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Arte contemporânea: bazar de variedades?

Janira Fainer Bastos
| Tempo de leitura: 3 min

Se Leonardo de Vinci fosse vivo, diria: que a arte revela o indizível e traduz o intraduzível, ou seja, arte é o sublime, enquanto que, para um artista surrealista, a arte é um produto farmacêutico para imbecis. Essas ideias estão relacionadas à enxurrada de comentários relacionados à performance La Bête, de Wagner Schwartz, exibida pelo Museu de Ate Moderna, de São Paulo. Se eu disser que o sujeito é uma besta, a maioria dos leitores vai concordar comigo.

Não que a figura nua não tenha acompanhado o desenvolvimento artístico dos tempos pré-históricos aos dias atuais. Mas, para ser elegante, vou usar um termo bem contemporâneo: citação. Ele está fazendo isso duplamente. Primeiro, repetindo uma performance recente realizada no Rio Grande do Sul, que gerou protestos e colocou o Santander em apuros, e agora dizendo-se um dos bichos de Ligia Clark. Ao ler os primeiros comentários percebi que o bicho ia pegar, sem trocadilho...

Para os que desconhecem o assunto: modernidade acompanha a idade moderna tendo início, em 1493, com a queda de Constantinopla, e seu termino, em 1945, quando tem início a pós modernidade.

Os artistas ditos contemporâneos têm como pressuposto que o sentimento estético é inerente à maioria dos homens, independentemente de seu nível de desenvolvimento intelectual, ou seja, a beleza está no olhar do espectador.

O engraçado em tudo isso é que quando o observador aprova o objeto exposto ele é sensível, inteligente, mas se por acaso reage de outra maneira, ele é considerado conservador. Acredito ser o caso. O bailarino mineiro que estudou teatro infantil e se apresentou pelado na frente do público paulistano esqueceu a máxima do momento: o belo está no olhar e entendimento dos espectadores. E parece-me que eles não gostaram do que viram. Arte ou pornografia? Não sei...

A performance do moço foi uma ação cultural? Ação é um processo claro, mas sem fim especifico. Então, acredito que seja uma "fabricação" com ampla repercussão e um fim não confessado. Quer que eu seja explícita como ele e seu nudismo? Em linguagem popular, seria marketing, estratégia para difundir uma empresa, um serviço ou qualquer coisa... Um sujeito sem talento necessitando sair do anonimato tira a roupa deita-se no chão de um museu e envolve crianças na brincadeira, tudo aprovado pelo conselho do conhecido museu!

Algo me deixa surpresa: artistas talentosos dizendo que arte não pode sofrer censura. Eu digo o mesmo relembrando para vocês a atitude de um papa que abriu a capela Sistina em 1512, com o teto coberto de figuras nuas pintadas por Michelangelo, e na ocasião não sofreu nenhuma censura. Anos depois foram veladas!

Mas dizer que um homem despido deitado no chão de um museu é arte dá o que pensar. Sei que a arte contemporânea prioriza a ideia, o conceito, a atitude, porque a função é produzir arte e discutir sobre ela.

Parece-me que o objetivo foi conseguido, muitos estão refletindo sobre o acontecimento, até o Ministério Público. De acordo com os entendidos, a contemporaneidade está rompendo com paradigmas antiquados trazendo novas experiencias, valores originais para a constituição de uma mentalidade mais atual.

Parece-me que, finalmente, a arte aportou na famosa definição do Conde de Lautreamont: "É bela como o encontro de uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de dissecar cadáveres". A população intelectualmente honesta está se perguntando que valores são esses, e se não está na hora de estabelecer qualidade para essa produção artística sem padrão estético feita somente para chocar!

A autora é doutora em Estética e História da Arte pela ECA/USP.

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