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Livros através do tempo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

"Escrever para quê? Para quem? Não temos público. Uma edição de 2 mil exemplares leva anos para esgotar-se, e o nosso pensamento, por mais original e ousado que seja, jamais se livrará no espaço amplo". Este desabafo não é de um escritor iniciante, diante da escassez de leitores, ou o brado de algum escritor saudosista do formato do livro impresso, em tempos de difusão de outros suportes de leitura. Quem chamava a atenção para a falta de um público leitor era o romancista brasileiro Aluísio Azevedo, no final do século 19.

O escritor tinha razão em sentir-se frustrado. A leitura era rarefeita. O primeiro recenseamento do Império (1872) revelava que 84% da população era analfabeta. O curioso é que o autor de O Cortiço era o único escritor que ganhava o pão com seus escritos, embora ressaltasse que as letras, no Brasil, ainda não davam para a manteiga. Na mesma época, Machado de Assis, que também sofria com a tímida repercussão de seu Memórias Póstumas, foi aconselhado por um cunhado a não desanimar. Mais cedo ou mais tarde haveria de ser reconhecido. As estatísticas atuais demonstram que deixamos de ser um país ágrafo. Só temos que melhorar "um bocado", expressão usada para significar "muito" e "pouco" - um dos segredos da língua portuguesa. De fato, 16 milhões de brasileiros não conseguem escrever um bilhete e 33 milhões são incapazes de interpretar o conteúdo de textos lidos.

Quem gosta de ler continua procurando bons textos, nos meios eletrônicos e impressos. O livro não vai acabar. Só há livros de mais e leitores de menos. É outra história. O livro digital estabilizou-se em 20% na Europa e nos EUA. No Brasil não vai muito além de 1%. É só mais um canal de leitura. "Livro não enguiça" (Millôr). O livro de papel tem 5 mil anos de história. É tão essencial quanto o martelo ou mesmo a roda. Os números impressionam: no mundo são 2 bilhões de títulos. Um novo livro a cada 15 segundos. 4 bilhões de exemplares anuais. Uma festa de recicláveis.

Aqui mesmo, em Bauru, é difícil a semana sem que o JC anuncie um novo título na praça, de autores iniciantes ou recalcitrantes. Na maioria, são independentes, pagam suas próprias edições e depois vendem ou distribuem exemplares para os amigos. O importante é que puseram para fora o recado que tinham a dar. Fizeram um exercício intelectual. Nenhum livro é tão ruim que não passe algo aproveitável para o leitor. Em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, silenciada, organizada e redistribuída por certos números de procedimentos. Visam o mercado. O escopo é a venda, principalmente. Autores de best-sellers trabalham com centenas de colaboradores pesquisando erudições, frases espirituosas, "estranhamentos" e "maravilhamentos". As estruturas do romance moderno seguem as dos roteiros cinematográficos com pontos estudados de preparação, clímax, suspense, desenlace e gags, que são os elementos surpresa. Hemingway e Faulkner trabalhavam para Hollywood só fazendo isso, antes de se tornarem famosos. Pelo menos, nos autores ingênuos, estamos livres dessa produção industrial.

A questão é que a nossa média de leitura ainda é de 1,3 livros por ano, contando-se os didáticos escolares. É um dos mais baixos índices per capita do mundo dito civilizado. O Ministério da Cultura precisa estabelecer políticas para a formação de pessoas como mediadoras de leitura. Mês passado vimos a campanha de um banco, calcada no slogan: "Leia livro para uma criança". Cada vez que partilhamos uma leitura, dividimos emoções com outras crianças, além daquela que existe em nós.

Outra alternativa de estímulo à leitura estaria na produção de custo mais acessível. Algumas vendagens de literatura de cordel, comuns nas feiras livres do Nordeste, chegaram a atingir a marca de 200 mil exemplares, como A morte de Getúlio. Gabriela, de Jorge Amado, vendeu 20 mil exemplares em sua primeira edição. O cordel tem textos rimados, de fácil compreensão, sobre mitologias rurais e urbanas. São ilustrados com xilogravuras, desenhos entalhados em madeira, técnica inventada pelos chineses há milhares de anos.

Hoje, o texto linear e canônico pode conviver com formas simultâneas de integração entre imagem e oralidade, transformando a percepção dos signos em leitura. Isso não significa que os livros, em seu formato tradicional, tenham de ser abandonados, mas implica pensar, lembrando Camões, que: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" - quem sabe, também, os suportes.

 

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