Cultura

Uma mulher por trás de "3%"

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Samantha Ciuffa
A diretora da série “3%” (Netflix), Dani Libardi, na FIB, em 6/11: palestra elaborada exclusivamente para o evento bauruense

Diretora, artista plástica e feminista. É assim que se autodefine Dani Libardi, uma das diretoras da primeira série brasileira original da Netflix, o thriller distópico "3%", que entrará em sua segunda temporada em 2018, com alcance em 190 países.

Na última segunda-feira, Dani esteve em Bauru para ministrar a palestra "Dirigindo séries e novos conteúdos no Brasil: processo artístico de uma jovem diretora" na 12ª edição do Comfib, realizado pelas Faculdades Integradas de Bauru (FIB).

Na ocasião, ela recebeu o JC e contou detalhes sobre sua trajetória e a produção da série para a Netflix, plataforma de streaming que vem ganhando cada vez mais espaço e criando desafios para o modo de fazer TV.

Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.

JC - Qual é a proposta da palestra apresentada no Comfib?

Dani - É uma palestra que montei exclusivamente para o evento. Como o público majoritário é de estudantes, resgatei coisas que me motivaram quando eu estava na faculdade, experiências que eu tive e que foram fundamentais para eu chegar onde estou. A ideia é tentar fazer estes jovens refletirem sobre o que eles querem dizer para o mundo ao produzirem conteúdos. E como sou mulher, diretora e feminista, também acho legal destacar que a mulher pode fazer figurino, maquiagem, pro dução, pode dirigir, roteirizar e ser protagonista. Pode tudo.

JC - Dentro do universo audiovisual, elas ainda são minoria em funções de liderança?

Dani - Eu fiz audiovisual na USP e, na minha turma, era meio a meio. Mas, quando entra no mercado de trabalho, a coisa muda, principalmente em uma posição como a minha. No 3%, temos uma representatividade legal. De quatro diretores, duas são mulheres: eu e a Daina Giannecchini. E é uma série de distopia, que tem tiro, porrada. Não é algo que o senso comum espera que uma mulher dirija.

JC - Esta preocupação com representatividade se estendeu ao elenco?

Dani - Sim e eu me orgulho bastante disso. Os personagens refletem a diversidade do povo brasileiro e temos protagonistas mulheres muito fortes, como é o caso da Michele (Bianca Comparato), Joana (Vaneza Oliveira) e Aline (Viviane Porto), além da Zezé Motta, maravilhosa.

JC - Como surgiu a ideia da série?

Dani - O criador é o Pedro Aguilera, que foi meu colega de faculdade e os diretores somos eu, a Daina e o Jogatá Crema. Em 2009, o Pedro teve a ideia e ganhamos o edital FIC-TV, do Ministério da Cultura, TV Brasil e Cinemateca Brasileira, para fazer um projeto-piloto de uma série para público jovem. Depois, transformamos este piloto em uma websérie e, em 2011, postamos no YouTube. E viralizou.

JC - E como o material chegou à Netflix? Houve um convite?

Dani - Isso eu não posso falar. Mas, até chegar à Netflix, foi muito chão. A série é um outro produto, uma história baseada na mesma ideia inicial, mas com personagens novos. E, em seis anos, nós - diretores e o criador - também vemos o mundo diferente.

JC - Na série, as pessoas vivem em um mundo de restrições, mas, quando completam 20 anos, passam por um duro processo de seleção, sendo que 3% alcançam o Maralto, onde tudo é abundante. Trata-se de uma crítica ao conceito de meritocracia?

Dani - Discutir o que é justo ou injusto é algo que, particularmente, me move muito no 3%. Até onde você iria para conseguir uma vida digna? É justo comparar pessoas que têm privilégios com as que não têm? Seria justo se todas estivessem em pé de igualdade? Mas, claro, a série é sobre os personagens, os dilemas que eles atravessam, é sobre este desejo que a gente tem de ser bem-sucedido e o que é preciso fazer para chegar lá.

JC - E como tem sido a receptividade do público?

Dani - Não posso falar em números, mas o 3% tem sido um grande sucesso, inclusive fora do Brasil. Eu recebo mensagens de gringos de todos os países do mundo, Itália, Líbano, Canadá. Apesar de ser uma série de língua portuguesa, ela trata de um tema tão pertinente a vários países, que acaba tocando as pessoas.

JC - Quem quiser saber mais sobre você, onde deve te procurar?

Dani - No instagram, é @danisliba; no Facebook, danilibardi; e o meu site é https://www.danilibardi.com/

O Comfib 

Samantha Ciuffa
Angélica Santini: professora e coordenadora dos cursos

Realizado de 6 a 8/11, o 12º Comfib é evento acadêmico que visa integrar estudantes dos cursos de comunicação da FIB e de outras universidades, bem como ex-alunos e profissionais.

Nesta edição, o enfoque foi a produção de conteúdos inovadores em multiplataformas, com a realização de palestras, exibição de produções dos alunos durante a Exposição Publicitária Acadêmica (EPA) e a 1ª Mostra Audiovisual FIB e premiação realizada no Alameda Quality Center.

"A cada encontro, são escolhidos temas pertinentes à área de publicidade e de produção audiovisual para trazer, de maneira empírica, o que está acontecendo no mercado e que pode se relacionar com o que os alunos estão estudando e pesquisando dentro da universidade", observa a professora e coordenadora dos cursos, Angélica Santini.

Detalhe: a inscrição no evento foi a doação de um brinquedo, destinado à campanha de Natal do grupo Felicidade.

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