Tribuna do Leitor

Sobre direitos e deveres

Diego Marques Viana
| Tempo de leitura: 3 min

Fui ao supermercado esses dias e estava mais lotado que o normal, quase não tinha vaga no estacionamento... Cheguei ao instante em que outro cliente estava acabando de sair e consegui estacionar. Fiz minhas compras e me dirigi até o caixa rápido.

A fila era um pouco grande em todos os caixas, inclusive nos preferenciais. Notei no caixa ao lado que uma cliente estava indagando sobre o valor de determinado produto, que constava mais barato na gôndola e que ao passar no caixa o valor estava errado.

Logo ela se indispôs, pedindo ao funcionário que estava próximo para que verificasse o valor do produto. Ressalto que ela era uma pessoa bem educada, não tratou ninguém sem a devida urbanidade, apenas exigiu seus direitos como consumidora.

O funcionário veio e a explicou que o valor estava correto e ela disse, com razão, que o valor deveria estar claro e objetivo, conforme a lei consumerista. Fiquei observando de longe pra ver a reação das atendentes, pois a cliente tinha razão e sabia do que estava falando e como advogado, se precisasse, intercederia em seu favor.

Todavia, os funcionários do mercado a atenderam com respeito e tudo foi resolvido.

Observei a atitude dessa cliente de longe e fiquei até feliz por ela saber onde pisava, já que nós, consumidores, somos diariamente lesados, mesmo que por coisas sem muita importância na visão dos donos do negócio.

Coincidentemente saí no mesmo instante que essa cliente e me dirigi ao estacionamento. O que flagrei fez cair por terra toda a imagem que acabara criar sobre essa pessoa...

Com toda aquela educação que acabara de demonstrar, conhecedora de seus direitos e no auge de sua saúde, havia estacionado seu veículo em vaga de deficiente físico, que, aliás, havia apenas duas no mercado.

Será que era tão educada assim? Ou só quando lhe interessava? Precisamos sim, saber de nossos direitos como cidadãos e até batalhar para que eles sejam cumpridos, mas a vida em sociedade não se resume a direitos, mas também a deveres.

Nesse caso, ela invocou seu direito de consumidora, hipossuficiente perante aquele estabelecimento varejista, mas nem se preocupou em deixar aquela vaga para deficientes físicos, àqueles que realmente, não só tem o direito sobre aquela vaga, mas precisam dela. Dessa forma, verificamos que muitas vezes nossa indignação é seletiva. Reclamamos de sermos lesados, por exemplo, por instituições financeiras, mercados, governos, mas deixamos de cumprir um simples aviso de fila preferencial, vaga para deficientes ou idosos etc.

J. B. Henri Lacordaire nos ensina que "justo e honrado é o homem que mede seus direitos com a régua de seus deveres". E é bem por aí que devemos pensar e agir. Tenho direito de exigir, como consumidor, eleitor, cidadão que recolhe impostos, mas tenho o dever de respeitar o direito dos deficientes, idosos, pedestres, entre outros.

Claro que não devemos seguir a lei cegamente, sem margem às interpretações, mas, no caso acima mencionado, houve não o descumprimento de uma regra legal, mas também moral, pois um cadeirante que chegasse ao mercado naquele dia teria que estacionar seu carro na rua ou exigir seu direito àquela vaga.

Vamos refletir sobre o assunto antes de exigirmos direitos. Verifiquemos se estamos medindo nossos direitos pela mesma régua de nossos deveres!

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