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'Modelo humano está corrompido', diz Viviane Mosé

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 8 min

Aceituno Jr.
Mosé: pessoas estão agarradas a meia dúzia de 'verdades'

A sociedade rompeu com todos os modelos de repressão, a escola continua ensinando em linha enquanto o mundo está em rede e a intolerância expressa a angústia de não sabermos lidar com a incerteza. Em outra conexão, a intolerância se exacerba, enquanto a plataforma de comunicação tecnológica aberta ao mundo pela Internet mostra nosso delicado estado de rompimento com limites de toda sorte. Ou seriam comportamentos que refletem nada mais do que um ataque por medo e pela insegurança vivida por uma era de bombardeio de meia dúzia de verdades na rede? A leitura social, psicanalítica em boa dose e também filosófica é de Viviane Mosé, doutora em filosofia (UFRJ), especialista em políticas públicas (UFES), poeta e psicanalista.

Ela esteve em Bauru para proferir palestra na Semana de Educação, no Sesc. Com mais de 20 anos de vivência psicanalítica em consultório, comunicadora da leitura da sociedade por meio da filosofia, em rádio e televisão, e autora de vários livros, Mosé conversou com o JC sobre o modelo humano, em uma fase onde a automutilação e o suicídio ganham estatísticas alarmantes:

Jornal da Cidade - Você aborda o sofrimento como um processo de maturação. É uma provocação, no bom sentido, à maneira como a psicanálise trata o sofrimento?

Viviane Mosé - Na verdade eu venho da filosofia, não venho da psicanálise. Sou psicanalista de 20 anos de consultório e ela está marcada muito por um momento histórico determinado. A psicanálise faz uma leitura do humano que é maravilhosa e que usei a vida inteira. É a leitura do Freud a respeito do humano. E que eu gosto muito. Mas aquilo está marcado historicamente. E não somos mais o mesmo humano. Isso é minha tese. E ai é minha provocação à psicanálise. Mas é uma provocação de amor. Me sinto na obrigação de tentar ler o contemporâneo, dada a dificuldade que vivemos hoje. E o modelo humano que nós temos hoje não é neurótico. Nós não somos mais neuróticos. Nós somos perversos, psicóticos. Neurótico é o que menos nós somos.

JC - O que nós somos então?

Mosé - Estou falando como humanidade. Nós somos terroristas, temos homicídio em altíssimo grau, nós nos automutilamos muito e somos extremamente violentos. Houve um rompimento do psiquismo e do modelo psicanalítico. Isso é um fato que não há como discutir. Então, quando digo que a psicanálise não lida bem com o sofrimento é porque, quando o Freud trabalha a ideia de que somos neuróticos, ele trabalha a ideia de que nós somos cortados por um 'não' e esse 'não' nos limita. E nós passamos a vida inteira sofrendo porque não somos mais a totalidade. Somos um limite. Então, eternamente somos neuróticos porque queremos uma totalidade que não mais existe, segundo essa leitura. E eu não uso mais essa leitura. Acho que somos não falta, mas somos feito de excessos. Somos excessivos e temos que diminuir para lidar com a vida.

JC - Então Freud tinha razão sobre esse modelo da falta, mas em seu tempo?

Mosé - Ele tinha razão do modelo da falta na época em que pensou isso, elaborou. Era sim o modelo do homem da época dele, da repressão religiosa e da repressão política que representavam a sociedade. Nós rompemos com todas essas repressões. E rompemos tanto que hoje nós não temos limite. Há uma ausência de limite. É outro humano. Infelizmente, o modelo psicanalítico não está dando conta do que a gente está vivendo. Mas como a psicanálise é grandiosa, ela tem condições de se reinventar rapidamente para ler esse processo e se reconstruir. O que me incomoda é os psicanalistas reagirem que eu não tenho o direito de falar aquilo. Quem é que tem o direito, afinal? É uma mudança de ser humano, de mundo, de sociedade, que a gente tem de enfrentar. Estamos vivendo um caos civilizatório que exige uma nova leitura em razão da mudança de modelo.

JC - Como fica nossa identidade como País diante de um modelo social em fragmentos?

Mosé - Pensar o Brasil é quase um enigma. Vivemos uma situação tão esgarçada, as instituições exauridas em tal grau, que não é tão simples imaginar de onde isso tudo vem. Costumo pensar que o problema do Brasil é igual, por um prisma, ao do mundo. Tinha um modelo para tudo no século XIX. Tudo tinha lugar. Mulher era mulher, criança era criança, havia conceitos de menores respeitarem os pais. Mas era algo que funcionava de uma maneira excludente. Era uma pirâmide. Os homens brancos ocidentais tinham algum valor. O restante nada. Mas tinha lugar para todos. O século XX inteiro passou rompendo essas questões. As mulheres com direitos, os operários com proteções etc. Mas chegamos ao final desse processo e entramos no século XXI com enorme desenvolvimento tecnológico, mas com muito pouca formação humana. E passamos de um momento em que a sociedade saiu de um modelo piramidal para uma rede. Onde você tem todo mundo se relacionando horizontalmente. A Internet permitiu encontros inéditos, incríveis e que não podiam acontecer. Mas, infelizmente, quem melhor usa a Internet é o crime organizado é o terrorismo. E há coisas acontecendo que desestruturam o mundo.

