Quando Deus criou o mundo, sentiu necessidade de criar o homem para dar nome às coisas criadas, aos bichos da terra, às aves do céu e aos animais das águas.
O poeta é esse primeiro homem ou primeira mulher nomeando tudo que existe e, como quem nomeia dá vida, dando vida a todas as coisas que existem.
Saint-John Perse, Prêmio Nobel de Literatura, escreveu um livro de belíssimos poemas chamado Images à Crusoé. Foi suficiente imaginar Robinson Crusoé perdido na sua ilha. Como sobreviver? Era preciso reinventar a vida. E Crusoé reinventou todos os objetos, todos os animais.
Até um companheiro, Sexta-Feira, ele reinventou. Robinson Crusoé nem sabia que era um poeta criando o seu mundo.
Olynda Bassan, quando se descobriu poeta, tornou-se a primeira mulher dando nome ao que existe, dando existência às coisas do mundo. Olynda descobriu que podia criar a vida, e que isso é bom. E também terrível. É uma responsabilidade enorme.
Olynda sentou-se à beira do caminho, olhou e ouviu a música e o silêncio da vida. Fez as contas: este mundo é meu. Tenho que administrá-lo bem. Tudo que a vida lhe ofereceu. Tudo que construiu. Os filhos, os netos, os brinquedos - aquela boneca de pano que a guerra destruiu e que ela recriou em sua poesia. Porque Olynda não olha apenas para o próprio umbigo, mas para o mundo todo. Vê o sofrimento dos refugiados e o denuncia no seu poema. "O rio secou. / Enterrado está o doce azul. / O peixe está morto." A poeta sofre com a sua criação.
O poeta sente nostalgia de tudo o que teve e do que não teve A poesia é isso. É preciso recriar as coisas da vida. É preciso subir ao monte para orar e sofrer. Buscar-se e nunca se encontrar. Viver o silêncio e o deserto. O poeta precisa sofrer para criar. E o poeta, com toda sua humanidade, sofre. Não há criação sem dor. A poeta Olynda também sofreu. A sua poesia não vem do vazio. Por isso diz: "penetra em meus silêncios, estatela minha solidão."
Jorge Luis Borges, um dos maiores escritores do século 20, gostava de lembrar que Homero dizia na Odisseia: "os deuses inventaram o sofrimento para que os poetas pudessem cantar." Eu lembro Millôr Fernandes, o Velho, ícone do humor brasileiro e grande divulgador da poesia, me batendo no ombro, como para me consolar de eu ter ganhado um prêmio literário, dizendo: "Poeta tem que sofrer."
A poeta Olynda mergulhou no silêncio e na noite e agora nos estende as mãos: minhas pérolas. As pérolas nascem do sofrimento. São belas e são raras. Olynda nos oferece as suas pérolas. São João da Cruz atravessou as trevas da sua noite escura para chegar à iluminação de Deus.
São João da Cruz era santo e poeta. Olynda é apenas poeta, tem apenas as palavras para iluminar a noite da nossa existência. Mas manuseia-as, trabalha com as palavras para que funcionem. Este é o resultado do seu trabalho.
Não lhe desejo sucesso: ela já o teve. Criou a sua poesia. Criou o seu mundo. Parabéns, Olynda.