Benditas sejam nossas caixas. Elas têm paredes que nos protegem. Benditas, nossas gavetas. Nelas guardamos, bem dobradas, as roupas que melhor nos vestem. Louvadas, as nossas estantes. Nelas, os livros comprados a dedo. Eles falam a nossa língua e afagam a nossa cabeça. Coisas fechadas nos tranquilizam, são mansas, amigas.
Tudo estaria perfeito não houvesse outras caixas, as que aos outros pertencem. Nelas, moram pensamentos que nos assustam, ofendem-nos e até nos ameaçam. Como ousam pensar o que não pensamos? Como não conseguem enxergar o que vemos com tanta luz e certeza? Por que essa asinina teimosia de fazer caber o incabível?
Grande parte dos males e dos sofrimentos do nosso tempo decorre desse insano conflito. Mal damos conta de ordenar a nossa, já nos metemos na caixa alheia. Caixa racista, sexista, classista, religiosa, política, machista... Caixas fechadas emburrecem. Estantes de livros de verdade única mentem. Gavetas de uma roupa só empobrecem.
Estamos perigosamente nos fechando, quando deveríamos nos abrir. Estamos perigosamente nos agredindo quando deveríamos nos entender. Estamos vivendo entre caixas de ódio. Não dialogam. Xingam, ferem e até matam.
A intolerância tanto fez que acabou chegando ao museu. Um homem nu em performance artística, apalpapado pelo público. Proposta aberta e interativa. Um detalhe explosivo, uma criança participa da cena. Outro detalhe, a criança está com a mãe, também participante.
Pensando na necessária preservação da criança, muitos discordaram do comportamento da mãe, outros, contudo, respeitaram-lhe a decisão. Pelo que se observa das cenas gravadas, a performance transcorreu com naturalidade Fora do museu, a coisa foi bem diferente.
A caixa do ódio foi raivosamente aberta. Mais uma vez, cuspiu os piores adjetivos. "Mil vezes canalhas" espumou o presidenciável Bolsonaro. "Destruidores da família" sentenciou o pastor deputado Marcos Feliciano. "Pedófilos," acusou o Movimento Brasil Livre (MBL). "Libidinagem", disse o Dória. "Direitos humanos é um porrete de pau de guatambu, que nós usamos, muitos anos, em delegacia. Se aquele vagabundo fosse fazer a exposição lá em Goiás, ele levaria uma taca tamanha que nunca mais ia tomar banho pelado."
O dono dessa preciosidade, o deputado Laerte Bessa (PR -DF).
Em Porto Alegre, o Santander simplesmente cancelou uma exposição que até então patrocinava, a Queermuseu. Exibindo obras de artistas consagrados, a exposição teve as suas portas fechadas por pressão das redes sociais. Algumas obras estariam, na visão dos incomodados, promovendo blasfêmia religiosa e apologia à pedofilia e à zoofilia.
Em Jundiaí, um juiz cancelou apresentação de peça teatral em que uma atriz transgênero recorre à imagem de Jesus para propor reflexão sobre a intolerância que se despeja contra minorias marginalizadas. Em Porto Alegre, outro juiz, pensando em caixa diferente, negou a um advogado o pedido de proibição da mesma peça. "Censurar arte é censurar pensamento e censurar pensamento é impedir o desenvolvimento humano", justificou o juiz.
Reconheçamos desde já o livre direito de opinião de todas as caixas. Ser contra ou a favor faz parte do jogo democrático. Bom e salutar é que as caixas sejam diferentes. Bom e desejável é que as caixas se abram, civilizadamente, para dizer umas às outras o que pensam.
Melhor ainda seria que a pessoa, não gostando do conteúdo, a tal teatro ou exposição não fosse, mas não exigisse o fechamento das portas àqueles que, pensando diferente, gostariam de ir.
O que incomoda nisso tudo não é a defesa de uma ou de outra visão. Bendita, repetimos, seja a pluralidade das caixas. Inaceitável é esse perigoso discurso do ódio, tão vizinho da violência, caixa de adjetivos incendiários. Estamos confundindo pensar com xingar.
Ouvidos intolerantes nada sabem ouvir senão a voz da própria cabeça. Bocas intolerantes, num processo de uma voz só, outra coisa não desejam senão a sentença fatal. Com o pensamento diferente, argumentam, não se conversa, agride-se, mata-se.
O autor é professor de redação e membro da Acade mia Bauruense de Letras – curso_romag@uol.com.br