Regional

A influência da República na região de Bauru

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 11 min

Aurélio Alonso
Busto do marechal Floriano Peixoto fica no que restou de uma área da Praça da República em Botucatu

Os nomes de ruas e praças ao longo do tempo ganharam denominações por influência de fatores históricos. No caso da proclamação da República em 1889, que marca uma nova fase política no Brasil, os nomes de seus ativistas, presidentes e até a data de 15 de novembro ficaram marcadas nas denominações de ruas, avenidas e até praças. Na região é comum nomes de Benjamin Constant, Lopes Trovão, Quintino Bocaiuva, marechal Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto figurarem nas placas dos principais logradouros públicos. Isso ocorre principalmente nas cidades com mais de 100 anos de fundação.

Em Botucatu, por exemplo, há em vários pontos da cidade os "sinais" dessa reverência aos republicanos. Uma das principais avenidas leva o nome do ex-presidente Floriano Peixoto, o primeiro vice-presidente do país que assumiu a presidência após a renúncia do Marechal Deodoro, de 23 de novembro de 1891 a 15 de novembro de 1894, no período da República das Espadas. Ganhou o apelido de "Marechal de Ferro" por ter achado necessário governar o Brasil com punho forte devido aos inúmeros problemas encontrados por ele durante seu governo.

O busto dele fica no que restou da Praça da República botucatuense, uma pequena área nas divisas dos prédios da Emef e da estadual Dr. Cardoso de Almeida, atualmente destinada à educação de jovens e adultos. O estabelecimento foi a primeira escola pública de Botucatu, cujo projeto foi concebido pelo arquiteto Victor Dubugras em estilo neogótico e neo-românica. Na mesma área teve o segundo prédio da escola com o mesmo nome construída em 24 de maio de 1916. A proclamação da República tem um significado muito forte para Botucatu. O historiador João Figueiroa declara que o novo regime alterou o poder de mando na cidade, levou para o legislativo pessoas novas e criou a base do crescimento do município. A escola Cardoso de Almeida, por exemplo, foi a primeira escola pública construída em 1897. "Era obra da República que deu especial atenção ao ensino. Outra decisão foi a construção de um novo cemitério, pondo um fim no que existia na parte central destinado somente para sepultamentos de católicos. Com a separação de Estado e Igreja é o fim de cemitérios só para evangélicos e católicos", explicou.

Em Jaú, também há homenagens ao período da República. A principal praça, no Centro, ganhou homenagem, embora com o tempo veio o apelido "Jardim de Baixo", mas paralela ao logradouro há a rua Quintino Bocaiuva, onde ainda convive antigos casarões, alguns em mau estado de conservação, com edificações modernas. O nome dessa rua é homenagem a um jornalista e político brasileiro, conhecido por sua atuação no processo da proclamação da República. Em Lins, Lençóis Paulista, Ibitinga e São Manuel existem homenagens parecidas. 

Nome de ruas marcam o período

Ativistas republicanos, ex-presidentes e data da proclamação viraram denominações de logradouros, praças e avenidas em cidades da região?

Fotos: Aurélio Alonso
A rua comercial no Centro de Lençóis é uma homenagem ao dia da proclamação da República
Placa indica o nome da principal rua de Lençóis Paulista
Rua Quintino Bocaiuva de Jaú tem casarões do século 20 e nome homenageia ativista republicano
Avenida Floriano Peixoto de Botucatu homenageia ex-presidente

A proclamação da República foi um marco na história do Brasil. Passados 128 anos, na região é possível esbarrar com nomes de ativistas, a própria data e até o uso do próprio termo do regime político instaladas em placas e denominações de logradouros públicos em Botucatu, Jaú, Lençóis, Cafelândia, Lins, Ibitinga, São Manuel, Pederneiras entre outras cidades.

Os nomes de ex-presidentes como Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Quintino Bocaiuva, Ruy Barbosa, Benjamin Constant, Campos Sales, Lopes Trovão, Demétrio Ribeiro, entre outros ativistas republicanos são lembrados. 

Ao longo dos anos os fatos influenciaram na definição dos nomes, mas a partir da proclamação da República é o período em que mais a política ganhou espaço. O professor e diretor do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Jorge Cintra, ao explicar ao site Nexo Jornal declarou que a República mudou muita coisa. "Daí vão surgir ponte, avenidas e ruas com nomes de donos de jornais, pai de prefeito, esposa de governador, mãe de empresário e por aí vai".

