Enquanto nossos representantes republicanos consomem os recursos dos pesados impostos, que suadamente recolhemos, em conchavos para se safarem da justiça, pelos crimes que cometeram, com discursos balofos, por horas intermináveis, algo vai acontecendo que indica rumos desconhecidos para o futuro do nosso país. Ninguém ignora, nem mesmo eles, que o nosso ensino público, que deveria ser bom e único para todos os brasileiros, como já foi, independente de sua origem social, está fragilizado e comprometendo o futuro das novas gerações da camada mais numerosa, e de menor recurso, da população. A desigualdade econômica, resultado dessa insuficiência educacional, forma estratos sociais ou camadas da população que não podem gozar, na plenitude, dos direitos garantidos pela Constituição.
Enquanto nossos representantes republicanos usam o poder que lhes outorgamos, a um custo muito alto, para não serem presos, o Brasil vai retomando a sua vida, apesar deles. Outro seria o nosso país se o tempo gasto por toda essa verborreia fosse ocupado no desempenho da função para a qual foram eleitos e se tivessem o mínimo de dignidade para honrar o juramento que fizeram. Sair do estrago causado pelo governo lulopetista já exigia um esforço enorme e pior ficou com a substituição do necessário trabalho reconstrutivo pela ação destrutiva da briga política. Nem pejo eles têm, agora que a televisão os mostra em tempo real para a população, de discursar proclamando inocência de crimes cuja evidência salta aos olhos, como alguém carregando ou guardando malas de dinheiro vivo.
O Brasil, entretanto e apesar deles, vai se reconstruindo, mas é aí que surgem as preocupações. A economia já dá mostra de reversão da curva, com resultados positivos na produção, na diminuição do desemprego, nas vendas do comércio, mas é apenas de reinício de crescimento e não de desenvolvimento, que é diferente. A única área em que tem havido desenvolvimento é a da agropecuária. A indústria perdeu o impulso desenvolvimentista iniciado na década de 1960. Hoje seu papel é de pouco mais que supridora da indústria estrangeira e após esta última crise passará a reutilizar o equipamento ocioso para voltar a crescer. Para se desenvolver necessita de uma verdadeira revolução na educação, sem a qual não haverá desenvolvimento.
Com o descaso a que o ensino público foi relegado, o ensino particular foi ocupando espaço. Isso foi bom no sentido de não deixar o Brasil mais baixo do que está na classificação geral das nações, mas não é bom porque acaba contribuindo para o aumento da desigualdade socioeconômica. Como as escolas particulares podem oferecer melhores condições de ensino, mais informatização e projetos pedagógicos mais atraentes, os que querem preparar melhor seus filhos estão dispostos a fazer sacrifícios para matricula-los na escola privada. Essa situação cria níveis crescentes de escolarização, em detrimento dos menos favorecidos e possibilita o ingresso nas melhores universidades, quase que somente dos possuidores de mais recursos.
O que causa mais preocupação é que enquanto o governo é lento e reativo, as mudanças tecnológicas são cada vez mais rápidas e só o ensino privado consegue acompanhá-las, o que vem aguçando a iniciativa dos empreendedores do ensino, que depois de focar o ensino superior, agora se voltam para o ensino básico, dever do Estado para o desenvolvimento de uma nação mais igualitária e mais justa. Um exemplo está na inauguração no próximo ano, em São Paulo, da escola americana "Avenues", cujo anúncio feito em 2015, "causou frisson no hi-society paulistano, com uma apresentação tipo top, feita para um grupo de mulheres e mães poderosas, em um almoço no Museu de Arte Moderna de São Paulo", conforme notícia da época.
Notícias da próxima inauguração dizem ser "Uma escola onde alunos de 5 anos são fluentes em inglês e mandarim, aprendem a mexer em impressora 3D e comem lagosta orgânica no refeitório; no ensino fundamental aprendem matemática pelo método de Cingapura; no ensino médio constroem casas de selvas com painel de energia solar e estudam religiões do mundo. Ao final entram em universidades como Harvard, Yale e Stanford".
O câmpus fica no bairro Cidade Jardim, em uma área de 40.000 m², planejado com recursos educacionais de última geração. Com um custo anual previsto de R$ 150.000,00, nos 15 anos da educação infantil ao ensino médio, no valor de hoje serão gastos R$ 2,25 milhões para dar a educação básica a um filho. Os futuros formados por ela e similares serão os formadores do estrato superior da população brasileira. E os formados pela escola pública, onde ficarão? Se não conseguirmos mudar essa situação, porque fiamos discutindo como evitar a prisão, qual será o futuro do nosso país?
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.