.267 m e nunca escalado. Chegou a 5.917 m, apenas 350 m do topo. Partindo do sopé ele foi medindo a altura e estudando a vegetação e a fauna e notando como elas mudavam. Segundo ele, era como se tivesse feito uma jornada botânica do Equador em direção ao polo.

A gama de grupos de plantas variava das espécies tropicais, vales a baixo, aos liquens que ele havia encontrado junto da linha da neve. Ele viu diante de si toda a natureza exposta. Dessa experiência, ele esboçou uma teoria a que deu o nome de "Naturmagälde", palavra alemã sem tradução, mas com o sentido de que a "natureza é um todo vivo, que deve ser compreendida de um ponto de vista superior. A vida está em toda parte, os poderes orgânicos estão incessantemente em ação e os fenômenos individuais são importantes quando vistos em relação com o todo."

O Prêmio Nobel de Física deste ano foi para três cientistas que conseguiram detectar sinais, na forma de ondas gravitacionais, oriundos da formação de uma galáxia há 1 bilhão e 300 milhões de anos, que chegaram até nós. É mais uma evidência de que o Universo é um sistema e que tudo o que existe nele está interligado. Galáxias, estrelas, planetas, satélites, asteroides são subsistemas.

Pelo conceito de Humboldt, podemos entender a natureza como o subsistema da Terra que reúne todas as condições necessárias à vida. E assim, de forma indireta, quando poluímos o ar e os rios, devastamos as matas e extinguimos animais estamos autodestruindo-nos, porque estamos piorando ou eliminando coisas essenciais à nossa vida.

De forma direta ou individual, a autodestruição pode vir de vícios, como acontece com os drogados, ou da ambição desmedida, como os corruptos pegos pela operação Lava Jato, que destruíram a sua reputação. Seja na cracolândia ou na cadeia são autodestruídos, diferindo apenas na natureza da destruição, dependência química ou perda do respeito social.

De forma indireta ou coletiva, pode vir do comportamento de grupos sociais organizados, instituídos, como parlamentos, cortes judiciais, administração pública, sociedades civis etc., que se desmoralizam pela predominância dos interesses individuais com prejuízo para a comunidade.

Veja a situação a que chegou o nosso país, muito bem retratada pelo Estado do Rio de Janeiro, não é de autodestruição? Felizmente o sistema social tem a capacidade de regeneração e, embora com muita gente sendo sacrificada, vamos sobreviver.

 

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