Na região de Bauru, basta percorrer as áreas centrais das cidades, principalmente as com mais de 100 anos de existência para encontrar as homenagens republicanas. Em Lençóis Paulista, a rua principal do comércio ostenta a data Quinze de Novembro. As cidades de Pederneiras, Lins e São Manuel também têm uma rua com o mesmo nome.

No caso de Jaú é onde se concentra várias homenagens ao período republicano. Um dos principais logradouros, chama-se Praça da República, embora com o tempo tenha ganhado o apelido de "Jardim de Baixo". Mas paralela à praça existe a rua Quintino Bocaiuva, onde se mistura edifícios novos com casarões antigos ainda do começo do século passado.

A via tem início no Rio Jaú, que já foi retificado a partir do fim da década de 60. O trajeto terminava na saída da cidade, onde é a avenida Ana Claudina. Ao da Quintino há vários prédios tombados pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico.

O logradouro hoje é uma rua comercial, mas no passado esteve ligado ao transporte da produção agrícola. Por essa rua é onde as sacas de café eram levadas até o armazém, localizado na esquina com a Humaitá. 

As marcas da República estão também em outras ruas como a Floriano Peixoto e Ruy Barbosa.

Proclamação da República teve influência forte em Botucatu

Fotos: Aurélio Alonso
Escola Cardoso de Almeida foi a primeira escola pública
Busto de Floriano Peixoto fica entre as duas escolas de Botucatu

O advento da República influenciou em muito a política de Botucatu. O professor João Figueiroa atribui a chegada do novo regime como "revolução". Já de início alterou o poder de mando no município, levou ao Legislativo novas lideranças e criou a base de crescimento da cidade.

No largo da Catedral é possível perceber o legado republicano. Bem em frente da prefeitura há um busto do marechal Floriano Peixoto em um local que no passado foi a Praça da República, instalado em agosto de 1942 na gestão do prefeito João Maria de Araujo Junior. Os dois prédios imponentes de arquitetura em estilo neogótico e neo-românica foi concebido pelo arquiteto Victor Dubugras.

Um dos prédios é atualmente a Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Dr. Cardoso de Almeida, atualmente destinada à educação de jovens e adultos. O edifício foi erguido em 1895, a primeira escola de Botucatu. Figueiroa atribui como "obra da República" por ser a primeira escola pública da cidade. "A República deu especial atenção ao ensino. E foi ocupar, contrariando costumes de então, um luga na Praça da Matriz", conta o historiador.

O professor explica que antes as escolas existiam em casas alugadas, mas não eram públicas. "A República começa a propagar o ensino público e gratuito construindo prédios próprios e adequados para as primeiras letras. Surge assim a escola Cardoso de Almeida. Outra influência da República é que a locação de prédio público vai para a principal praça da cidade. Até então na antiga praça da matriz tinha um jardim longo, enorme, e em volta as famílias de maior posse construíam suas residências", conta.

Nessa área posteriormente seriam construídas a Escola Estadual Cardoso de Almeida em 24 de maio de 1916. Os dois prédios estão lado a lado. O historiador lamenta, no entanto, que a sólida construção está desfigurada do projeto original. O busto de Floriano Peixoto fica na calçada bem no meio das duas edificações.

Outro detalhe foi a inauguração do cemitério Portal das Cruzes, implantando uma nova sistemática republicana, com a nova necrópole servindo a todos os credos. O antigo cemitério ficava no prédio do antigo Fórum, onde será a futura pinacoteca. "Com a implantação da República há separação de Igreja e Estado, pondo fim a ter cemitério só para sepultamento de católico e de evangélicos", cita.

República não teve apoio popular

O professor de história João Francisco Tidei de Lima destaca que o movimento que derrubou a monarquia foi uma ação militar e não houve ruptura

Isabela Ribeiro/Divulgação
João Francisco Tidei de Lima: República não teve apoio popular

O professor João Francisco Tidei de Lima explica que a proclamação da República não teve uma grande ruptura nas estruturas sociais e econômicas do País. Na próxima quarta-feira completa 128 anos do movimento que derrubou D. Pedro II do poder obrigando-o a deixar o país, após um longo período de monarquia. Lima possui graduação em História e Geografia pela Universidade do Sagrado Coração (1961) e mestrado em História Social pela Universidade de São Paulo(1978). 

Os primeiros anos do novo regime foram conturbados. O presidente Deodoro da Fonseca ficou pouco tempo no cargo e renunciou para que o vice Floriano Peixoto assumisse.

