Tribuna do Leitor

Resposta a publicação sobre incêndio em sala de aula da E.E Stela Machado

Por Profª Fernanda Pizzigatti Marques Jasinevicius - Profª da E.E Stela Machado - Bauru | SP
| Tempo de leitura: 5 min

No papel de professora da E.E Stela Machado, proponho-me a convidar os leitores deste jornal a refletirem sobre a notícia vinculada no dia 07/11/2017, que trata de incêndio em sala de aula da referida escola.

Sou uma professora da rede estadual de ensino desde 12/05/1995, passei por várias mudanças no cenário educacional paulista, passei por 4 Diretorias de Ensino diferentes (Botucatu, Marília, Piracicaba e por fim Bauru), fui professora substituta por 10 anos mudando de sede escolar a cada vez que o professor retornava de sua licença (todas elas tiradas legalmente), até me tornar professora efetiva em 2005. Convivi com todo tipo de gestão escolar e com todo tipo de Gestor, uns mais burocratas, outros mais humanizados, outros focados no pedagógico e por aí vai.

Posso dizer que tenho experiência em conviver com todos que fazem parte de uma comunidade escolar. Fui aluna, sou mãe, fui coordenadora pedagógica (nesta mesma escola por 5 anos), mas nunca deixei de ser professora desde que comecei a lecionar e sempre prezei por bons relacionamentos pois acredito que a harmonia entre as pessoas faz milagres. Saber conviver faz milagres!

Hoje, no contexto educacional, está na moda falar em "Gestão Participativa e Democrática" sendo que o sentido dessas palavrinhas qualquer pessoa é capaz de entender e, ainda que não se pertença a esse contexto, não é difícil entender-lhes o sentido. Logo, não parece difícil também perceber, ao se ler sobre o incêndio, que algo de muito estranho está havendo dentro da escola.

No início deste texto, disse-lhes que convivi com todo tipo de gestor, mas esqueci do mais novo e atual tipo de gestor: o que não gerencia. Esse pra mim é novidade! Convivi com quem gerencia bem, com quem gerencial mal, mas com quem não gerencia é a minha primeira experiência e confesso-lhes, que pelo menos eu, não sei lidar com isso!

É a primeira vez que vejo esse tipo. O tipo que "tenta" jogar a própria comunidade escolar contra as pessoas que tentam fazer um trabalho de qualidade com seus filhos! Digo "tentam", porque não temos conseguido como sabemos que somos capazes. Já provamos isso inúmeras vezes...grande Stela Machado!

Fico bem apreensiva com essa notícia e ainda mais estarrecida com o que consta no B.O., realizado pelo gestor da unidade. Como pode o gestor colocar toda sua equipe docente em xeque, acusá-la, depreciá-la, incutindo-lhe culpa, cuja responsabilidade não lhe cabe?

Claro que quem está lendo pode pensar: Como assim não é responsabilidade dos professores? Eu afirmo, não é! E os convido: Passem lá para ver, fiquem um tempinho conosco. Garanto-lhe que não precisarão de vários dias, talvez um ou dois.

Muitos pais convivem conosco e sabem e conhecem a nossa realidade perfeitamente, e como conhecem!

Como será que essa notícia repercute na sociedade bauruense? Como as pessoas que não conhecem a realidade em que vivemos podem e vão nos julgar "erroneamente"? Cautela com os pensamentos, ampliem os horizontes, mudem o foco dos professores para outros que queiram, pensem em hipóteses...

Se não executamos nosso trabalho como gostaríamos, afirmo que não é por conta da capacidade docente, muito menos falta de qualificação, ou falta de compromisso da nossa parte e sim por conta de tudo aquilo que "deve" alicerçar o nosso trabalho, como horários de aulas elaborados visando a produtividade e o rendimento escolar para cada disciplina, quantidade de funcionários suficientes em cada período, limites claros aos alunos, e aí por diante.

Os funcionários que fazem a função de inspetores se desdobram! Eles são poucos, bem poucos e é claro que não conseguem dar conta do recado, isso é impossível! E trabalham, como trabalham! Só nós sabemos do esforço que cada um empreende dentro da unidade escolar! Meus parabéns aos poucos que restaram, porque os demais ou pediram remoção ou exoneraram, porque será meu Deus!?

Porque será que os professores dessa escola estão adoecendo a cada dia? Porque será que estão pedindo remoção para outras unidades?

Porque que os alunos, como foi citado na notícia, ficam "perambulando" pela escola? Afirmo que eles não ficam "perambulando" só quando faltam professores. Eles ficam "perambulando" o tempo todo, com professor em sala de aula ou sem professor, com coordenação ou sem coordenação, com direção presente ou sem direção!

Cadê o comandante do barco? Ou será eu, como docente, além de ministrar minhas aulas, cuidar dos meus alunos dentro da sala de aula, exigir empenho, dedicação e muitas vezes ensiná-los a ter respeito às normas, a mim, aos demais professores e funcionários, que ainda tenho que elaborar minhas avaliações bem como corrigi-las, elaborar projetos e outras coisas mais terei eu que gerir? Será que também terei que cuidar da parte administrativa e da vida funcional dos funcionários com comprometimento e atenção?

Minha escola, porque ela é minha e de toda comunidade escolar que vive diariamente seus sucessos e seus fracassos, que conhece cada pedacinho dela e que sabe de todo o seu potencial, é formada por professores de excelência, de funcionários que em sua maioria se dedicam diariamente, muitos, muitos e muitos ficando doentes, sendo esses profissionais que amam o que fazem (cada um em sua função) e que fazem o possível e o impossível para reverter à situação atual, clamam por gestão, clamam por alguém que venha para amar nossa escola e que busque conosco o sucesso! Que execute de fato uma gestão democrática e participativa, que esteja disposto a nos conhecer, que venha com o espírito positivo e entusiasmado para levantar nossa riqueza chamada Stela Machado, agregando as pessoas e não as distanciando e, finalmente, que venha com o propósito de elevar a autoestima do professor e dos funcionários que está tão judiada!

Peço novamente temperança no pensamento de vocês leitores, não atirem pedras sem conhecer a nossa realidade, por favor! Não sejam superficiais e nem tirem conclusões por conta de uma notícia de jornal de algumas linhas. Nós não somos notícias, somos pessoas brigando diariamente para reverter à situação da educação em nossa escola e em todo o país.

Somos apenas uma escola em que seus integrantes almejam por um comandante que guie o barco junto conosco na direção correta e não aquele que nos boicotará, porque não estamos dormindo com o inimigo!

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