| Samantha Ciuffa |
![]() |
| O JC recebe reclamações toda a semana de leitores que entendem ter a conta majorada por conta da leitura de ar |
Um velho problema que mexe com o bolso da população e ainda segue sem solução em Bauru voltou a ser alvo de muitas reclamações. Em um momento de crise econômica, pagar até pelo ar que passa pelo hidrômetro tem irritado muitos bauruenses. O próprio DAE confirma que, quanto mais tempo durar as manutenções na rede de abastecimento, mais o ar corre livre pelos canos chegando ao aparelho de registro do consumo de água.
Uma das regiões mais populosas da cidade, o Jardim Bela Vista é o bairro que mais sofre com a situação, principalmente para quem reside nas partes mais altas. Porém, a autarquia pondera que seria preciso realizar manutenções constantes para que houvesse impacto na conta. Mas como é antiga, a rede demanda consertos constantes, conforme o JC tem divulgado.
A reportagem recebe reclamações toda a semana de leitores que entendem ter a conta majorada por conta da leitura de ar. As queixas, porém, aumentaram na semana passada. O técnico de edificações Renato Afonso Crepaldi, 55 anos, mora com a esposa no Jardim América, mas garante que a "água fantasma" corre no encanamento de sua residência.
"Há pouco mais de um ano, o DAE disse que eu precisava trocar o hidrômetro. A partir daí, o meu consumo disparou. No mês passado, reclamei e me foi dito que havia vazamento. Gastei com encanador e comprovei que o diagnóstico não procedia. Conversando com um amigo engenheiro, descobri que poderia ser passagem de ar pela tubulação", conta.
Renato disse que, a partir de então, passou a fechar o hidrômetro todas as noites, das 19h às 8h do outro dia. "Em 15 dias, o consumo caiu 30%. Acredito que o percentual mensal registre queda de mais de 60%", estima ele, que não chegou a acionar a autarquia para solicitar uma avaliação na sua rede.
SEM DISTINÇÃO
Professora de saneamento básico do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Espírito Santo, Edumar Ramos Cabral Coelho reforça: "hidrômetro não distingue se é ar ou se é água que está passando". Ela atribui a causa do problema que altera o consumo final às redes inadequadas. "Deve-se solicitar a solução para a concessionária", afirma.
"Normalmente é ar na tubulação da rede que chega na casa, faz uma derivação e acaba sendo medido pelo hidrômetro. Ventosas colocadas em pontos estratégicos na rede podem barrar esse ar", explica, ressaltando que uma pesquisa apontou aumento médio mensal de até 30% na conta do cliente.
MICROMEDIÇÃO
Existem medidores mais modernos no mercado e com capacidade de medir apenas o volume de água, descartando o ar. Entretanto, além de serem mais caros (em torno de R$ 700,00), a maior parte dos hidrômetros instalados atualmente é ultrapassada, destaca o professor de recursos hídricos Jefferson Nascimento de Oliveira, que atua no laboratório de Hidrologia e Hidrometria da Unesp de Ilha Solteira.
"Por meio da micromedição, não com hidrômetros convencionais, mas com hidrômetros que usam efeito duplo, é possível medir apenas a vazão da água, mesmo tendo ar na rede. Também podem ser usadas medições não presenciais, por rádio através de uma central especializada. Isso está sendo testado em Guarulhos", exemplifica.
Por várias razões, DAE reavalia 667 contas
Somente neste ano, o DAE registrou 667 processos de análise de contas. A autarquia pondera que são os mais diferentes motivos alegados. Diretor da Divisão de Produção e Reservação da autarquia, Heber Soares Vieira detalha, contudo, que as reclamações por ar na rede ocorrem mais no Jardim Bela Vista. De acordo com ele, nas demais regiões são casos esporádicos.
Vieira disse não ser possível estimar o percentual de reclamações envolvendo leitura de ar por hidrômetros do total de queixas que resultam em reavaliação de contas.
"A distribuição no Bela Vista não é setorizada e ocorre por setores elevados. Isso compromete um pouco e, por isso, é necessário fazer mais manutenções. Entretanto, só há desligamento da rede quando o serviço se estende por um período longo. Mesmo assim, precisaria ter manutenções desse tipo com mais frequência para impactar no consumo", reitera.
Informa ainda que a setorização do abastecimento do Jardim Bela Vista começa nesta semana. A instalação de rede independente no Bela Vista, com diâmetros adequados de tubulação diante do consumo demandado pelos moradores do bairro, garantirá o fornecimento de água de forma separada em cinco setores.
Quando estiver tudo pronto e houver um problema, o bairro todo não sofrerá, mas apenas uma região específica. As outras quatro receberão água normalmente. Atualmente, dependendo da manutenção a ser feita, cerca de 24 mil habitantes de 18 bairros ficam sem água.
QUEIXAS
Sobre a reclamação de ar no hidrômetro do morador do Jardim América, Heber explica que equipamentos antigos não mediam corretamente. "Eles sofrem desgaste com o tempo, resultando em uma submedição. O DAE perdia com isso. Os novos fazem a medição correta. Por isso, aumenta o consumo", acrescenta o diretor, pontuando que, caso o morador solicite avaliação, a autarquia enviará um técnico no local.
Em caso de dúvida, o consumidor deverá procurar o DAE para esclarecê-la no Poupatempo, situado na avenida Nações Unidas, 4-44. Ainda segundo informações obtidas pela reportagem junto ao DAE, quando o ar passa pelo hidrômetro ele calcula girando seu mecanismo para determinado lado, mas assim que a água chega, este mesmo mecanismo corre para o sentido contrário, o que resultaria em uma compensação. Mesmo assim, em caso de reclamações, é necessário procurar a autarquia.
.jpg)