Na região a República é um marco para muitas cidades que passaram a receber mais infraestrutura, como é o caso de Botucatu, onde é construída a primeira escola pública e o fim do cemitério só para católicos.

Lima afirma que, mesmo com todas as dificuldades do novo regime, não deixou de ser um avanço em comparação à monarquia. Mas o professor destaca que, do período da proclamação em 1889 até 1930, o país ainda tinha índice de analfabetismo alto e uma economia agrária controlada por proprietários de grandes fazendas de São Paulo e Minas Gerais, a política café com leite, com o revezamento no poder de presidentes dos dois estados. A seguir os principais trechos da entrevista:

JC - A proclamação da República foi um movimento que mudou o país?

João Tidei - No Brasil nunca teve ruptura. O rei de Portugal D. João VI veio para cá para fugir de Napoleão, se estabeleceu aqui, quando houve a abertura dos portos. Depois voltou, deixando o filho D. Pedro I. Este também posteriormente retornou à sua pátria, deixando o filho, D. Pedro II. O movimento republicano não teve apoio popular. No meu modo de ver foi mais uma ação militar, não que não houvesse anseios republicanos. E, na véspera da proclamação da República, o Brasil ainda tinha escravos. Foi o último país da América do Sul a abolir a escravidão em 1888, então havia uma série de problemas acumuladas, não havia ruptura. O Estados Unidos fez uma guerra civil para acabar com a escravidão. A monarquia vai acabar no ano seguinte da abolição da escravidão. O Marechal Deodoro assumi, fica pouco tempo no cargo e o vice Floriano Peixoto termina o primeiro mandato. A República Velha não teve grandes mudanças até 1930. O Brasil era na realidade um aglomerado de latifúndios, administrado por grandes proprietários de São Paulo e Minas Gerais. A ruptura mesmo começamos a ter a partir de 1930.

JC - Na região, a República mudou algumas características das cidades. Nas mais centenários como Jaú e Botucatu se percebe que, após a implantação do novo regime, houve forte adesão a nova ordem e posteriormente a homenagem aos ativistas com nomes de ruas e praças?

João Tidei - Sem dúvida, digamos que foi para mostrar que estava havendo mudanças. Durante esse período da República Velha a grande maioria da população era analfabeta. As mulheres, religiosos e militares não votavam. Só tinham esse direito os maiores de 21 anos, mas sem o voto secreto. O último presidente desse período, Júlio Prestes eleito em 1930 quando o antecessor era Washington Luis, foi eleito por uma porcentagem que não chegou a 3% da população brasileira, um índice pouco representativo.

JC - A República teve importância?

João Tidei - Não deixa de ser uma avanço a implantação do novo regime político, embora a monarquia ainda continue em vários países avançados da Europa e da Ásia, como por exemplo Inglaterra e Japão.

JC - A proclamação da República muda aos poucos a situação econômica?

João Tidei - Claro que houve mudanças. A chegada dos imigrantes após a abolição da escravatura trouxe mais de 4 milhões. Se comparado com os Estados Unidos, o número de imigrantes no Brasil é muito menor do que foi para o território americano: lá foram 40 milhões de imigrantes - dez vezes mais. Isso ocorreu porque a lei de terras dos EUA facultava o acesso à terra na marcha para o oeste. Aqui no Brasil, a lei de terras só permitia adquirir pelo instrumento de compra. O processo de concentração continuou. Mas com tudo isso o regime republicano foi positivo para o país. A partir de 1930 passa a ser criada a Justiça do Trabalho, a regulamentação do trabalho da mulher, a legislação trabalhista e outros avanços.

JC - O começo do regime republicano foi conturbado?

João Tidei - Muito conturbado e com pouca participação popular. O Ruy Barbosa perdeu a eleição de 1910 para o Hermes da Fonseca. Em 1924 teve a Revolta Paulista de 1924, também chamada de Revolução Esquecida, e a segunda revolta tenentista e o maior conflito bélico da cidade de São Paulo. Teve início na madrugada de 5 de julho e terminou em 28 de julho de 1924. A revolta foi motivada pelo descontentamento dos militares com a crise econômica e a concentração de poder nas mãos de políticos de São Paulo e Minas Gerais. Desse movimento vai sair a Coluna Prestes. O movimento tenentista é importante porque a revolta de 1922 é contra a falta de reformas na República. O tenentismo vai estar envolvido na revolução de 1930 junto com Getúlio Vargas, tendo a participação de Joaquim Távora.

 

Comentários

Comentários