Primavera de 2010. Novamente encontro-me em Chicago participando da feira gastronômica National Restaurant Association, evento anual que reúne milhares de pessoas ligadas ao ramo de restaurantes, hotelaria e afins. Como meu escritório de arquitetura tem como principais clientes empresários ligados ao ramo de alimentação, interesso-me, naturalmente, pelo tema. Primeiro dia de feira e o entusiasmo é total. Quero ver e perguntar sobre tudo. Equipamentos, novas tecnologias, acabamentos diversos, orientações técnicas, degustação, enfim, preciso conhecer tudo o que há de mais moderno na área. Depois de um dia inteiro percorrendo os pavilhões da feira sem ter visto nem a metade dela, voltei para o hotel satisfeito, mas exausto. Afinal, o Mccormik Center ocupa um espaço muito maior que o do Pavilhão de Exposições do Anhembi.
No dia seguinte, sei que preciso otimizar o tempo e ser mais seletivo para não perder o foco da minha ida à feira. Apesar de as visitas da manhã terem sido interessantes, fez-se necessário uma parada técnica para lanchar. Enquanto me alimentava, lembrei que a cidade de Chicago havia sido consumida por um grandioso incêndio no verão de 1871. Foi necessário reconstruí-la de forma rápida e eficaz. Assim, o uso do tijolo e de estruturas metálicas, bem como novos e eficazes sistemas de alicerçamento, cimentação, resistência e isolamento tornaram-se indispensáveis. Grandes "arranha-céus" surgiram e com eles a escola de Chicago ou estilo comercial, modificando a paisagem da cidade. Muitos arquitetos foram atraídos para esta nova empreitada.
Um dos mais conhecidos arquitetos desta escola foi Frank Lloyd Wright, que ajudou a impulsionar a arquitetura modernista não só em Chicago, como em todo os EUA. E este foi, sem sombra de dúvidas, um dos grandes ícones da arquitetura mundial. Obras como a Casa da Cascata (Casa Kaufman), Robie House e o Museu Solomon Guggenhein, na cidade de Nova York, são admiradas até hoje. Além de edifícios, templos, escolas e hotéis, deixou como legado o conceito central de sua produção, segundo o qual, um projeto deve ser único, levando-se em consideração sua localização e finalidade. Morreu em Phoenix, Arizona, com 91 anos, deixando uma obra memorável.
Nesse volteios da memória, recordei-me, também, que era justamente na cidade onde estava que havia vivido Frank Lloyd Wright, num bairro afastado do centro da metrópole. Sem pestanejar, peguei um táxi para ir até Oak Park. Depois de cerca de uma hora de viagem, lá estava eu, defronte à imponente casa/estúdio, na Chicago Avenue. Simplesmente maravilhosa! Passeei pelos lindos jardins observando cada detalhe, sem deixar de analisar a bela fachada daquela construção de dois andares. Entrei na parte térrea, visitei a sala de visitas, de jantar, a biblioteca, a cozinha e as dependências de empregados. O piso superior era composto por quatro dormitórios, banho e sala íntima. Tudo muito bem cuidado, preservando a ambientação original.
Guardei para o final aquilo que era, a meu ver, o principal espaço, o estúdio de trabalho. Anexo à casa principal, construído alguns anos depois. Atravessei o alpendre, o hall de entrada, passei pela biblioteca e adentrei uma grande sala de projetos. Deparei-me com pranchetas e mesas de trabalho sobre as quais via-se muitos projetos de arquitetura e materiais para desenho da época. No espaço muito bem organizado e decorado, havia muitos livros. As muitas janelas, a claraboia e os vitrais coloridos davam especial charme ao ambiente. A beleza dos móveis de madeira entalhada e a decoração do teto formavam, a meu ver, o ponto alto do local.
Imerso neste mundo, por um breve instante tive a sensação que o próprio arquiteto entraria por uma das portas e se sentaria defronte à prancheta. Teria sido um magnífico encontro. Se pudesse, convidaria alguns bons amigos arquitetos para desfrutar desta experiência comigo - Jurandyr Bueno Filho, Fernando Pinho, Emerson Crivelli, Edmilson Queirós Dias. Fiquei imaginando quão rica seria nossa conversa. Saí dali completamente renovado, com a certeza de que escolhi a profissão certa. Não voltei mais à feira, motivo inicial de minha viagem. Resolvi conhecer e aprender mais sobre arquitetura andando pela linda Chicago. Voltei outras vezes à cidade e à feira, sem nunca deixar de lembrar deste "encontro" com o grande mestre Frank Lloyd Wright.