JC - Como assim?

Mosé - Você não sabe mais o que é um pai, o que é uma mãe, se a pessoa é bonita, rica, pobre, se a criança é uma criança. Há tantos extremos que com 10 anos uma criança youtuber sustenta uma família, apenas como exemplo de episódios atípicos. Isso é o mundo. O mundo se desfez. E como o mundo se desfez, as verdades se mexeram. E nossa base de verdade sempre foi muito frágil. O Brasil começou em 1822, praticamente. O Brasil é muito recente nesse processo. Veja um exemplo: apenas em 1932 o Anísio Teixeira chama por um sistema. Porque não existia um sistema educacional. Tinham escolas, até universidades, mas não sistema educacional. Nossa democracia é bebê. É um processo muito recente. Um País com tamanha fragilidade em sua concepção vê ventos fortes de transformação social arrebentarem suas relações. Isso está acontecendo conosco.

JC - Além da tempestade sobre o modelo humano, em especial, os pais estão distantes do papel de construção ética e de afetividade dos filhos?

Mosé - Vou falar aqui em Bauru para educadores. A escola não pode e não é seu papel construir ou recompor esse modelo de desestruturação da ética e da afetividade. Isso é do ambiente familiar. E como a família já se desfez com a mudança do modelo civilizatório de que estamos falando, não tem ninguém com essa criança em casa, ninguém. Os pais trabalham de dia e estudam a noite. Ou chegam muito tarde e elas estão dormindo. Eles veem seus filhos no final de semana. O maior problema do professor é receber crianças cuja afetividade é desfeita em casa. O mínimo para recompor isso é os pais levarem para a escola uma criança minimamente composta. Elas estão desintegradas e a escola não tem como cumprir essa missão. E a escola continua ensinando em linha enquanto a gente vive em rede. É preciso repensar a relação familiar para a cidade mudar. Mas a gente vai ajeitar e, hoje, o caminho é formar rede com o porteiro, o vizinho, o pai do amigo, dividindo e formando grupos para resolver aos poucos esses impasses de tempo e de acompanhamento dos filhos.

JC - Qual sua leitura sobre a intolerância, a ideia de 'nem quero ouvir o outro' e excluo ou bato logo de cara se me deparo com pensamento diferente do meu?

Mosé - Sabe quando a pessoa é muito fraca fisicamente, não te músculo. Quando essa pessoa acha que alguém pode agredi-la ela agride antes. É antecipar com agressão por medo. É mais ou menos isso que acontece hoje. A gente tinha lugares estabelecidos em outros períodos históricos. Era só pegar a Bíblia na Idade Média, os manuais de educação que havia no século XX. O que quero dizer é que nós tínhamos os lugares definidos, com defeitos ou não. Mas a rede, o mundo tecnológico, arrebentou esses lugares. Não há mais fronteiras. E aposto que ainda teremos muito mais redes sociais diferentes dessa de hoje. Muitos formatos de redes sociais ainda vão acontecer. A Internet criou vínculos que não existiam. E aí, cada um de nós não tem mais nenhuma verdade. E você se vê diante de um infinito de informação. E as pessoas estão tão apavoradas com o excesso de informação que existe no mundo aberto da rede que cada um quer agarrar a meia dúzia de certeza que está com medo de se perder. A intolerância é produto da ausência de futuro. Então, estão todos atônitos pela ausência de mundo.

JC - E a intolerância e a rigidez de comportamentos?

Mosé - A que ponto chegamos? Vivemos um momento delicadíssimo onde os limites se romperam. E as pessoas estão cada vez mais rígidas e intolerantes, mesmo que seja para defender meia dúzia de verdades. É isso que tem que acabar. O modelo humano se corrompeu, estamos bombardeados de informação em rede e como não sabemos lidar com a incerteza, isso nos angustia e aprofunda a intolerância. E estão aí os dados humanos: a automedicação triplicou, o homicídio também e a automutilação é a segunda razão de busca na Internet. Tudo se esfacelou. E a gente precisa reconstruir. Mas isso já está se reconstruindo, com outro mundo acontecendo. Um exemplo: a elite jovem de hoje não acha mais que o dinheiro é tudo, como seus pais. E acham que ao invés de acumular o dinheiro da família eles precisam investir em viver melhor, com qualidade, agora. E a maioria das elites tem dificuldade em lidar com isso. Os filhos da nova elite têm vergonha do dinheiro dos pais usado só para acumular.

 

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